Uma vida enriquecida por prosa e poesia

Escola de São Paulo cria academia literária, nos moldes da ABL, mas que tem alunos ocupando as cadeiras

POR:
Débora Didonê

O dia em São Paulo amanheceu frio e nublado na segunda-feira, 4 de setembro. Na Escola Municipal Padre Antônio Vieira, no bairro periférico de Jardim Artur Alvim, o cinza do céu deu o tom para um início de jornada um pouco triste. Por volta das 9 horas, a professora Maria Sueli Fonseca Gonçalves, a Suelizinha, varria estilhaços de vidro espalhados pelo chão da sala de aula. Na porta, uma placa identifica: Academia Estudantil de Letras (AEL) Padre Antônio Vieira. Com a ajuda do aluno Raílson Gomes, da 5a série, que recolhia os pedregulhos supostamente usados para quebrar as janelas na noite anterior, a professora dizia que o vandalismo não a desanimava. Pelo contrário, serve como um estímulo para conscientizar a comunidade. "Quem fez isso pensa que a escola é do governo, não sabe que estraga seu próprio patrimônio", explicou. "Isso quer dizer que temos muito que fazer", completou a professora.

O diminutivo do apelido não combina com o tamanho do coração de Suelizinha. Quando a inesperada limpeza terminou, ela recebeu os alunos que participariam de um encontro especial naquela manhã, apontou para a janela quebrada (sem as grades, que foram roubadas) e convidou-os a sensibilizar seus amigos e parentes sobre a importância de preservar a escola. Começava assim, meio enviesada, mais uma reunião diária da AEL Padre Antônio Vieira. Durante toda a semana, é nela que um grupo de 40 alunos se reúne para estudar a vida e a obra de seus escritores preferidos - uma responsabilidade assumida com cerimônia de posse, nos mesmos moldes da famosa Academia Brasileira de Letras (ABL). Em questão de minutos, os pequenos representantes de Castro Alves, Mário Quintana, Cora Coralina, Florbela Espanca e Olavo Bilac, mais um simpatizante recém-chegado ao grupo - todos presentes na reunião de segunda-feira -, recitavam versos a mercê do vento frio que vinha da janela degradada. Nem a gritaria das crianças nos corredores, nem a batucada da fanfarra que ensaiava lá fora e tampouco o frio desconcentrou os pequenos estudiosos.

Apaixonei-me!

Há quatro anos, Suelizinha pensou num projeto literário que semeasse o sentimento de paz na escola sem ter que ficar falando "não faça isso e não faça aquilo". A idéia inicial era usar a poesia. "Ofereci textos de alguns autores para as 5as séries e disse para me procurarem caso se apaixonassem por algum deles", conta. "Aos poucos, começamos a fazer saraus e apresentações e os alunos ficaram cada vez mais interessados". No dia 30 de maio do ano passado, a professora já tinha um sólido grupo interessado em literatura e resolveu implantar uma academia de letras como a que fizeram quando ela mesma era estudante. "Pensei em estimular a leitura, desenvolver aptidões, como falar em público, e aumentar a auto-estima das crianças, mas vi que a AEL consegue transformar atitudes e comportamentos, como no caso do Raílson, que era inquieto na sala de aula", diz Suelizinha.

O menino, que ajudou a professora a arrumar a sala, ainda é um simpatizante do grupo. Freqüentador da AEL há menos de um mês, Raílson, de 11 anos, sentiu-se seduzido pelas poesias de André Kisil - o 12o escritor convidado da academia para ser homenageado no encontro mensal, feito em toda última quinta-feira do mês. Em menos de uma semana, ele começou a ler os livros autografados que ganhou pessoalmente de Kisil e compôs oito poesias. "Já li 30 poemas dele e pretendo ler todos", conta, orgulhoso, o garoto que nunca havia parado para ler versos por prazer. Morador da periferia, Raílson se identificou com o tema da favela, explorado pelo autor. "Ele fala da miséria e transmite dor", analisa. Durante a cerimônia em que Kisil estava presente, Raílson disse que gostaria de um dia ocupar uma cadeira com o nome do poeta. Isso deve ser decidido no dia 30 de maio, quando os alunos menos assíduos cedem a cadeira aos suplentes - geralmente mais novos - ou se comprometem em retomar os estudos sobre seus autores para merecer a vaga, que só será definitivamente entregue quando chegarem à 8a série. A professora Suelizinha prometeu pensar com carinho na proposta de Raílson, mas ponderou: "A cadeira não pode ficar sem ninguém. Uma vez instalada, torna-se imortal".

Sejam bem-vindos

Em maio, a aluna Bárbara Clara Marcelino Freitas, da 5a série, tomou posse da cadeira 29, da poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930), que antes pertencia a um colega então na 8a série. Como todos, ela ganhou uma pasta azul da AEL com uma pequena biografia da autora. Nela, a aluna reúne novas informações e escreve suas próprias poesias, inspirada pelas leituras e pelas declamações dos colegas. "O que mais me impressiona é ela ter se matado", conta a menina de 11 anos sobre Florbela. "Ela não gostava da vida e fazia poemas muito tristes", ressalta. O poema preferido é "Vaidade", que a professora Suelizinha leu durante a aula de Língua Portuguesa e ela recitou aos colegas na reunião. A professora também prepara uma carta-convite à família de cada aluno que toma posse de uma cadeira, para participar dos encontros. "Tem uma mãe que escolheu folgas nas quintas-feiras só para vir à reunião no fim do mês", conta Suelizinha. "Pais, vizinhos e amigos dos alunos também se apresentam", completa a professora.
A viagem pela trajetória dos escritores representados na AEL não pára na sala de aula. A professora organiza passeios com os alunos por museus, exposições e eventos que homenageiam os autores. "Já fomos ao Museu da Língua Portuguesa, ao Corredor Literário na Paulista, a lançamentos de livros e à Academia Brasileira de Letras de Campos do Jordão, aonde voltaremos em novembro como convidados de honra de uma escritora", conta Suelizinha. Quando fica difícil conseguir transporte para a turma, a professora leva pelo menos o aluno que estuda o escritor. Foi assim que Erica Natália do Nascimento, aluna da 5a série e dona da cadeira 18, de Mário Quintana, participou este ano de um evento aos 100 anos do poeta gaúcho, em São Paulo. "Ela declamou versos a convite da Secretaria Municipal de Cultura", conta Suelizinha. "Foi um passo muito importante porque Erica é muito tímida". Assim como todos os acadêmicos da AEL, a aluna de 11 anos participa voluntariamente do projeto. Na reunião de segunda-feira, ela conta uma novidade: "Inventei umas poesias", diz. E lê para os colegas os versos inspirados em Raquel, uma personagem que a professora criou na sala de aula.

Primeiro seminário

O aluno Jonatha Gomes de Souza da Cruz, da 6a série, parece gente grande quando fala sobre os preparativos de seu primeiro seminário sobre Castro Alves (1847 - 1871), que apresentará no fim do mês. "Ele sempre lutou contra a desigualdade, não apenas entre negros e brancos, mas entre homens e mulheres", diz. Membro da AEL desde a fundação, o garoto de 12 anos pesquisa a vida do poeta baiano, seleciona as composições que acha mais interessantes e os colegas que teriam perfil para recitá-las no dia do seminário. Nos encontros diários, a professora o apóia no que for necessário. "Não decore datas nem fale difícil", diz Suelizinha a Jonatha, que a observa atentamente. "Interprete e interiorize os textos, fale com sentimento", completa a professora. Encantado com a obra de Castro Alves, Jonatha diz que quer ser escritor e já está produzindo textos para o seu primeiro livro. "Também quero escrever sobre os ideais de Castro Alves para apresentar na 8a série", conta, já com planos para o dia em que passar sua cadeira para outro colega.
Quando a AEL ficou conhecida pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, no ano passado, a professora Suelizinha foi convidada a fazer parte da Coordenadoria de Educação da Penha para disseminar a idéia às mais de 30 escolas da região. "Fizemos uma apresentação do projeto para representantes de todas elas", conta a professora. "Agora estou ligando para cada uma para marcar uma visita e, se houver interesse, ofereço um curso de 32 horas". Assim que uma nova AEL é implantada, Suelizinha torna-se sua consultora para tirar dúvidas e convida os professores para participar dos encontros diários e mensais da AEL Padre Antônio Vieira, à qual pretende se dedicar integralmente a partir do próximo ano.

Para Suelizinha, a AEL estimula crianças a descobrir o potencial que têm dentro de si. "Você apenas dá uma chance para eles desabrocharem", completa. Ela vê o aluno Raílson como uma das principais conquistas do projeto. "Ele nem bem fazia as lições de casa e agora senta para escrever seus próprios versos. Além disso, ficou três horas acompanhando o encontro mensal da academia e prestou atenção em tudo, sem fazer bagunça", conta Suelizinha, orgulhosa do aluno. "A AEL dá chances para que um aluno acostumado com o fracasso se descubra". Quando a reunião acabou, o vento frio ainda penetrava pelo buraco das janelas depredadas na noite anterior, mas espalhava pelo ambiente a leveza dos versos recitados naquela manhã.

Monte sua própria Academia Estudantil de Letras

Acompanhe as dicas da professora Suelizinha para fazer seus alunos se encantarem pela literatura

(1) Gostar da idéia de montar uma academia e ter prazer pela leitura é imprescindível como referência para os alunos.

(2) Cative as crianças nas aulas de Língua Portuguesa. Faça leituras interpretativas, use sons, imite o barulho dos bichos, mude a entonação da voz nas situações de prazer e tragédia. Diga para a turma transformar poema em prosa e peça para fazer desenhos sobre o tema.

(3) Escolha um aluno desinibido e que já demonstra afinidade por algum autor para falar sobre ele para outras turmas de 5a série.

(4) Comece a fazer encontros para trocar informações, nem que seja embaixo de uma árvore e com apenas um aluno (foi assim que Suelizinha começou). Esse mesmo aluno já traz outro, a escola começa a tomar conhecimento e dar apoio.

(5) Ajude os alunos nas pesquisas, busque livros diferentes daqueles que estão na biblioteca da escola e pesquise textos na internet se as crianças não tiverem acesso.

(6) Quando um grupo de alunos já estiver assíduo nos encontros, convide escritores interessantes para ser homenageados numa reunião no fim de cada mês. Para ter credibilidade, apresente seu projeto pela internet, converse por telefone ou mande uma carta.

(7) Eleja suplentes para cada cadeira ocupada da academia. Assim, os acadêmicos podem dar lugar a outro aluno caso não possam mais participar dos encontros.

Eu sou um sabiá

Eu sou um sabiá

Que adora cantar

Toda noite

Toda manhã

Eu canto, canto

Sou um pássaro muito mimado

É isso que me deixa irritado

Eu acordo a vizinhança todo dia

Mas que vizinho chato!

Por que será que eles não gostam da minha cantoria?

(o primeiro poema de Raílson Gomes, 11 anos)

Quer saber mais?

EMEF Padre Antônio Vieira, R. Antonino Bacaeri, 171, São Paulo, SP, 03687-060, tel.: (11) 6280-6566

Coordenadoria de Educação da Penha, R. Apucarana, 215, São Paulo, SP, 03311-000, tel.: (11) 6942-8144 , e-mail: msfgoncalves@prefeitura.sp.gov.br

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias

Tags

Guias