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Os desafios da carreira docente

Com a palavra, você! Confira os desafios que mais impactam a carreira, segundo quem está na sala de aula

POR:
Daniele Pechi
Os desafios da carreira docente

Trabalhar mais do que a média mundial, ganhar menos em comparação a outros profissionais com nível superior, não possuir plano de carreira estruturado e não ser valorizado pela sociedade. De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é nesse cenário em que trabalham muitos professores. Para entender um pouco melhor as demandas prioritárias dos docentes do país e mapear os desafios da área, o site de NOVA ESCOLA fez uma enquete com 600 internautas no mês de maio último.

Com mais de 40% dos votos, a questão salarial foi apontada como a maior necessidade dos educadores brasileiros, seguida de condições adequadas de trabalho (21%) e de soluções na formação inicial e na continuada (8%). Os três fatores estão interligados, sendo difícil tratá-los de forma isolada. "Para resolver os entraves da Educação, temos de pensar em uma mudança estrutural", explica Ana Amélia Inoue, diretora do Centro de Estudar Acaia Sagarana. "Acreditar que somente um item resolverá os problemas é ingênuo. Todos os aspectos ligados à carreira são fundamentais para os profissionais da Educação", complementa a professora Giselle Rocha ao responder à enquete.

Falar das questões que impactam a docência passa, necessariamente, por discutir a valorização social da profissão. Um estudo realizado em 21 países pela Fundação Varkey Gems mostra que, embora o Brasil seja a nação que mais confia no trabalho do professor, menos de 20% dos entrevistados encorajariam um filho a ingressar na carreira. Esse receio está ligado às dificuldades enfrentadas pelos docentes no dia a dia. "Existe um consenso sobre a necessidade de ressignificar a profissão, com políticas públicas que considerem a Educação em seu sentido mais amplo. Falta, no entanto, vontade e esforço para tirá-las do plano das ideias", afirma Maria Amábile Mansutti, coordenadora técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Há alguns avanços em curso, mas eles ainda são insuficientes para garantir boas condições de trabalho a quem já está na sala de aula e atrair novos talentos para as escolas. Os três pontos mais fortes apresentados pelos leitores de NOVA ESCOLA representam pilares que têm de ser priorizados. "A ausência de planos de carreira que estruturem a vida do professor, por exemplo, dificulta que ele tenha tempo para se capacitar adequadamente e faz com que precise lecionar em duas ou mais escolas para conseguir obter um salário digno", afirma Ana Amélia.

Com a correria para dar conta de todas as tarefas diárias, sobra menos tempo para atividades fundamentais. "A função docente exige formação em nível superior e uma dedicação para além da sala de aula. O educador tem de preparar as aulas e precisa que esse tempo seja pago e garantido na grade horária", defende Marieta Gouvêia de Oliveira Penna, docente do departamento de Educação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Da mesma maneira, a falta de uma formação consistente tira do profissional a chance de melhorar sua prática. Como mostra a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), da OCDE, a participação dos professores em ações de desenvolvimento profissional realizadas no local em que lecionam está diretamente associada a uma maior reflexão sobre os desafios e possibilidades da sala de aula. "Existe oportunidade para uma melhoria considerável no ensino e na aprendizagem, mas isso exige um apoio individualizado aos docentes, em vez de apenas intervenções voltadas à escola como um todo ou ao sistema", conclui o estudo.

Pensar sobre cada um desses aspectos e buscar soluções para os entraves deve ser a função principal das políticas públicas voltadas à Educação. Nas próximas páginas, você confere um panorama dos três desafios apontados pelos educadores e em novaescola.org.br/jornal#especiais os resultados completos da enquete e reportagens em vídeo sobre os temas prioritários.

Salário

"Quero um salário decente e respeito do governo, pois dos meus alunos eu tenho." A fala, colocada pela leitora Maria Isabel Magalhães na enquete de NOVA ESCOLA, ilustra bem a questão salarial no país. Aprovada em 2009, a Lei nº 11.738, conhecida como Lei do Piso, prevê um vencimento mínimo inicial para a carreira docente, com reajuste anual. O texto trata também da obrigatoriedade do uso de um terço da jornada dos professores para atividades extraclasse, tais como estudos, planejamento de aulas e avaliação.

O valor atual do salário-base dos educadores é de 1.697,39 reais para uma jornada de 40 horas semanais. No entanto, de acordo com o último levantamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), divulgado este ano, só 12 estados cumprem a lei em sua plenitude, pagando o piso e reservando o horário de formação (veja a tabela abaixo). Se forem consideradas também as redes que somente remuneram corretamente, o número sobe para 17.

Piso salarial

Os desafios da carreira docente
Fonte CNTE - Mar/2014

O principal argumento de estados e municípios que não cumprem a Lei do Piso é financeiro. "Por causa disso, muitas redes adotaram soluções pouco eficazes, como o achatamento da carreira", afirma Salomão Ximenes, coordenador do programa Ação na Justiça, da ONG Ação Educativa. Nesses casos, a rede paga o piso, mas muda a estrutura de cargos de modo a diminuir as chances de crescimento financeiro dos docentes.

Mesmo quando o piso é pago, ele ainda deixa a desejar. Se comparado com outras ocupações tradicionais que exigem diploma universitário, como a de engenheiro, o valor recebido pelos educadores chega a equivaler a menos da metade do salário inicial. "A desvalorização da carreira esvazia o processo de formação inicial e diminui cada vez mais sua atratividade", explica Ximenes. "Sem condições de ter uma vida estruturada, os docentes desistem do seu ofício, tornando-o apenas uma etapa intermediária de sua vida profissional, ou seja, permanecem na sala de aula até encontrarem algo melhor", diz ele.

Rever esse quadro é uma das exigências do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado este ano. Na meta 17, o país se compromete a "valorizar os profissionais do magistério das redes públicas de Educação Básica de forma a equiparar seu rendimento médio ao dos demais profissionais com escolaridade equivalente, até o final do sexto ano de vigência deste PNE". Vale acompanhar o cumprimento da meta.

"A questão salarial está diretamente ligada à baixa atratividade da carreira docente. Jovens com boas notas não almejam ser professores."
Salomão Ximenes, coordenador do programa Ação na Justiça, da ONG Ação Educativa

"Se o professor ganhasse um bom salário, não precisaria trabalhar em duas ou três escolas. Isso interfere fortemente na qualidade das aulas, pois ele acaba não tendo tempo de prepará- las."
Marcos Leandro de Abreu, professor de Matemática em São Paulo

Condições de trabalho

Para que os professores possam construir uma prática sólida nas escolas, é fundamental que conheçam bem os alunos e aproveitem os encontros de formação para trocar informações com os pares sobre o fazer pedagógico, a evolução das turmas e a gestão da sala de aula. "As péssimas condições de trabalho desvirtuam a profissão. Os docentes passam mais tempo indo de uma escola para a outra do que se dedicando aos estudos e à formação profissional", afirma Maria Amábile.

A falta de tempo para planejar aulas e a necessidade de lecionar em mais de uma instituição é certamente uma das principais reclamações dos educadores (veja o gráfico abaixo).

Quantos turnos o professor trabalha?

Os desafios da carreira docente
Fonte Censo Escolar 2013

A ela soma-se a ausência de infraestrutura básica e apoio da gestão para o desenvolvimento das aulas. "Muitos professores não têm materiais na escola para as aulas práticas com seus alunos. Às vezes, precisam tirar dinheiro do bolso para desenvolver uma atividade", conta o professor Elson Rocha na enquete de NOVA ESCOLA.

A afirmação está em linha com o estudo Uma Escala para Medir a Infraestrutura Escolar. Segundo ele, 84,5% das escolas brasileiras têm uma estrutura elementar ou básica. Isso significa que possuem apenas água, banheiro, energia, esgoto, cozinha e computadores. Só 0,6% conta com a estrutura completa: biblioteca, quadra, laboratório de Ciências e de informática. O primeiro passo para garantir condições de trabalho ao docente é entender o que isso significa efetivamente.

Um bom parâmetro é o Custo Aluno Qualidade (CAQ), apresentado na estratégia 20.7 do PNE. Trata-se de um indicador que mostra quanto é preciso investir na qualificação e na remuneração de professores e demais profissionais da Educação pública, na compra, manutenção, construção e conservação de instalações e equipamentos necessários ao ensino e na aquisição de material didático, alimentação e transporte escolar. Essa estratégia está aprovada. É preciso agora quantificá-la.

"Quando falta estrutura, os docentes tornam-se máquinas de dar aulas, sem ter condições de refletir sobre uma prática pedagógica que faça sentido."
Maria Amábile Mansutti, coordenadora técnica do Cenpec

"Muitos professores se deparam com realidades tão desfavoráveis, como excesso de alunos por sala e falta de infraestrutura, que desistem da Educação pública na primeira tentativa."
Zenilda Zacoia, professora alfabetizadora em São Paulo

Formação

Por fim, não se pode falar dos anseios dos docentes sem passar pela questão da formação. Embora os educadores com curso superior sejam maioria, ainda temos no país um porcentual considerável de profissionais com apenas o Ensino Médio (veja o gráfico abaixo). Além disso, quem ingressa na universidade nem sempre encontra o ensino que esperava. Tanto na Pedagogia quanto nas licenciaturas, os conteúdos dados não se relacionam com os problemas com que o professor vai se deparar na escola. "Mais que conhecer os grandes teóricos da Educação, é fundamental os docentes estudarem as didáticas específicas de suas áreas para ser capazes de ensinar os diferentes conteúdos", afirma Ana Amélia. Infelizmente, eles não se graduam preparados para auxiliar estudantes que possuem dificuldade de aprendizagem, para diagnosticar os saberes das crianças ou gerir uma sala de aula.

Formação docente

Os desafios da carreira docente
Fonte Censo Escolar 2013

O problema pode ser resolvido, em tese, por meio dos encontros de formação continuada que o professor passa a ter quando ingressa na escola. "Os gestores são capazes de mudar a realidade de uma escola. Eles devem fazer formação da equipe, conversar sobre as práticas, realizar pesquisas coletivas e estudar junto com o corpo docente as didáticas específicas", diz Ana Amélia.

A prática, no entanto, não é realidade em todas as escolas. Segundo a OCDE, 80% dos professores brasileiros dizem que precisam de mais desenvolvimento profissional do que o recebido nos locais em que lecionam atualmente.

Mesmo quando há um programa estruturado, existe outro fator que prejudica e muito a prática: a falta de estabilidade nas equipes escolares. De modo geral, as instituições que mais sofrem com a rotatividade de profissionais são as que apresentam índices de pobreza e violência maiores.

"Não é possível formar uma equipe coesa sem educadores que criem fortes vínculos com as instituições em que atuam", explica Ana Amélia. "Enquanto as condições de trabalho nas escolas públicas não forem equiparadas, isso vai continuar acontecendo", complementa ela.

"O hiato entre escolas e cursos de Pedagogia não permite que a missão da Educação seja cumprida em sua plenitude."
Ana Amélia Inoue, diretora do Centro de Estudar Acaia Sagarana

"Os alunos que fazem Pedagogia geralmente conhecem a História e a Psicologia da Educação, mas não saem capazes de ensinar os conteúdos dos anos iniciais do Fundamental."
Soraia Souza Cardoso, coordenadora pedagógica em São Paulo

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