Parfor: formação desencontrada

Dificuldade em identificar demandas locais ameaça programa federal que oferece cursos para adequação de professores em exercício

POR:
Bruna Nicolielo
Formação desencontrada. Ilustração: Jean Galvão

Pelo menos 160 mil docentes brasileiros que estão em atividade não têm formação adequada, segundo dados do Censo Escolar 2010, conduzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Não há consenso sobre esse número, e outros levantamentos indicam que ele pode ser ainda maior. Em 2009, por exemplo, o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, falou em 330 mil. Naquela ocasião, porém, o dado foi citado em um contexto animador: estava sendo lançado o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) e Lula estimou que todos aqueles educadores seriam beneficiados pela nova iniciativa.

Concebido para ser uma das ações nacionais no trato à questão, o Parfor tem como objetivo fazer com que os docentes em exercício na rede pública de Educação Básica cumpram as exigências da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). O público é, portanto, composto daqueles que lecionam sem curso superior, trabalham com Educação, mas possuem graduação em outra área, ou, ainda, não possuem licenciatura na disciplina em que atuam.

O Parfor tem méritos. Oferece a possibilidade de atender educadores em 26 estados brasileiros - somente o Acre não aderiu à proposta, encaminhada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) - e chega a localidades distantes, como os rincões das regiões Norte e Nordeste, onde está boa parte da clientela.

Desde 2009, foram destinados 162 milhões de reais para a criação de 175 mil vagas. No entanto, falta fôlego para o programa ganhar escala. No ano passado, apenas 42% da oferta foi preenchida. O número de formados é mísero: até o fim de 2011, só 220 docentes concluíram cursos presenciais de segunda licenciatura - a que faltava para sua área de atuação - com duração média de dois anos. Enquanto isso, crianças e jovens esperam por professores que dominem os conteúdos e a forma de ensiná-los.

220  Professores se formaram na segunda licenciatura nos três primeiros anos do Parfor.

Fonte CAPES

Dificuldade de articulação atrapalha resultados

Quem observa de longe pode concluir que os resultados desanimadores refletem a falta de interesse do professorado. Afinal, só quem não está muito a fim de se aperfeiçoar deixaria de agarrar com unhas e dentes a oportunidade de estudar gratuitamente, nas modalidades presencial ou a distância, em cursos de dois a quatro anos, em instituições públicas de Ensino Superior e universidades comunitárias com conceito igual ou superior a 3 na avaliação do Ministério da Educação (MEC). A situação, contudo, não é bem essa.

Até a matrícula ser efetuada, há um longo processo. E o docente não tem outra escolha a não ser assistir a tudo de modo passivo. Primeiramente, estados e municípios identificam demandas. Quantos precisam de formação? Onde estão essas pessoas? Quais licenciaturas serão oferecidas? Depois, são organizados fóruns estaduais, em que se discutem a oferta e a procura. Deles participam o secretário de Educação, um membro indicado pelo governo, dirigentes das instituições públicas de ensino, representantes do MEC e das secretarias municipais de Educação e profissionais do Magistério indicados pela seccional da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Quando há um consenso, as vagas são disponibilizadas em uma plataforma eletrônica da Capes. Só então os docentes podem indicar o que desejam cursar - mas ainda precisam esperar a Secretaria (municipal ou estadual) validar a inscrição.

Além do percurso burocrático, o Parfor não engrena porque estados e municípios não têm uma logística organizada para levantar as informações necessárias a um preciso dimensionamento das necessidades locais da formação docente. Como resultado, infelizmente, há muitos cursos sem interessados e muitos interessados sem curso (veja nos gráficos abaixo como se dá essa disparidade).

Mesmo quando todos esses procedimentos são completados, persistem problemas em outra ponta da estrutura, em que estão as instituições de ensino responsáveis pela formação. Elas precisam rever o conteúdo programático para garantir a seriedade da iniciativa e planejar atividades que atendam às necessidades de um aluno que também é docente em exercício.

Além disso, o programa de estágio deve ser compatível com a realidade desses educadores, acontecer na mesma escola em que atuam e, preferencialmente, com as turmas para as quais eles lecionam. Em alguns casos, como na Universidade Estadual de Londrina (UEL), essa situação é assegurada e o estágio ainda prevê a produção de um artigo científico que pode ser usado como pré-projeto para o ingresso no mestrado.

É claro que o professor, principal personagem dessa história, também é responsável por fazer a iniciativa obter o resultado almejado e precisa levar essa oportunidade a sério. O Parfor não pode ser encarado apenas como um meio fácil de obter o diploma. Para isso, os docentes necessitam do apoio constante da secretaria local. Juntos, poderão garantir que sejam atingidas as três metas primordiais ligadas a esse tema: aprimoramento pessoal, desenvolvimento da carreira de cada docente e melhoria da qualidade da Educação.

Aulas versus interessados
 
Disparidade marca inscrições para os cursos de primeira graduação

Aulas versus interessados
Fonte Plataforma Freire - CAPES, 2012
Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias