De portas abertas

Convocar a comunidade para participar do conselho escolar é uma forma inteligente de compartilhar decisões e responsabilidades

POR:
Arthur Guimarães
José Beraldo, diretor da Escola Júlia Lopes de Almeida, em Osasco (SP):
José Beraldo, diretor da Escola Júlia Lopes de 
Almeida, em Osasco (SP): "Ninguém perde 
poder". Foto: Marcelo Min

"Pai, a professora pediu que você não falte à reunião de hoje!" Quando o metalúrgico Donizete Ramiro ouviu essa frase de seu filho Willian, de 14 anos, no início do ano, logo pensou em problemas. Além de Willian, ele tem duas meninas matriculadas na Escola Estadual Júlia Lopes de Almeida, em Osasco (SP), onde raramente aparecia. "Com certeza o menino se meteu em confusão", pensou. Mas estava enganado. A convocação era para participar da eleição do conselho escolar, como candidato e como eleitor.

Defendendo a melhoria da qualidade do ensino de forma carismática, Donizete foi um dos escolhidos. A partir daí, além de não faltar aos encontros regulares, começou a conhecer melhor o lugar em que os filhos estudam e as pessoas responsáveis pela formação deles. O interesse em participar de todo o processo foi imediato e contagiou todos os partipantes. Logo descobriu-se que a instituição precisava, com urgência, reformar e reabastecer a biblioteca - obra essencial para o sucesso do recém-criado projeto de leitura.

Todos arregaçaram as mangas e Donizete ficou encarregado de conseguir recursos. Quase sem nenhuma esperança, pediu ajuda ao gerente da fábrica em que trabalha. Depois de dois meses, recebeu a resposta: a empresa doaria 6 mil reais e dez computadores usados!

Dividir a responsabilidade

O exemplo de Donizete ilustra a força de um conselho que conta com a efetiva participação da comunidade (leia o quadro abaixo). As famílias podem ajudar de várias maneiras: na elaboração do perfil dos alunos, no desenvolvimento de trabalhos voluntários e na captação de recursos para financiar as ações pedagógicas, exatamente como fez Donizete. Um problema: os pais geralmente têm pouco tempo livre e não estão acostumados a uma vivência agradável nos colégios, onde costumam ser chamados apenas para solucionar problemas de disciplina. Como contornar esses empecilhos?

"O diretor, o coordenador pedagógico e os funcionários devem dar atenção e o melhor atendimento possível aos pais e aos alunos. É o primeiro passo para atrair as famílias", aconselha Vitor Henrique Paro, professor da Faculdade de Educação da USP.

Acompanhamento mensal

Há diversas formas de aproximar pais e mães das salas de aula. Convidá-los para festas em que se apresentem resultados de projetos pedagógicos costuma funcionar. Mas a maneira mais rica e completa é incentivá-los a acompanhar, mensalmente, o desempenho dos filhos nas reuniões do conselho de classe. "A participação ativa e igualitária de toda a comunidade, nas sugestões e nas decisões, é determinante para uma gestão democrática", afirma Paro.

Nesses encontros devem estar, além dos pais, os estudantes - todos com voz e vez de falar. Talvez os docentes estranhem no começo o fato de uma mãe dar palpites ou de ouvir o aluno criticar seu método de ensino. Mas aos poucos eles vão perceber que muitas idéias podem ser usadas em ações pedagógicas. "Ninguém perde poder. Todos ganham ajudantes e assim os encontros ficam mais ricos e decisivos", afirma José Beraldo, diretor da escola de Osasco.

Essa ajuda a que Beraldo se refere pode - e deve - ir cada vez mais longe. Foi numa reunião do conselho que seus membros conheceram a proposta pedagógica da escola e descobriram uma maneira de participar. Surgiu a idéia de fazer uma pesquisa com as famílias, para conhecer as expectativas em relação à atuação da equipe pedagógica e da direção, as opiniões sobre a estrutura física do prédio e um pouco sobre as condições de moradia e saúde da comunidade.

Essas informações serviram de base para a elaboração da proposta pedagógica e foram usadas nas aulas, relacionadas aos temas curriculares. O levantamento mostrou, por exemplo, que 50% dos estudantes moram em favelas e ajudam os pais em pequenas obras. Paulino Dourado, que leciona Matemática para a 8ª série, ensinou assim os conceitos de geometria presentes na construção de uma moradia.

Um grupo forte e atuante, que represente solidamente a comunidade e adquira tradição em participação, não deve ficar restrito às resoluções relativas ao estabelecimento de ensino. Na opinião de Marisa Duarte, professora do Departamento de Administração Educacional da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, um colegiado como esse deve ter vez na formulação de políticas educativas e servir de ponte entre a comunidade e a secretaria da Educação. "É um incentivo à democratização do poder político e uma oportunidade de todos conhecerem a realidade do município em relação à sua capacidade de financiamento da educação", afirma.

Para a comunidade que deseja criar o conselho de escola ou dinamizar a atuação dos já existentes, aqui vão algumas dicas:

? Analise a legislação de sua rede de ensino, pois o formato e o funcionamento dos conselhos podem variar;

? Convoque uma reunião com a comunidade para debater a idéia;

? Organize a eleição dos conselheiros (famílias, professores, diretoria, funcionários, alunos e coordenação devem ter direito a voto e a representação);

? Crie uma comissão de divulgação para informar a pauta e as decisões do colegiado;

? Faça uma ata de todas as reuniões, que deve ser assinada por quem tem direito a voto (no documento precisa constar a data, o local, o horário, o objetivo do encontro, o conteúdo das discussões e o resultado da votação);

? Submeta o grupo a avaliação periódica da comunidade.

Quer saber mais?

Escola Estadual Júlia Lopes de Almeida, Av. Cruzeiro do Sul, 357, CEP: 06226-002, Osasco, SP, tel. (11) 3686-3051

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