É hora de valorizar os veteranos

Professores experientes são estratégicos para as escolas. Para evitar que percam a motivação, os gestores devem conceber ações para reconhecer esses profissionais

POR:
Wellington Soares
Valorização dos professores veteranos. Ilustração: André Menezes

Dados da Prova Brasil 2011 mostram que 46% dos docentes da rede pública brasileira estão em sala de aula há mais de 15 anos. Deveria ser uma boa notícia. Afinal, o aprendizado acumulado nos anos de prática os municia com um repertório didático para enfrentar a complexidade do processo de ensino e os credencia a atuarem como um modelo para os mais jovens. Mestres experientes sabem quais são as questões que os alunos levantam e os problemas que costumam enfrentar. Mas a realidade das escolas apresenta um panorama um tanto diferente. Parte do grupo com muitos anos de carreira demonstra desgaste e baixa motivação. O que explica esse quadro? O mais importante: como revertê-lo?
 
A primeira constatação é a de que falta reconhecimento aos veteranos. Quando as formações em serviço privilegiam os novatos - e pior: quando desconsideram o conhecimento do corpo docente da própria escola -, é comum que os professores experientes sintam-se desprestigiados. Acreditando estar desatualizados - o que pode ser o caso, mas não a regra geral -, acabam se retraindo.

Felizmente, esse problema tem solução. Existem várias maneiras de aproximar novatos e veteranos e estimular o intercâmbio de informações. Uma das soluções apontadas por Ana Benedita Guedes Brentano, coordenadora de projetos do Instituto Avisa Lá, é criar uma espécie de tutoria: "Por meio de encontros entre o gestor, um professor mais experiente e outro recém-chegado, é possível construir atividades e propostas juntos". Um cuidado básico, porém, é evitar a sobrecarga. Por isso, veteranos que colaborarem com a formação dos colegas precisam ter seu tempo em sala diminuído (sem, é claro, que seja preciso abandoná-la). 

Também é válido promover a criação de um banco de projetos e planos de aula já testados pelos professores mais experientes ou organizar formações pelas quais eles repassem seu conhecimento para os novatos que atuam na mesma área. "É importante que esse espaço seja de cooperação: o recém-chegado pode contribuir com questões e textos discutidos no ambiente universitário que são novidade para quem já não frequenta o ambiente acadêmico, atualizando os veteranos", explica Ana Amélia Inoue, Diretora do Centro de Estudar Acaia Sagarana do Instituto Acaia, em São Paulo, SP. Outro caminho para promover a atualização é o próprio programa de formação em serviço, desde que ele contemple atividades para as necessidades específicas dos docentes mais antigos. 

Mais complicada é a desmotivação gerada pela ausência de um plano de carreira consistente. Em grande parte das redes, o avanço é regulado apenas pelo tempo de serviço, o que acarreta acomodação. É fundamental que gestores públicos busquem mecanismos que incentivem incrementos na formação. 

Já existem alguns bons exemplos. No Paraná, a Secretaria de Estado da Educação tem, desde 2008, uma estratégia de formação que atrela a progressão na carreira à titulação. São três níveis: o primeiro para os docentes com licenciatura, o segundo para os que possuem especialização e o terceiro para quem participa do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE). Esses últimos têm direito a um ano de afastamento para estudar na universidade e, ao retornar, a carga horária é reduzida para que se dediquem à produção de um artigo científico ou projeto didático. Casos de sucesso têm surgido tanto no âmbito das escolas quanto no das secretarias de Educação. É necessário que deixem de ser iniciativas pontuais e se disseminem cada vez mais. O Brasil não pode abrir mão do saber de seus professores mais experientes.

 

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