Tem, mas ainda é pouco

Os recursos materiais para uso da tecnologia já estão disponíveis, ao menos nas escolas públicas das grandes capitais. Mas ainda são insuficientes e não estão a serviço da aprendizagem dos alunos

POR:
Renata Costa, Iracy Paulina, NOVA ESCOLA

Ilustração Marcelo Calenda (sobre foto de Tamires Kopp)

Ilustração Marcelo Calenda 
(sobre foto de Tamires Kopp)

Os números da pesquisa feita pela Fundação Victor Civita mostram que há equipamentos nas escolas, mas seu uso ainda é muito mais burocrático do que pedagógico. Os funcionários administrativos acessam as máquinas 4,7 vezes por semana, em média - enquanto os professores só fazem isso 3,2 vezes por semana e os alunos ainda menos: 2,6 vezes por semana, em média. Entre outros fatores, a quantidade de máquinas disponíveis faz diferença (como mostra a tabela da próxima página). Quanto mais computadores a escola tem, maior é a frequência de uso para atividades educacionais, inclusive com a participação dos estudantes.

Além disso, a conexão à internet é fundamental para desenvolver um bom trabalho. Segundo o levantamento, as escolas que têm apenas conexão discada acabam utilizando as máquinas apenas para atividades administrativas ou para tarefas muito básicas, como ler notícias, copiar conteúdos, consultar mapas, usar calculadora ou planilha eletrônica. Já nas escolas em que os professores fazem um uso mais avançado da tecnologia em atividades com os alunos (como criar blogs e páginas na web, programar ou desenvolver projetos de iniciação científica ou usar robótica educacional e programas de modelagem 3D), o acesso é quase sempre via banda larga.

Roseli Lopes de Deus, pesquisadora do Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (LSI/USP) e uma das coordenadoras do estudo, destaca que a questão da mobilidade também é essencial para um bom uso das máquinas a serviço da aprendizagem. "Nos próximos anos, eu acredito que teremos acesso a um produto que vai ficar entre um celular e um laptop, ou seja, será fácil de carregar e terá capacidade de armazenamento razoável e preço menor que o dos laptops atuais", diz ela (leia mais na entrevista abaixo).

Vire a página e confira a experiência de um município do estado do Rio de Janeiro que está conseguindo aliar a tecnologia ao dia a dia de todas as escolas da rede - e conheça algumas propostas que as redes públicas podem adotar para tornar os computadores mais próximos de professores e alunos.

18% das escolas que têm laboratório de informática não usam o recurso para trabalhar com os alunos

Foto: Marina Piedade
Foto: Marina Piedade

Roseli Lopes de Deus é pesquisadora do Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da USP, que coordenou a análise dos dados levantados pelo Ibope em 400 escolas de 13 capitais brasileiras

O que mudou nos últimos dez anos no investimento em computadores para escolas?
Roseli Hoje, paga-se menos por computadores mais potentes e com recursos multimídia e a tecnologia sem fio pode facilitar muito o acesso à internet, que antes era difícil e caro. O governo reduziu os impostos na produção de computadores e criou programas para facilitar a aquisição de máquinas pelos professores. E ainda há o projeto Um Computador por Aluno, um passo além do conceito do laboratório de informática.

A mobilidade dos equipamentos pode melhorar o uso?
Roseli
Poder usar o equipamento onde quiser, da maneira que quiser, é uma vantagem óbvia. Ainda há uma questão com a segurança. Enquanto os laptops custarem caro, os diretores escolares terão medo de deixá-los circulando pelas salas.

O que falta para ampliar o acesso à tecnologia?
Roseli Investir ainda mais em equipamentos e em mobilidade. Mas vejo um cenário positivo, pois a tecnologia na Educação entrou na pauta nacional. Todos sabem que o acesso à internet é tão importante quanto a eletricidade e o saneamento básico, pois é a possibilidade de se conectar e aprender sempre que vai tornar os jovens mais preparados para o mundo do trabalho.

E o que os professores podem fazer na sala de aula?
Roseli Eles têm ferramentas poderosas para alcançar os objetivos de ensino e precisam estimular os alunos a usar o computador e a internet para avançar nos conteúdos.

Ações que podem fazer a diferença

1 Disponibilizar mais recursos para professores e alunos.
Isso pode ser feito com equipamentos nas salas de aula ou criando mais laboratórios de informática. "Já há no mercado laptops com as mesmas funcionalidades dos computadores de mesa usados nos laboratórios por preço bastante similar. Da mesma forma, é fácil implantar uma estrutura de rede sem fio por toda a escola sem gastar muito", afirma Lea Fagundes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A vantagem é que os laptops permitem que professores e alunos trabalhem com as máquinas onde e quando quiserem, ampliando as experiências de aprendizagem.

2 Investir em conexão à internet compatível com o uso nas escolas.
Ter uma conexão à internet que funcione de fato também é fundamental. Não adianta ligar os cabos e os alunos não conseguirem usar porque a velocidade de tráfego de informações é muito lenta. Ou restringir o acesso à web apenas a uma sala da escola. Daí a importância de pensar num sistema de internet sem fio que permita conectar-se em diversos ambientes. Segundo Franklin Dias Coelho, da Universidade Federal Fluminense (UFF), o planejamento da conexão mais adequada não deve ser feito só pela Secretaria de Educação. "É preciso ouvir a comunidade escolar, que pode ajudar a dimensionar suas reais necessidades."

3 Cuidar da manutenção preventiva dos equipamentos.
Em todas as escolas, essa é uma medida fundamental para garantir que as máquinas estejam sempre em condições de uso pela equipe administrativa, pelos professores e pelos alunos. Segundo a pesquisa encomendada pela Fundação Victor Civita, apenas 23% das escolas se preocupam com essa questão atualmente.

4 Facilitar o acesso aos equipamentos.
A equipe gestora da escola deve garantir que professores e alunos possam utilizar os computadores sempre que necessário. Adotar um controle excessivamente burocrático atra­palha a aprendizagem.

Uma cidade 100% conectada

MOBILIDADE TOTAL No CIEP Rosa da Conceição Guedes, laptops são usados em todas as áreas da escola. Foto: Gilvan Barreto
MOBILIDADE TOTAL  No CIEP Rosa da 
Conceição Guedes, laptops são 
usados em todas as áreas da 
escola. Foto: Gilvan Barreto

Desde 2004, Piraí, a 90 quilômetros do Rio de Janeiro, conta com um programa de democratização de acesso aos meios de informação e comunicação, batizado de Piraí Digital, que garante acesso à internet (sem fio) em toda a área do município. O projeto usa o chamado Sistema Híbrido com Suporte Wireless (SHSW) e levou três anos para ser implantado, ao custo de 2 milhões de reais, bancados pela prefeitura, pelo governo do estado e por entidades como a Universidade Federal Fluminense (UFF), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Itautec. "Essa infraestrutura foi fundamental para a implantação de um projeto inovador do uso de tecnologia nas escolas", explica Maria Helena Coutiero Horta Jardim, do departamento de Ciências da Computação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora educacional do Piraí Digital.

Graças ao projeto, em 2007 Piraí foi escolhida pelo Ministério da Educação como uma das cinco cidades brasileiras para testar o programa Um Computador por Aluno (UCA). Num primeiro momento, o CIEP Rosa da Conceição Guedes recebeu 400 laptops para todos os professores e estudantes. "Em apenas dois anos, a escola atingiu a meta do Ideb para 2015, sobretudo com uma grande redução das taxas de evasão", afirma Franklin Dias Coelho, professor da UFF e coordenador técnico do Piraí Digital. A iniciativa foi tão bem sucedida que, em 2008, a prefeitura fez uma nova parceria com o governo estadual e implantou o UCA nas 20 escolas da rede, que atendem a 6,5 mil alunos (foram comprados mais de 5 mil laptops, ao custo de 4,8 milhões de reais).

Além da infraestrutura, a Secretaria de Educação repensou o projeto educacional. "O ponto de partida é rever paradigmas e fazer com que os professores se tornem facilitadores para o aluno, que ganham autonomia", diz Maria Helena. A formação docente para usar a tecnologia é feita em serviço. "Promovemos oficinas em que os educadores apresentam os conteúdos que pretendem trabalhar com suas turmas e recebem apoio para incorporar as ferramentas tecnológicas ao trabalho." Hoje, os computadores fazem parte da vida de todos. Os estudantes do CIEP Rosa da Conceição Guedes que mais se destacam atuam como monitores na implementação dos computadores em outras escolas locais. E, no dia a dia, usam as máquinas a todo momento: na quadra, para calcular a massa corporal durante as aulas de Educação Física; em sala de aula, em atividades de Arte; no laboratório de Ciências
e assim por diante.

O mapa da tecnologia

A infraestrutura nas 400 escolas pesquisadas

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