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01 de Setembro de 2008 Imprimir
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Como não deixar ninguém para trás

Redes de sucesso reconhecem o ritmo de cada estudante e ajudam os que mais precisam

Por: Beatriz Santomauro, Eliseu Braga, NOVA ESCOLA

"Qualidade para todos e para cada um." Se há um país que segue esse preceito à risca, é a Finlândia. A proeza é fruto dos programas de apoio aos alunos com dificuldade de aprendizagem. Além de ocuparem os primeiros postos no Pisa, os finlandeses têm a menor variação de notas por escola entre as nações avaliadas pela McKinsey, que aponta como terceira lição para chegar ao topo a importância de não deixar nenhum aluno para trás.

Os professores de reforço finlandeses passam por uma formação diferenciada: freqüentam um curso universitário chamado Educação Especial, que dura de cinco a sete anos (leia mais no quadro ao lado). No dia-a-dia, trabalham com uma equipe que inclui psicólogos, psicopedagogos e consultores. "Essa estrutura é uma maneira democrática de nivelar as diferenças entre as origens sociais dos estudantes e melhorar o desempenho de todos", afirma Reikko Laukkanen, do Conselho Nacional de Educação da Finlândia. Ao longo da vida escolar, cerca de 20% dos alunos passam por aulas suplementares no contraturno, índice muito acima da média internacional, de 6%.

Na Finlândia

1% de repetência
2º no Pisa (Leitura)
2º no Pisa (Matemática)

Encarando problemas
A estrutura de ensino finlandesa é preparada para as diferenças

FORMAÇÃO COMPLETA Sarmia, de Helsinque, preparou-se durante cinco anos para poder atuar em aulas de reforço. Foto: Matti Bjrkman
FORMAÇÃO COMPLETA Sarmia, de Helsinque, preparou-se durante cinco anos para poder atuar em aulas de reforço. Foto: Matti Bjrkman

Para que todos possam aprender, a Finlândia tem um curso superior especializado na formação de professores de reforço: é a chamada Educação Especial. "É um trabalho muito gratificante, pois ajuda a nivelar as diferenças sociais e enfrentar problemas econômicos, que invariavelmente se refletem na escola", diz Vesa-Pekka Sarmia, professor da escola Meilahden Yulastee, em Helsinque, a capital finlandesa. Ele trabalha há cinco anos lecionando Matemática, Finlandês, Sueco e Inglês para grupos de dois a seis estudantes com dificuldades de aprendizagem - as classes regulares têm até 25. As aulas ocorrem no contraturno e duram uma hora e meia. O grau de dificuldade de cada aluno determina quantos dias por semana ele vai freqüentar as aulas. No início do trabalho de reforço, a formação específica ajuda a reconhecer qual o principal problema do estudante: se é de ordem psíquica, familiar ou de aprendizado. Baseado nesse diagnóstico, professores como Sarmia têm a opção de usar diferentes recursos: vídeos, livros, músicas e internet. Os estudantes recebem apoio extra para se manter no mesmo nível que seus colegas de classe, acompanhando-os em provas e tarefas.

O Brasil ainda engatinha nesse campo de atender a todos - sem exceção. Embora não existam estatísticas oficiais a respeito, são raras as redes que adotam o reforço (veja o exemplo de uma delas no quadro da página seguinte). Uma pena. Essa iniciativa certamente ajudaria muito a melhorar o nível de nossa Educação, que nos últimos anos privilegiou a questão do acesso à escola, em detrimento da qualidade. Como essa estratégia de universalização não veio acompanhada do aumento do orçamento para a Educação, o sistema público acabou sucateado. Debandando para as instituições particulares, a classe média não sentiu tanto o baque - em geral, os filhos de quem pode pagar seguiram tendo aulas melhores. Quem mais sofreu com esse processo foram as camadas mais pobres da população, que só conseguiram pela metade o direito à Educação: quantidade sem qualidade.

No Brasil

19% de repetência
53º no Pisa (Leitura)
54º no Pisa (Matemática)

Mais dedicação
No Tocantins, o reforço teve de vencer resistências

TUDO NA PRÁTICA Sandra, de Palmas, só juntou a carga das classes regulares com as de reforço, sem apoio extra. Foto: Gustavo Sá
TUDO NA PRÁTICA Sandra, de Palmas, só juntou a carga das classes regulares com as de reforço, sem apoio extra. Foto: Gustavo Sá

Até criar um planejamento consistente para o reforço e atender um número relevante de alunos - 20% do total -, a rede municipal de Palmas batalhou por quatro anos. Foi preciso vencer resistências dos próprios professores. "Apesar da recomendação de que quatro das 40 horas da carga de trabalho sejam dedicados ao reforço, alguns colegas entendiam esse período como um tempo livre. A partir de 2007, instituímos uma fiscalização rigorosa e o problema diminuiu", diz Danilo Souza, o secretário municipal de Educação. A opção da rede foi oferecer as disciplinas em que os estudantes têm mais dificuldades, Matemática e Língua Portuguesa. Para ministrá-las, professores que lecionam nas turmas regulares foram direcionados para as aulas no contraturno. Mesmo sem treinamento específico para a função, eles reconhecem os benefícios da iniciativa: "Noventa por cento dos alunos que participaram das aulas no primeiro semestre melhoraram o desempenho e o comportamento no dia-a-dia porque sabem que podem aprender", afirma Sandra Jahn Marasca, professora de Matemática da Escola Rural Luiz Nunes de Oliveira. No segundo semestre, o trabalho continua. Como não há professores para todos, os alunos que já passaram pelo reforço precisam dar lugar a outros colegas.

POR ONDE COMEÇAR

Para ajudar quem mais precisa, o secretário de Educação deve ter em mente três aspectos essenciais. O primeiro deles diz respeito ao conjunto da rede: é preciso identificar as escolas onde se concentram os estudantes com dificuldades. "No combate às desigualdades, gestores municipais e estaduais precisam oferecer condições para que as instituições com os piores índices de desempenho recebam os melhores professores e mais recursos", afirma Regina Scarpa, coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita.

O segundo é uma análise interna de cada escola. Se a intenção for implantar aulas de reforço, é essencial saber quais estudantes necessitam do auxílio, um diagnóstico que pode ser feito por professores e coordenadores pedagógicos.

O terceiro ponto é escolher um tipo de reforço. Dependendo do quadro de funcionários, há a possibilidade de ampliar o tempo de serviço dos que compõem a equipe. "Contratar um professor para trabalhar as 40 horas semanais numa mesma escola é mais proveitoso do que tê-lo em diferentes locais. Fixá-lo num ambiente favorece sua ligação com os alunos", diz Romualdo Portela, professor da Universidade de São Paulo e especialista em política educacional. Se outro professor for assumir as turmas no contraturno, as aulas devem ser articuladas com o programa dos cursos regulares.

GRAU DE DIFICULDADE

Fácil. Das quatro lições, esta é possivelmente a mais simples de ser colocada em prática. A tarefa principal é uma reorganização parcial dos regimes de trabalho. Secretários de Educação têm uma função importante nesse aspecto. Isso porque incentivar a fixação de professores em menos escolas ou contratar profissionais específicos para as iniciativas de reforço exige fundamentalmente articulação entre o gestor da rede, os diretores e os professores.

CUSTOS

Aqui, a melhor notícia: se for eficiente contra a repetência, a aula de reforço pode representar uma economia para os cofres públicos. Um aluno reprovado no Ensino Fundamental custa, em média, 1,6 mil reais anuais (sem contar o inestimável custo psicológico de não passar de ano). Em Palmas, capital do Tocantins, o reforço por estudante sai por 260 reais anuais. Ou seja, cada criança que o reforço ajudar a avançar significa a despesa de 1 340 reais a menos.

TEMPO ESTIMADO

Médio. Criar aulas de reforço numa escola é relativamente fácil - aproveita-se o espaço ocioso, ajusta-se a carga horária de alguns docentes e pronto. O difícil é expandir essa iniciativa - tanto dentro de cada instituição, ajudando todos os estudantes que precisam, como universalizando o esquema para a rede inteira. Em Palmas, por exemplo, foram necessários quatro anos para que os alunos atendidos chegassem aos atuais 20%, espalhados pela cidade.

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