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A morte na visão de seis filósofos

Tendo como base o artigo "O ciclo da vida", escrito por Lya Luft para a revista VEJA 2388, de 27 de agosto de 2014, no plano de aula "Discussão acerca da morte a partir de Platão, Sócrates e Epicuro"

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NOVA ESCOLA

De Platão (428-347 a.C.) a Heidegger (1889-1976), a tradição filosófica é repleta de teorias e ensinamentos sobre a morte, tema tão amedrontador quanto instigante. Schopenhauer (1788-1860), um dos mais ilustres pensadores alemães do século 19, chega ao ponto de afirmar que "a morte é a musa da filosofia" e, por isso, Sócrates definiu a filosofia como "preparação para a morte". Sem a morte, seria mesmo difícil que se tivesse filosofado.

O parentesco entre o exercício filosófico e a experiência da morte aparece em destaque em um dos mais belos diálogos platônicos: o Fédon - dedicado ao tema da imortalidade da alma. Escrita em 360 a.C., a obra seminal de Platão narra os últimos momentos da vida de Sócrates, instantes antes de tomar cicuta em cumprimento da pena capital à qual fora condenado pelas autoridades atenienses. Relembre com a turma tal episódio, discutindo a escolha do filósofo, que prefere a morte a ter que pautar sua vida em critérios e valores definidos pelas leis da pólis.

 

Platão x Epicuro

Ao contrário da ênfase exacerbada no mundo das ideias proposta por Platão, a filosofia epicurista tem como princípio básico a felicidade (eudaimonia) obtida pela prática da ataraxia - isto é, pela calma e apatia em relação aos apetites mundanos. Para isso, suas doutrinas valorizam o prazer (hedoné) como algo natural, argumentando que a realização de nossos desejos espontâneos pode ser benéfica para a saúde - simultaneamente, do corpo e da alma - desde que equilibrados pelo uso ponderado da razão.

Diferente do pensamento socrático-platônico, a filosofia de Epicuro (341 - 271 a.C.) é marcada por seu caráter preponderantemente hedonista - ou seja, favorável aos prazeres moderados. A divergência entre os dois sistemas pode ser ilustrada pelo fato de Platão ter fundado sua escola como uma "Academia", ao passo que Epicuro preferiu reunir-se com seus discípulos ao ar livre - daí sua escola ser conhecida na Antiguidade como "Jardim" (Kepos).

Um dos grandes méritos de Epicuro foi ter contribuído para libertar as pessoas do medo - sobretudo, da morte. Ao considerar o ser humano como uma entidade coesa, formada por um conjunto de átomos em movimento, Epicuro concebe o fim da vida como um processo tão inevitável quanto natural, descrito como a simples dissolução dessas partículas elementares - que, mais tarde, se reunirão novamente, dando origem a outros seres. Razão pela qual o filósofo sustenta: "A morte nada significa para nós". Ao contrário do que acreditavam Sócrates e Platão, ele justifica sua convicção: "A morte é uma quimera: porque enquanto eu existo, ela não existe; e quando ela existe, eu já não existo".

 

Arthur Schopenhauer

Schopenhauer (1788-1860) apresenta a morte como pedra chave para a filosofia, como pode ser evidenciado em algumas passagens de seu livro "A metafísica da morte": "No fundo, entretanto, somos uno com o mundo, muito mais do que estamos acostumados a pensar: sua essência íntima é nossa vontade; seu fenômeno é nossa representação. Para quem pudesse ter clara consciência desse ser-uno, desapareceria a diferença entre a persistência do mundo externo, depois que se está morto, e a própria persistência após a morte." (Schopenhauer, 1788-1860, p.100)

Enquanto a filosofia permanece desconhecida, o homem vive de forma tranquila e é o conhecimento de sua existência e a percepção de que se é finito que o torna temente à morte. Essa visão reitera a ideia de que um dia a matéria terá fim: "O animal vive sem conhecimento verdadeiro da morte: por isso o indivíduo animal goza imediatamente de todo caráter imperecível da espécie, na medida em que só se conhece como infinito da espécie, na medida em que só se conhece como infinito. Com a razão apareceu, necessariamente entre os homens, a certeza assustadora da morte". (Schopenhauer, 1788-1860, p.59)

 

Friedrich Nietzsche

Para o filósofo, o homem vivencia a morte de duas formas, de forma covarde ou voluntária: "A morte covarde pode ser definida, em poucas palavras, como a experiência da morte como um acaso, cujo efeito imediato é o desejo de morrer. Nesse caso, deseja-se morrer porque se morre. A falta de longevidade da vida basta para que se pregue o abandono da mesma. Aqueles que pensam assim, dirá Nietzsche, são os pregadores da morte". (Nasser, E. (2008) Nietzsche e a Morte. Cadernos de Filosofia Alemã)

Para fundamentar sobre as consequências da morte covarde, Nietzsche faz menção à lembrança inerente ao homem, considerado por ele como a causa de todo o sofrimento humano, sendo este submetido ao tempo que passa, perdendo a possibilidade de mudança da realidade. O homem não tem noção real de tempo, sendo acometido à morte que "parece ser um acidente que assalta". A morte surge, para essas pessoas, como uma fatalidade.

"Por fim, a raiva da morte surge na esteira da raiva do tempo. O espírito de vingança, ao condenar o tempo que impede o homem de ser inteiramente aquilo que se é, condena a morte inevitável quando diz: "tudo perece, tudo, portanto, merece perecer!". Nesse sentido, a raiva do homem dirigida à inescapável finitude causada pelo tempo reflete-se, como não poderia deixar de ser, na repulsa da morte, o acaso mais radical". (Nasser, 2008)

 

Martin Heidegger

Para Heidegger, o homem está especialmente mediado por seu passado: o ser do homem é um "ser que caminha para a morte" e sua relação com o mundo concretiza-se a partir dos conceitos de preocupação, angústia, conhecimento e complexo de culpa. O homem deve tentar "saltar", fugindo de sua condição cotidiana para atingir seu verdadeiro "eu". O panorama de sua teoria é o do sentido de "ser": os modos e as maneiras de enunciação e expressão de ser. Nesse sentido, o importante está em alcançar o melhor sentido de ser, para enfrentar a morte.

 

Michel de Montaigne

A morte é um dos temas mais recorrentes nas reflexões que Montaigne tece ao longo dos vinte anos em que redigiu seus Ensaios, uma de suas grandes obras. Para Montaigne, a expressão "morrer" vai muito além de seu sentido comum. Para ele, há duas formas de se deparar com a morte: pelo estudo e pela contemplação. "Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade" (Ensaios, XX: Filosofar é aprender a morrer). Essa é a base para seus ensaios, a morte como forma de liberdade, em que felizes são aqueles que não temem diante dela.

Montaigne começa a argumentação em torno do eventual caráter essencial da morte estabelecendo um firme contraste entre aqueles que a consideram um mal e os que a consideram um bem: "Ora, essa morte que alguns chamam de a mais horrível das coisas horríveis, quem não sabe que outros a denominam o único porto contra os tormentos desta vida? o soberano bem da natureza? o único esteio de nossa liberdade? e receita comum e imediata contra todos os males? E enquanto alguns a esperam trêmulos e apavorados, outros suportam-na mais facilmente que a vida" (Ensaios, XX).

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