Prepare-se! Um novo aluno está chegando

Em 2010, a entrada das crianças de 6 anos no 1º ano vai mexer com as escolas. Confira aqui como ensinar os conteúdos a eles sem passar por cima da infância

POR:
Bianca Bibiano, Arthur Guimarães
Ilustrações: Mariana Coan/Fotos: Paulo Vitale
Ilustrações: Mariana Coan/Fotos: Paulo Vitale

Já no início do próximo ano letivo, uma nova turma vai começar a circular por corredores e classes das escolas de Ensino Fundamental. Cumprindo as determinações do governo federal, em 2010 todas as redes de ensino do país devem matricular os alunos de 6 anos no 1º ano.

Muitas cidades e estados já estão se responsabilizando gradualmente - e em diferentes velocidades - pelo atendimento às crianças que antes estariam em salas de Educação Infantil (veja o quadro abaixo). Isso porque, desde 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) sinaliza que oito anos eram "a duração mínima" necessária ao Ensino Fundamental - e não a máxima.

Os objetivos do Ministério da Educação (MEC) com o aumento do número de anos da Educação Básica obrigatória são vistos como um avanço. "A inclusão dessa clientela é um grande passo para a democratização do acesso escolar. Apenas os filhos das classes mais pobres não estudavam aos 6 anos", analisa Patrícia Corsino, que leciona Prática de Ensino de Educação Infantil na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo ela, na rede pública, estávamos abaixo do patamar de anos de escolaridade da América Latina. "A ampliação era necessária. Poderia ter sido feita via Educação Infantil, mas, como esse sistema não está estruturado, a única opção era ampliar o Fundamental."

Outro ponto importante trazido pela proposta é a melhoria do desempenho dos estudantes ao longo da vida escolar. Segundo dados do MEC, começando mais cedo eles tendem a ter resultados superiores no futuro.

Para que o novo modelo seja implementado, no entanto, uma série de alterações deve ser feita pelas Secretarias de Educação - cabe aos professores cobrar das autoridades a execução de cada uma dessas medidas. Por lei, é preciso construir salas de aula, reorganizar o quadro docente, oferecer capacitações, construir um currículo e comprar e adequar o mobiliário das classes.

Maria do Pilar Lacerda, secretária de Educação Básica do MEC, reconhece que nem todas as redes seguem corretamente as orientações. "Mas a migração vai ocorrer sem atrasos. Quase 85% das secretarias já asseguravam o novo modelo em 2008."

Para ajudar as escolas a se adaptar, NOVA ESCOLA elaborou um guia que indica as mudanças a introduzir no currículo, na rotina e no ambiente escolar. Ouça uma entrevista com a especialista Karina Rizek, da Escola de Formadores. Veja também as propostas curriculares de Rio Branco (Acre) e de São Luis (Maranhão). Já existe uma versão preliminar do estado de São Paulo, que foi distribuida para as diretorias de ensino regionais para debate e consulta. Leia o texto introdutório e outro sobre as disciplinas.

Como as redes estão se adaptando


De 10 de maio a 10 de junho, NOVA ESCOLA fez um levantamento sobre a implementação do Ensino Fundamental de 9 anos em todas as Secretarias de Educação dos estados e das capitais. Das 53, sete não responderam às questões. Até o fim da coleta de dados, apenas o Amapá e a capital de São Paulo ainda não tinham começado a implantar o novo modelo (veja o gráfico à direita).

Mesmo assim, dez estados e nove cidades informaram não ter matriz curricular, o que indica que a ampliação se deu sem um documento para guiar o trabalho. Outro problema é estrutural: apesar da alta adesão, 11 estados e sete capitais não fizeram adaptações para atender ao novo modelo.

Nossa pesquisa contemplou ainda a análise das matrizes curriculares de Língua Portuguesa e Matemática para o 1º ano por duas especialistas: Karina Rizek, da Escola de Educadores, e Beatriz Ferraz, do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac), ambos em São Paulo. "Os documentos mostram que, infelizmente, houve mais o movimento de antecipar a realidade da antiga 1ª série para esse novo público do que o de manter o que era proposto na pré-escola", afirma Karina.

Reportagem sugerida por 30 leitores
Cristiane Santos (São Jose dos Campos, SP), Melissa Argento (Rio Claro, SP), Patricia Santos (Salvador, BA), Elaine dos Santos (São Paulo, SP), Jaquelina da Silva (Buitá, RS), Aliete de Souza (Assis Chateaubriand, PR), Josefa do Nascimento (Mariana, MG), Gerla Gonzaga (Caxias, MA), Marileni Oliveira (São Mateus, ES), Solange Viana (Itabuna, BA), Márcia Soletti (Terra Rica, PR), Rogéria ilva (Esmeradas, MG), Margarida Guedes (Teixeira, PB), Fernanda Medeiros (Jataí, GO), Alessandra dos Santos (Duque de Caxias, RJ), Romysia Fontenele (São Luís, MA), Elisabeth da Silva (Uberlândia, MG),
Ivana Marcondes (Mairiporã, SP), Rose Correa (São Bento do Sul, SC), Rejane Coutinho (Campo Grande, MS), Roberto Costa (São José dos Campos, SP), Adriana Evaldt (São Leopoldo, RS), Marcia da Silva (Pedra Branca, PB), Daniela Boconcelo (Bocaina, SP), Simone Falce (Nova Campina, SP), Mara Barbosa (Marília, SP), Maria dos Santos (Vista Alegre do Abuna, RO), Jeinni Puziol (Astorga, PR), Amilton Junior (Nossa Senhora do Socorro, SE), Deise Martins (Sapucaia do Sul, RS) 

Quer saber mais?

CONTATOS
Andrea Rapoport
Ângela Borba
Antônio Augusto Gomes Batista
Beatriz Ferraz
Karina Rizek
Patrícia Corsino
Rosaura Soligo
Secretaria Municipal de Educação de Rio Branco, Trav. do Ipase, 77, 69900-220, Rio Branco, AC, tel. (78) 3211-2400
Telma Leal

BIBLIOGRAFIA
A Criança de 6 Anos no Ensino Fundamental
, Andrea Rapoport, 120 págs., Ed. Mediação, tel. (51) 3330-8105, 32 reais
Educação Infantil: Fundamentos e Métodos, Zilma de Oliveira, 258 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 39 reais
Henri Wallon: Uma Concepção Dialética do Desenvolvimento Infantil, Izabel Galvão, 136 págs., Ed. Vozes, tel. (11) 2081-7944, 21 reais  

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