Compartilhe:

Jornalismo

Dois velhinhos

No asilo eles imaginam a vida, conta Dalton Trevisan

PorDalton Trevisan

31/05/2023

Ilustração Omar Grassetti
Ilustração Omar Grassetti 

Dois inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.

Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um consegue espiar lá fora.

Junto à porta, no fundo da cama, para o outro é a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, pergunta o que acontece. Deslumbrado, anuncia o primeiro:

- Um cachorro ergue a perninha no poste.

Mais tarde:

- Uma menina de vestido branco pulando corda.

Ou ainda:

- Agora é um enterro de luxo.

Sem nada ver, o amigo remorde-se no seu canto. O mais velho acaba morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.

Não dorme, antegozando a manhã. O outro, maldito, lhe roubara todo esse tempo o circo mágico do cachorro, da menina, do enterro de rico.

Cochila um instante - é dia. Senta-se na cama, com dores espicha o pescoço: no beco, muros em ruína, um monte de lixo.

Conto publicado no livro Mistérios de Curitiba, Ed. Record

Confira outros contos publicados no site da NOVA ESCOLA!

 

Especial ERA UMA VEZ...

continuar lendo

Veja mais sobre

Últimas notícias