O recomeço das aulas em uma cidade devastada

Alunos de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, voltam à rotina depois de ver o município destruído pela pior chuva de verão da história

POR:
Noêmia Lopes
O recomeço das aulas em uma cidade devastada
DESEJO COLETIVO Uma casa é o que as crianças mais esperam ter de volta

Bola, bicicleta, videogame, televisão... Essas são algumas das palavras mais fáceis na boca de toda criança que acaba de voltar das férias. Este ano, porém, não foi nada disso que se ouviu da molecada de Nova Friburgo, a 136 quilômetros do Rio de Janeiro. Pouco antes de ter início a primeira aula de 2011, o que os alunos da EM Lafayette Bravo Filho mais comentavam tinha a ver com deslizamentos, enxurradas, mortos e desaparecidos. É que a cidade quase sumiu do mapa em janeiro, depois da pior chuva já registrada por lá. Resultado: a Lafayette, como outras 29 unidades da rede municipal de ensino, teve de virar abrigo.

O jeito foi empurrar o início do ano letivo para 14 de março - um atraso de cinco semanas em relação ao calendário original - e planejar a volta às aulas de uma maneira diferente da costumeira. "Quero abrir espaço para que, se desejar, cada criança ponha para fora tudo aquilo que vivenciou ou sentiu", dizia a professora Cintia da Conceição, enquanto organizava o armário da sala que até outro dia servia de dormitório para desabrigados. Aos poucos, os alunos da turma de 3º ano foram chegando e ocupando seus lugares, um tanto intrigados com a minha presença. Apenas 15 compareceram ao primeiro dia de aula, de um total de 25 matriculados.

Assim que a professora propôs uma conversa sobre o que tinha ocorrido em janeiro, o silêncio deu lugar a relatos do tipo "minha casa caiu", "o barranco desmoronou", "tudo o que a gente tinha foi embora com a lama". Alguns estudantes, no entanto, preferiram continuar calados, talvez decididos a esquecer o passado recente. Dá para entender. Afinal, todas as crianças perderam alguma coisa na tragédia - os brinquedos preferidos, um animal de estimação ou muito pior: familiares e amigos.

Aí, Cintia sugeriu outra forma de expressão: um desenho com o tema "o que espero daqui para a frente". Num instante, quem estava de cara amarrada se animou um pouquinho. E todos os lápis começaram a traçar paredes e telhados. Como se tivessem combinado, foi uma casa o que 14 das 15 crianças desenharam espontaneamente.

 

A extensão da tragédia

  • Mais de 400 pessoas morreram em Nova Friburgo por causa das chuvas de janeiro
  • 95% das escolas municipais foram afetadas de alguma forma

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