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01 de Abril de 2014 Imprimir
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Pnaic: alfabetização na mira

Pacto traz avanços ao formar professores, mas diversidade de teorias prejudica resultados

Por: Rosi Rico
Alfabetização na mira. Raphael Salimena

Garantir que todas as crianças saibam ler e escrever até os 8 anos, ao concluir o 3º ano. Esse é o objetivo do Pacto Nacional para Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), iniciativa do governo federal - em parceria com estados, municípios e universidades - que visa oferecer formação continuada a professores alfabetizadores. A tarefa, essencial para o sucesso dos alunos em toda a trajetória escolar, é complexa. Os resultados da Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização (Prova ABC), realizada em 2011, revelam que apenas 56,1% dos estudantes do 3º ano aprenderam o que era esperado em leitura.

As formações do Pnaic começaram em 2013 e foram concentradas em leitura e escrita (leia os depoimentos na última página). Este ano, o foco será Matemática. A abrangência e o compartilhamento de responsabilidades são as principais características da iniciativa. "O fato de haver uma mobilização nacional em torno de uma meta específica é muito rico", diz Fátima Fonseca, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac. "O que antes parecia ser um dever só do professor passa a ser de todos", completa Fátima Aparecida Antonio, diretora de Ensino Fundamental e Médio da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Outro ponto conta a favor do Pnaic: a aproximação com as instituições de Ensino Superior que capacitam os professores orientadores que formam os alfabetizadores.

Um dos maiores desafios do Pnaic é oferecer formação para profissionais com diferentes níveis de conhecimento e de experiência pedagógica. "Esse quadro pode ser benéfico quando pressupõe a apreensão criativa, ou seja, a adaptação de determinada proposta de acordo com o contexto encontrado", diz Luciana Piccoli, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "Mas pode ser problemático quando ocasiona distanciamento entre as propostas conceituais e a prática pedagógica", completa.

Repensar a prática com os colegas

Alfabetização na mira. Raphael Salimena

"Ainda temos, infelizmente, professores com uma formação inicial precária", diz Fátima Fonseca. Para ela, o pacto pode ajudar na solução do problema ao oferecer formação continuada. Essa possibilidade de debate foi apontada pelos professores da rede municipal de São Paulo como um dos principais destaques do Pnaic. "Favoreceu muito para os participantes o pensar e repensar a prática o tempo todo: poder voltar para o grupo de formação e debater o que havia sido feito em sala, como o aluno compreendeu, quais os avanços e as dificuldades deles", diz Fátima Antonio.

São várias as metodologias de alfabetização apresentadas no programa, que não segue uma orientação teórica única. "O Pnaic tenta abarcar tudo", diz Fátima Fonseca. Essa miscelânea implica aplicar uma variedade de atividades sem se aprofundar no questionamento sobre o que se entende por alfabetizar uma criança - discussão essencial. "Quando se defende que alfabetizar é levar o aluno a conhecer sílabas e juntar as letras para ler e escrever, algumas propostas do pacto dão conta. Mas se a perspectiva de que ler e escrever são ações intelectuais e não mecânicas, de que formar leitores e escritores competentes vai muito além de só codificar e de que a criança precisa conseguir fazer uso da linguagem escrita em suas diferentes formas, algumas atividades são questionáveis e não bastam", completa.

Questionamento semelhante é feito por Marisa Garcia, doutora em Educação e consultora do Programa Ler e Escrever, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. "Defendo a boa intenção do programa, mas o material didático é ruim, algo mais próximo da cartilha." O Ministério da Educação (MEC) enviou às escolas livros didáticos, manuais do professor, jogos pedagógicos e softwares educativos, além de dicionários de Língua Portuguesa e obras literárias.

Para Marisa, falta ao Pnaic voltar-se para a criança. "O programa está centrado só no ensino, e não no processo de aprendizagem. Ele não leva em conta o tempo que a criança precisa para se apropriar do sistema de escrita, algo muito mais complexo do que se tratar de um código de escrita. Falta também discutir conhecimentos didáticos, e não só a metodologia." Tanto para que ocorra um aprofundamento sobre as questões que envolvem o processo de aprendizagem no ciclo de alfabetização quanto para minimizar eventuais falhas na formação inicial do professor, é preciso tempo. "Um ano não é suficiente para que ocorra uma mudança na prática do professor, para ele desconstruir o que está cristalizado na sua prática e estudar para que uma nova forma de trabalhar tenha espaço", diz Marisa.

Esse ponto, porém, foi revisto. Segundo Fátima Antonio, este ano, além da formação em Matemática, com a mesma carga horária de 2013 - 200 horas para os orientadores e 120 horas para os alfabetizadores -, a formação em alfabetização vai continuar, com mais 40 horas. Pela proposta inicial, em 2015 os orientadores ficariam disponíveis para formar alfabetizadores que não participaram dos primeiros anos de formação do Pnaic. "Mas há a possibilidade de nova reavaliação no fim deste ano e de que as turmas atuais também continuem com as aulas de Matemática e Língua Portuguesa no próximo." Mais do que ampliar a carga horária, o que se espera é a transformação do pacto em um programa de formação efetivamente continuada. "Essa não pode ser uma política pontual. Precisa ser permanente, uma formação garantida dentro do trabalho na escola pública", conclui Luciana, da UFRGS.

Depoimentos das professoras

Literatura virou rotina

"No ano passado, todos os dias, um dos 26 alunos da minha turma do 3º ano levava para casa uma sacola com um livro que iria ler para os pais, os irmãos e demais familiares. No dia seguinte, ele contava a história para os colegas. A ideia era convencê-los a também ler a obra. E, às sextas-feiras, todos saíam da escola com livros. Meu objetivo era, além de estimular a leitura, trabalhar a oralidade, a capacidade de se expressar com clareza e o hábito de ouvir. Essa atividade só foi possível por causa do acervo enviado pelo MEC como parte do Pnaic. Antes, o contato dos meus alunos com obras literárias não era frequente. Eu mesma não percebia a importância da literatura para o aprendizado da leitura. Isso mudou até para mim, e hoje sou apaixonada por poesia. A participação na formação permitiu que eu entrasse em contato com novas práticas. Nos encontros semanais, ficávamos sabendo das experiências dos demais professores do município, trocávamos ideias e também passávamos nossa experiência. Assim fomos construindo nosso conhecimento."

Zulene Maria Maia da Silva. Foto: Arquivo pessoal

Zulene Maria Maia da Silva, professora do CM Luís Cândido de Oliveira, em Ocara, a 100 quilômetros de Fortaleza


Textos ganharam coesão

"Leciono há apenas três anos para turmas de alfabetização e, por isso, quis muito participar da formação, que me ajudou no planejamento das aulas. O que mais gostei foram as sequências didáticas, que incluíam atividades que eu já realizava com o 2º ano, mas não de forma organizada. Antes, eu apresentava um texto para os alunos, ajudava na interpretação e pronto. Com a sequência, fábulas, por exemplo, passaram a fazer parte das aulas ao longo de várias semanas, cada vez acompanhadas de uma atividade diferente. Primeiro, lemos o texto. Nas aulas seguintes, as crianças fazem uma pesquisa em dicionários para encontrar as palavras desconhecidas. Também proponho a comparação entre fábulas. Finalmente, elas escrevem suas próprias versões para as histórias, trabalhando em agrupamentos produtivos, o que aprendi também no Pnaic. Depois, os textos são expostos na biblioteca da escola para outros alunos e os pais lerem. Eles passaram a produzir textos de melhor qualidade, com mais coerência e coesão."

Juciclea Sousa Elias Silva Pinheiro. Foto: Arquivo pessoal

Juciclea Sousa Elias Silva Pinheiro, professora da EM Amador Aguiar, em Joinville, a 186 quilômetros de Florianópolis


Sem grandes avanços

"A formação do Pnaic não trouxe muita novidade para mim, que até o ano passado só tinha lecionado para o 2º ano. Acho que isso ocorreu porque participei de outras formações. Com o pacto, só dei continuidade ao excelente trabalho que já é realizado na rede. Além disso, na minha escola, aproveitamos as aulas de trabalho pedagógico coletivo (ATPC) para debater as práticas em sala de aula. Nosso grupo é consistente e coeso e estuda há muito tempo junto. Talvez essa não seja a realidade de outros professores que participaram do Pnaic e tiveram uma oportunidade maior de aperfeiçoamento. Mas considerei uma boa chance para descobrir possibilidades. Achei bom ter visto mais de perto os gêneros textuais e as sequências didáticas, por exemplo. Ao revisitar o conteúdo, cada olhar novo ajuda no crescimento profissional, mas o material didático poderia ser melhor. Na realidade nacional pode ser uma alternativa, mas o que uso vai além do proposto no pacto e inclui intervenções que ajudam no avanço da alfabetização."

Francine Somensi Barbosa. Foto: Arquivo pessoal

Francine Somensi Barbosa, professora da EE Professora Maria Aparecida dos Santos Oliveira, em Ibitinga, a 353 quilômetros de São Paulo

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