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Jornalismo

Por que 8 de março é o Dia Internacional da Mulher?

Entenda a origem do Dia Internacional da Mulher e conheça sugestões de atividades de História sobre a data

PorJonas CarvalhoPaula Nadal

06/03/2023

Crédito: Getty Images
Foto: Getty Images

O Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, é uma das datas comemorativas do mês que pode ser usada com intencionalidade pedagógica em uma série de disciplinas. Além da possibilidade de encerrar práticas que perpetuam o preconceito e o machismo, o dia é uma oportunidade para desconstruir ideias, propor a reflexão e estimular nos alunos a busca por uma sociedade com mais equidade de gênero.

“A gente precisa evitar estereótipos e preconceitos e problematizar a questão [dos direitos das mulheres] sem romantização ou atividades sem sentido”, opina Roberta Duarte, membro do Time de Formadores da NOVA ESCOLA e professora de História para os Anos Finais do Ensino Fundamental na EM Professor Silvio Romero Vieira, em Jaboatão dos Guararapes (PE). 

A especialista, que realiza trabalhos acadêmicos e pesquisas sobre gênero há quase 15 anos, também afirma que ainda existem escolas e redes de ensino que, além de abordarem o 8 de março de maneira estereotipada, restringem as discussões de gênero ao Dia da Mulher. “Por que não levar a discussão para ser desenvolvida ao longo do ano? Por que o tema precisa ser uma discussão de uma data só, e depois vira-se a chave para discutir projetos de Páscoa? O assunto precisa continuar, já que é importante e parte da realidade dos estudantes.”

Os casos constantes de violência contra as mulheres, os feminicídios e a desigualdade de oportunidades são mencionados por Roberta como alguns dos motivos que justificam não apenas trabalhar a data em sala de aula, mas também realizar projetos sobre o tema durante todo o ano. “Os estudantes não estão alheios a isso. Logo, é preciso levar o assunto para ser discutido de forma contextualizada”, acrescenta a professora.

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Isis Ferrari, que atua na formação de professores na Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Profissionais da Educação (EFAPE) do Estado de São Paulo e é professora de História, afirma que realiza formações para mostrar como questões de gênero podem ser levadas para a sala de aula durante o ano inteiro, e não apenas em março. 

“Trazemos o tema para as formações de professores o ano inteiro. Em novembro de 2022, por exemplo, falamos sobre mulheres negras na Filosofia, área na qual há poucos exemplos de filósofas”, relata a formadora. “E, na semana do Dia Internacional da Mulher, potencializamos essas discussões e quebramos paradigmas do senso comum sobre o que é socialmente feminino.” 

A história do dia 8 de março

As histórias que remetem à criação do Dia Internacional da Mulher alimentam o imaginário de que a data teria surgido a partir de um incêndio em uma fábrica têxtil de Nova York em 1911, quando cerca de 130 operárias morreram carbonizadas.

Sem dúvida, o incidente ocorrido em 25 de março daquele ano marcou a trajetória das lutas feministas ao longo do século 20, mas os eventos que levaram à criação da data são bem anteriores a esse acontecimento.

Desde o final do século 19, organizações femininas oriundas de movimentos operários protestavam em vários países da Europa e nos Estados Unidos. As jornadas de trabalho de aproximadamente 15 horas diárias e os salários medíocres introduzidos pela Revolução Industrial levaram as mulheres a greves para reivindicar melhores condições de trabalho e o fim do trabalho infantil, comum nas fábricas durante o período.

O primeiro Dia Nacional da Mulher foi celebrado em maio de 1908 nos Estados Unidos, quando cerca de 1500 mulheres aderiram a uma manifestação em prol da igualdade econômica e política no país. No ano seguinte, o Partido Socialista dos EUA oficializou a data em 28 de fevereiro, com um protesto que reuniu mais de 3 mil pessoas no centro de Nova York e culminou, em novembro de 1909, em uma longa greve têxtil que fechou quase 500 fábricas americanas.

Em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas na Dinamarca, uma resolução para a criação de uma data anual para celebração dos direitos das mulheres foi aprovada por mais de cem representantes de 17 países. O objetivo era honrar as lutas femininas e, assim, obter suporte para instituir o sufrágio universal em diversas nações.

Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), eclodiram ainda mais protestos em todo o mundo. Mas foi em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário juliano, adotado pela Rússia até então), quando aproximadamente 90 mil operárias se manifestaram contra o Czar Nicolau II, as más condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra – em um protesto conhecido como “Pão e Paz” – que a data se consagrou, embora tenha sido oficializada como Dia Internacional da Mulher apenas em 1921.

Somente mais de 20 anos depois, em 1945, a Organização das Nações Unidas (ONU) assinou o primeiro acordo internacional que afirmava princípios de igualdade entre homens e mulheres. Nos anos 1960, o movimento feminista ganhou corpo; em 1975, comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher; e, em 1977, o “8 de março” foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas.

“O 8 de março deve ser visto como um momento de mobilização para a conquista de direitos e para discutir as discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas pelas mulheres, impedindo que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países”, explica a professora Maria Célia Orlato Selem, mestre em Estudos Feministas pela Universidade de Brasília e doutoranda em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

No Brasil, as movimentações em prol dos direitos das mulheres surgiram em meio aos grupos anarquistas no início do século 20, que buscavam, assim como nos demais países, melhores condições de trabalho e qualidade de vida. 

A luta feminina ganhou força com o movimento das sufragistas, nas décadas de 1920 e 1930, que conseguiram o direito ao voto em 1932, na constituição promulgada por Getúlio Vargas. 

A partir dos anos 1970, emergiram no país organizações que passaram a incluir na pauta das discussões a igualdade de gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher. Em 1982, o feminismo passou a manter um diálogo importante com o Estado, com a criação do Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo e, em 1985, com o aparecimento da primeira Delegacia de Defesa da Mulher.

Possibilidades de atividade sobre o Dia da Mulher nos Anos Finais do Fundamental

A professora de História Roberta Duarte conta que trabalhará questões de gênero não só no dia 8 de março, mas também ao longo do ano. No mês da mulher, o objetivo envolveu propor reflexões aos alunos sobre o que a luta pelos direitos das mulheres, intensificada ao longo dos séculos 19 e 20, trouxe para o presente dos estudantes de ambos os gêneros.

No mês seguinte, na escola de Jaboatão dos Guararapes, também será desenvolvida uma atividade na qual os estudantes farão entrevistas com mulheres da escola e com pessoas próximas para recolher falas que, depois, serão utilizadas em um mural na instituição, para estimular o empoderamento feminino.

No passo seguinte, a docente conta que será realizada uma análise midiática das mulheres para que os alunos pensem sobre representação feminina. “A ideia também é analisar páginas em redes sociais que trazem pautas feministas, para mostrar como as mulheres têm se posicionado nesses espaços”, afirma. 

Também é possível, de acordo com a educadora, pensar em atividades sobre o tema de acordo com o ano e a etapa de ensino. “Para o 7º ano do Ensino Fundamental, estou trabalhando [em sala de aula] a Idade Média. Então levo reflexões sobre a atuação das mulheres no Renascimento, por exemplo.”

Outra sugestão seria proporcionar espaços de fala e escuta aos estudantes, em especial às meninas, para que possam contar o que pensam e o que já vivenciaram em relação a gênero.

Isis Ferrari, da EFAPE, traz exemplos de contextos históricos, já previstos para serem abordados nos Anos Finais do Ensino Fundamental, que facilitam trabalhar questões de gênero e propor reflexões. “A Revolução Francesa, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, traz as primeiras noções de igualdade, justiça e direito para o mundo ocidental. Posteriormente, em regimes democráticos, você pode falar da participação política. No Brasil, houve no começo do século 20 um movimento feminino muito forte para pedir mais participação”, afirma a especialista.

Para o 9º ano, a formadora de São Paulo sugere a abordagem de temas contemporâneos que podem ser debatidos com os estudantes. “Há uma perspectiva de arte no teatro e no cinema, a partir das décadas de 1990 e 2000, em que cada vez mais temos diretoras mulheres”, exemplifica.

Para o 8 de março em específico, Isis comenta que é possível trabalhar em sala de aula uma série de elementos relacionados à data. “O incêndio é um dos marcos e ocorreu em um contexto de Revolução Industrial, e o trabalho das mulheres nesse momento foi fundamental [para a economia], mas elas recebiam baixos salários e não tinham nenhum direito trabalhista. Esses e outros aspectos desse momento histórico são pontos que os professores podem usar.”

Por fim, a especialista sugere que algumas das atividades para o 8 de março envolvam a ampliação do repertório de meninas e jovens na escola. “Quanto mais modelos e exemplos de mulheres em posições de liderança e em áreas como Literatura, Engenharia, Artes, Política, Medicina etc., melhor. Os homens são muito acostumados a ter exemplos masculinos. Além de problematizar a data, o Dia Internacional da Mulher também é um momento para levar referências para as estudantes”, afirma. 

*Texto publicado originalmente em 06/03/2018 e atualizado em 08/03/2023 para acréscimo de informações.

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