Um sim à docência

Diferentes profissionais deixam as áreas de atuação pela vontade de lecionar

POR:
Elisa Meirelles
Fernanda Assis Campos, estagiária no Colégio Mão Amiga, em Itapecerica da Serra, SP. Sílvia Zamboni
"Abandonei a carreira na área financeira para voltar à graduação, estudar o desenvolvimento infantil e fazer a diferença na vida dos alunos."
Fernanda Assis Campos, estagiária no Colégio Mão Amiga, em Itapecerica da Serra, SP

Dados do Censo da Educação Superior mostram que as matrículas em carreiras ligadas à docência no país não evoluem no mesmo ritmo que as dos demais cursos. De 2011 para 2012, o número de inscritos no conjunto das graduações cresceu 4,4% e, nas Licenciaturas, aumentou apenas 0,8%. Estudos revelam também que a profissão não está entre as mais atrativas para os jovens e que poucos querem ir para a área. Há, no entanto, um grande número de pessoas que, depois de já ter ingressado no mercado de trabalho, chega aos bancos das universidades em busca de um objetivo: ser professor.

Ao observar uma sala de aula de Pedagogia ou Licenciatura, é comum encontrar alunos um pouco mais velhos. De acordo com o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) 2011, a idade média de conclusão do curso de Pedagogia é de 33,4 anos. Apenas 19% dos concluintes têm até 24 anos, 21% estão na faixa dos 25 aos 29, 19% na de 30 e 34 e 40% têm 35 ou mais. Parte dessas pessoas já leciona e está em busca de um diploma, mas muitas ainda estão iniciando a carreira. "O ingresso tardio nos cursos para a docência constitui a regra antes que a exceção", comenta Bernardete Gatti, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas (FCC), no estudo Professores do Brasil: Impasses e Desafios, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

As razões que levam esses profissionais a procurar a docência já mais maduros variam. Há quem cresceu em condições menos favoráveis e começou a trabalhar cedo em empregos que exigiam só o Ensino Médio, deixando para a frente o sonho do diploma universitário. "Muitos alunos, em especial nas universidades particulares, vêm da escola pública e começaram a trabalhar cedo", comenta Juliano Custódio Sobrinho, professor de História na Universidade Nove de Julho (Uninove). Existem também pessoas que puderam escolher, optaram por outras graduações e, já no mercado de trabalho, quiseram mudar.

Fernanda Assis Campos, 37 anos, mora em São Paulo e é um exemplo. Formada em Administração de Empresas e pós-graduada em Finanças, ela fez carreira em bancos e fundos de investimentos e tinha uma vida típica dos profissionais da área, com muitas horas de dedicação ao trabalho e reconhecimento. Quando os filhos nasceram, parou de trabalhar por um período e passou a acompanhá- los. "Comecei a me dedicar a eles e a me encantar pelo desenvolvimento humano. Foi ficando claro para mim que o país exige um olhar atento à Educação e que há muito por fazer." A administradora já se questionava sobre a profissão e decidiu arriscar. Não voltou para a área antiga, prestou vestibular e, em 2012, ingressou no Instituto Singularidades para cursar Pedagogia.

A mudança foi radical: voltar à sala de aula mais de dez anos depois de formada, sair de uma carreira consolidada e recomeçar. "O fato de gostar muito da área faz essas diferenças serem prazerosas e ajuda a ter paciência e a entender que é um recomeço", diz ela, que fez estágio desde o começo do curso, passando por escolas públicas e particulares. "As pessoas às vezes estranham minha escolha, mas depois aceitam", diz.

Este ano, a administradora iniciou um estágio no Colégio Mão Amiga, escola gratuita mantida por uma ONG em Itapecerica da Serra, região metropolitana de São Paulo. "Hoje acompanho as aulas de crianças de 8 e 9 anos. As atividades que faço em sala estão sendo utilizadas em meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), sobre o uso de jogos no Ensino Fundamental."

A volta à universidade trouxe experiências importantes. "Sempre gostei de estudar, e vejo no curso uma preocupação real com a formação", comenta. A relação com os colegas também tem sido bastante positiva. "Eu trago a minha experiência de vida e as meninas mais novas me dão informações do mundo de hoje, das novas tecnologias. É uma boa troca."

Fernanda sabe que o salário não será equivalente ao anterior, mas está segura da decisão. "Tenho consciência de que vou ganhar menos, mas meu marido me ajuda e vamos tentar cortar gastos. Em contrapartida, conseguirei acompanhar meus filhos mais de perto e contribuir de verdade com a formação de muitas crianças."

À espera da universidade

Sônia Santos de Oliveira, professora em duas escolas da rede pública de Ocara, CE. João Paulo Maciel
"Durante cinco anos, conciliei a faculdade com o trabalho em outras áreas para poder me formar em Letras na universidade e ingressar definitivamente na carreira docente."
Sônia Santos de Oliveira, professora em duas escolas da rede pública de Ocara, CE

Sônia Santos de Oliveira, 26 anos, não teve as oportunidades de Fernanda, mas compartilha a mesma vontade de dar aula. Moradora de Ocara, a 104 quilômetros de Fortaleza, ela ingressou cedo no mercado de trabalho, tendo apenas o Ensino Médio completo. "Comecei em uma loja de roupas, depois fui conselheira tutelar e gerente de um posto de gasolina", relata.

O sonho de ser professora foi postergado pela ausência de uma universidade no município em que morava. "Quem queria estudar tinha de ir a Quixadá, a 76 quilômetros de Ocara. Como trabalhava, não conseguia ir." A vida começou a mudar quando foi aberto um polo do curso de Letras da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) na cidade em que vive. Sônia prestou vestibular, foi aprovada e passou a conciliar trabalho e estudo.

A flexibilidade de horário do curso foi fundamental para que a equação desse certo. "As aulas aconteciam nos fins de semana e, diariamente nos meses de férias", explica. Com a graduação, vieram também os estágios obrigatórios. Sônia conta que atuou como estagiária em duas escolas da cidade, cumprindo a carga horária exigida pela universidade. Para tanto, contou com o apoio dos patrões, que a liberavam nos horários necessários às atividades. "Sempre que apareciam cursos ligados à docência, eu fazia a matrícula e me organizava para dar conta de tudo", lembra.

No fim de 2012, ela concluiu o curso e, no ano seguinte, passou a se dedicar exclusivamente à docência. Foi aprovada como professora do Projovem, voltado à Educação de Jovens e Adultos (EJA), na EMEF Minelvina Maria da Conceição e como docente do currículo regular na EEF Francisco Correia Rodrigues, ambas em Ocara.

Se encontrar profissionalmente

Camila Antunes, professora-auxiliar no Colégio Ciman, em Brasília. Arquivo pessoal/Camila Antunes
"Deixei de lado a advocacia e fui atrás de uma área em que me sentisse realizada. Entrei em Pedagogia, comecei a estagiar e percebi que tinha acertado."
Camila Antunes, professora-auxiliar no Colégio Ciman, em Brasília

Como Sônia, Camila Antunes sempre teve vontade de ser professora, mas o preconceito que existe em relação à área retardou a decisão. Ela se formou em Direito em 2006, passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em 2007 e começou a trabalhar. "Nessa época, já pensava em ir para a Educação, mas tinha receio. Resolvi continuar na carreira de advogada, mas nunca me identifiquei com ela", conta.

A mudança veio aos 28 anos. "Não estava feliz e pensei: ou me aposento ou recomeço." Camila, que trabalhava com leilão judicial, largou o emprego, foi aprovada no Instituto Superior de Educação Vera Cruz (Isevec) e se tornou auxiliar em uma pré-escola. Desde então, não deixou mais a sala de aula. Estagiou em diferentes instituições e foi em busca de formação.

No fim de 2013, mudou-se para Brasília e saiu batendo de porta em porta nas escolas da cidade pedindo trabalho. Conseguiu uma colocação como auxiliar no Colégio Ciman e hoje cuida do Laboratório de Informática, atendendo 13 turmas do 2º ao 5º ano. Por causa dos novos horários, transferiu a graduação para a Educação a distância (EAD) na Universidade Anhembi Morumbi. "Acho que os cursos online são o caminho para a formação, mas sinto falta de interagir com os colegas. Tenho pensado tanto nisso que será o tema do meu TCC", conta a advogada.

Hoje, aos 30 anos, ela se sente uma profissional realizada. "Trabalho com o que gosto. Saio todo dia pensando sobre o que melhorar na minha prática. Leio e pesquiso, coisas que não fazia."

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