Programa instala biblioteca em comunidade quilombola

Como os livros mudaram a vida de uma comunidade ribeirinha do interior do Pará

POR:
Paula Nadal
CASA DE LEITURA A sala de uma moradora abriga os livros usados por toda a comunidade. Foto: Alice Vasconcellos
CASA DE LEITURA A sala de uma moradora abriga os livros usados por toda a comunidade

Na Comunidade Quilombola Jacarequara, em Acará, a 25 quilômetros de Belém, a energia elétrica só foi instalada em outubro de 2006, transformando a vida das 42 famílias que moram lá. Dez meses depois, uma nova revolução marcou a história do vilarejo: a chegada de 280 livros enviados pelo Programa de Bibliotecas Rurais Arca das Letras, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). O acervo inclui literatura infantil, juvenil e clássica, além de obras técnicas e didáticas. Antes disso, encontrar um material de leitura era coisa rara, assim como ler histórias. Hoje isso mudou.

Quem cuida desse acervo é uma voluntária, dona Carmen Nogueira de Sousa, ex-professora da única escola local e escolhida pela comunidade para gerenciar os empréstimos e conservar as obras. Na verdade, os livros ficam guardados na sala da casa dela, dividindo espaço com uma televisão e algumas cadeiras. As portas estão sempre abertas e a busca por leituras é constante.

Na tarde em que lá estive, enquanto passava ao vivo na TV um jogo da Copa do Mundo de Futebol, algumas crianças entraram e nem deram bola para a partida. Elas queriam é saber se O Amigo da Bruxinha, de Eva Furnari, ou alguma história de Ziraldo estavam disponíveis. Dona Carmen conta que esses títulos são os campeões de procura, já que as crianças são as principais leitoras. Até mesmo as ainda não alfabetizadas pegam livros. "Elas chegam a competir para saber quem lê mais e até trocam indicações literárias", conta Carmen, que foi responsável por alfabetizar no passado muitos dos leitores de todas as idades que hoje procuram a sua casa.

Os adultos preferem os romances e os adolescentes aproveitam o acervo para enriquecer os encontros do grupo da juventude quilombola - que organiza dramatizações de lendas. O sucesso da iniciativa pode ser medido em números: enquanto a média de leitura no Brasil está na casa dos 4,7 livros por ano, lá há leitores com mais de 30 registros de empréstimos em 12 meses. Não é exagero dizer que a pequena biblioteca é um dos principais pontos de entretenimento e cultura da comunidade.

A grande procura se justifica pela adequação do acervo. Os títulos são escolhidos de acordo com a atividade cultural, a escolarização e o tipo de produção agrícola local. Em Jacarequara, se colhem mandioca e frutos típicos da região. A escola funciona em sistema multisseriado do 1º ao 5º ano com apenas uma professora. Para cursar do 6º ano em diante, é preciso percorrer 12 quilômetros até a sede da cidade de Acará. Mesmo assim, vários jovens concluíram o Ensino Médio. A expectativa é que, com os livros, a formação cultural cresça ainda mais.

No país todo, são mais de 7,5 mil arcas como a de Jacarequara, todas instaladas em comunidades rurais ou ribeirinhas. E esse número cresce rapidamente. Se depender de dona Carmen, deve crescer também o número de títulos dispostos em sua sala. Quando viu Donato Alves Filho, um dos coordenadores do Arca das Letras no Pará, ela correu para solicitar livros importantes para o desenvolvimento escolar das crianças. Uma atitude importante, pois, mesmo hoje, com a internet disponível em algumas casas, a maior fonte de pesquisa e de leitura dos alunos continua sendo a Arca das Letras. Por lá, os livros são uma novidade tão grande quanto a internet.

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