Contexto pouco favorável

Jornada excessiva de trabalho, distorções conceituais, falta de investimento e descontinuidade política fazem a Educação Ambiental patinar na amazônia

POR:
NOVA ESCOLA

Apesar de todas as secretarias estaduais da região amazônica terem coordenadorias próprias de Educação Ambiental, o trabalho nas redes muitas vezes é feito sem um apoio bem estruturado e sem orçamento adequado. Fica restrito aos seminários genéricos e às efemérides - em um contexto de pesadas cargas horárias dos professores, como declaram os representantes de Pará, Amazonas, Roraima, Rondônia e Mato Grosso.

O Acre foi o único estado citado pelos especialistas como referência no assunto. Desde o começo do ano, um referencial curricular local, com a Educação Ambiental como eixo, está disponível, sendo discutido e usado como motor para a formação dos educadores e gestores, dentro de um departamento que só cuida do assunto. A rede acreana também tem um dos melhores salários do país, pagando um piso de 1,6 mil reais por 30 horas semanais dez delas dedicadas a planejamento e formação continuada. Há ainda um baixíssimo contingente de docentes temporários. A grande maioria é concursada, o que garante um vínculo maior do professor com a escola, já que ele pode se fixar em determinada unidade.

No Pará, o governo estadual assume que as ações ainda estão começando a ser articuladas, apesar de todo o debate mundial sobre o tema. "Antes, não estava funcionando. Não tinha essa institucionalização pela secretaria, por uma coordenadoria. Temos há pouco mais de um ano, mas já estamos com várias ações de formação continuada previstas para o segundo semestre", explicou a responsável pelo departamento, Socorro Lopes.

Em Rondônia, a questão da descontinuidade administrativa incomoda. Infelizmente, ainda falta uma política pública sólida. "Somos apenas um projeto, não temos verba própria. É uma questão de conscientização do chefe que está no momento. Em nosso caso, pelo menos temos a promessa de que nesta gestão a coisa vai andar", afirma a coordenadora Andressa Ferreira, sem datas previstas para esses avanços.

Em Roraima, o conceito usado pelo governo estadual nem sempre está de acordo com as orientações para a área. Vários trabalhos de Educação Ambiental já foram realizados nas escolas do estado, como passeata ecológica, plantação de mudas de plantas regionais, frutíferas e ornamentais, palestras e dias temáticos, segundo nota oficial da secretaria, que cita também a meta de capacitar 300 profissionais em três anos, entre professores e técnicos da rede pública estadual, como agentes multiplicadores.

No Amazonas, a estrutura já está mais adiantada, mas o governo sabe que a dimensão do estado dificulta a tarefa de tratar o tema transversal de forma correta nas salas de aula. Há a organização de seminários, palestras e oficinas, mas a Educação Ambiental muitas vezes é simplificada para que as distâncias sejam vencidas. "Batemos na tecla dos projetos didáticos. É simples, fácil e todo mundo ganha: professor, escola e governo. Não é complicado e não demanda tanto tempo", analisa Marinete de Souza Castro, coordenadora do tema no estado.

No Mato Grosso, recentemente noticiado como campeão de desmatamento, a Educação Ambiental vem sendo trabalhada, mas esbarra na carga horária dos educadores da rede. 40% do quadro é formado por professores não-efetivos, que mudam constantemente de unidade, sem criar o vínculo essencial para um bom desempenho nos temas transversais. Mesmo os contratados não têm exclusividade. "Uma parcela significativa dobra a jornada, e muitas vezes pega um turno noturno. Atrapalha, temos consciência disse e estamos tentando discutir a questão", diz Rosa de Almeida, secretária-adjunta de políticas educacionais, também sem citar quando os avanços virão.

A secretaria de Educação do Amapá não respondeu aos pedidos de entrevista, até a publicação da reportagem.

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