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01 de Maio de 2005 Imprimir
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Oba, hoje é dia de leitura!

Uma escola faz o acervo circular pelas classes em um carrinho. Outra leva a turma à livraria. Tem também aquela em que todo mundo pára o que está fazendo para ler. Em todas, os alunos estão descobrindo como isso é gostoso. E estão lendo muito melhor!

Por: Bia Reis
Acervo sobre rodas: no Colégio Santo Antônio, os livros vão até a sala de aula. Foto: Pedro Motta
Acervo sobre rodas: no Colégio 
Santo Antônio, os livros vão até 
a sala de aula. Foto: Pedro Motta

Não tem hora certa. O carrinho todo colorido pode aparecer no corredor a qualquer momento. E quando ele chega na classe é uma festa! A professora interrompe a aula e os alunos de 1ª a 4ª série escolhem quais livros vão levar para casa. Esse sistema de empréstimo começou a funcionar no Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte, para evitar que os pequenos tivessem que ir até a biblioteca, que fica em outro prédio. A estratégia deu tão certo que as visitas do carrinho a todas as classes não pararam mais. "As crianças ficam eufóricas. Muitas pegam dois ou três para ler sozinhas ou com os pais", conta a coordenadora pedagógica Maria de Lourdes Lopes Cançado. Segundo ela, a garotada passou a se interessar mais não só por livros mas também por revistas e jornais.

Na Escola Estadual Dom Orione, em Curitiba, a leitura também é prioridade. Todos os dias, alunos, funcionários e professores param durante 25 minutos para se dedicar a uma única atividade: ler. Nesse período, o silêncio toma o lugar das conversas e do corre-corre. Os professores aproveitam o período para colocar em dia a leitura acumulada com o excesso de trabalho. E os funcionários ? parte deles com baixo grau de escolaridade ? se familiarizam com a novidade. "Os resultados já aparecem. Eles estão se tornando mais críticos e se relacionando melhor com as crianças", comemora Ana Maria Meier, supervisora da manhã. Assim, há seis anos, a escola mostra o valor da leitura e o prazer que um bom texto pode trazer.

Mas por que é importante criar o hábito de leitura? De acordo com a consultora Maria José Nóbrega, de São Paulo, além de ser uma forma de entretenimento e de lazer, a leitura é um meio de aprendizado em qualquer área. "Lendo também nos mantemos atualizados sobre assuntos do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país."

A criança lê com prazer o livro que ela escolhe

Na Dom Orione, a garotada tem liberdade para escolher o exemplar que quiser na biblioteca ou mesmo para ler um trazido de casa. Terminada a leitura, o aluno escreve em uma folha o título da obra e, em poucas linhas, do que ela trata. Não há provas nem resenhas. "Queremos que todos leiam pelo prazer de ler", diz Ana Maria.

Para Maria José, a escola está na direção certa. "A leitura em si já é uma atividade", explica. O ideal, ela afirma, é que os estudantes leiam muito e trabalhem apenas com uma ou outra obra.

Missão importante do professor é a de ensinar a escolher bem a leitura ? indicações inadequadas feitas pela escola podem afastar a garotada do mundo das letras. Mas dar liberdade não significa deixar cada um ler só o que quer. Os estudantes podem pegar textos muito fáceis ou difíceis para a sua competência. "O professor deve avaliar o nível da criança e, quando o texto estiver abaixo de sua capacidade, escolher desafios maiores", diz Maria José. É o que vem sendo feito na escola Dom Orione. As revistas e os gibis que fazem parte do acervo só são lidos uma vez por semana. "Essa foi a forma que encontramos para que os alunos se abrissem a variados gêneros. No começo, eles só queriam ler quadrinhos, que acham mais fáceis", explica a supervisora Ana Maria.

Em classe, a leitura tem diferentes objetivos

Na biblioteca da escola ou no cantinho de leitura da própria classe, há vários meios de incentivar a leitura. A professora Maria José Machado, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sugere que os professores estimulem pesquisas sobre temas que intrigam os alunos ou fazem parte do cotidiano, como o tempo. "Assim, eles terão um bom motivo para procurar informações em livros, revistas e jornais." Se você lê para as crianças o trecho instigante de uma publicação e a coloca na estante, elas vão retirá-la para descobrir mais sobre o assunto.

A leitura compartilhada é outra opção. Você lê um trecho do texto em voz alta, um garoto continua, dá a vez para uma colega e assim por diante. Na Escola Municipal Anna Maria Harger, em Joinville (SC), além de participarem de atividades desse tipo, os alunos de 1ª a 4ª série se transformam em contadores de histórias. Eles se apresentam para os colegas, os pais e até para a comunidade, adquirindo o gosto pela leitura.

O projeto atrai mais as crianças com idade a partir de 9 anos. "As menores vêem os colegas contando histórias e se entusiasmam para ler o livro que está sendo apresentado", conta a professora de Português Celina Pimentel Hostin, que trabalha na biblioteca. Celina vê o avanço dos alunos na comunicação e compreensão de textos. E não é só. Maria José Machado destaca que essa prática aprimora o raciocínio lógico, a criatividade e a percepção da realidade.

Levar para a classe coleções de um determinado autor, trabalhar com algumas de suas obras e, quando possível, convidá-lo para conversar com a meninada são outras ótimas estratégias. No Colégio Santa Maria, no Recife, periodicamente há uma votação entre classes de 1ª a 4ª série para a escolha do autor do mês. Ziraldo, Ana Maria Machado, Ruth Rocha e Monteiro Lobato já disputaram o voto dos estudantes. Depois da eleição, a garotada pesquisa a biografia e as obras do eleito e quem tem alguma em casa leva para mostrar aos colegas. "Livros do autor escolhido não param nas prateleiras da biblioteca durante o mês", conta Edna Carneiro, coordenadora pedagógica de 1ª a 4ª série. Para envolver também a família no trabalho, o colégio estimula a apresentação para os pais de trechos de algum livro lido em forma de peça de teatro.

Mostrar à família a importância dos projetos de leitura é fundamental, explica a professora Regina Lúcia Giffoni Luz de Brito, da PUC-SP. "A escola deve fazer uma parceria com os pais para que o ambiente em casa também seja motivador para a criança." Regina sugere aproveitar a reunião de pais nesse sentido. "Esse momento pode ser usado para conversar com os pais sobre leitura, livros e escritores."

O trabalho continua em livrarias e bibliotecas

Antes de optar por uma ou outra leitura, a turma precisa conhecer o que há à sua disposição. "Nada melhor do que incentivar a visita a bibliotecas e livrarias", diz Maria José Nóbrega. Além de ver as capas, conferir os títulos e se informar sobre os autores, os estudantes aprendem a circular nesses locais.

De acordo com ela, poucas crianças e jovens visitam bibliotecas e livrarias. "Uma garota me disse que tinha alugado um livro na biblioteca, certamente em referência ao que faz em uma locadora", relata. Muita gente acredita que a falta de dinheiro para comprar um livro é motivo para não entrar em livrarias. Nada disso. Quando a garotada vai sempre a esses lugares, acaba se sentindo à vontade. Em muitas lojas é possível se sentar e ler trechos de livros.

Maria José recomenda ao professor ficar atento às atividades desenvolvidas gratuitamente por livrarias, como lançamentos de obras e encontros com autores. A Casa de Livros, livraria de São Paulo especializada em educação, desenvolve o Projeto Vitrine, em parceria com escolas. Baseado em um tema sugerido pelos professores, a livraria seleciona obras que vão compor a vitrine da loja, trocada toda segunda-feira. "Nesse dia, estudantes, familiares e professores se reúnem para a inauguração do espaço", explica a psicóloga Denise Carvalho, uma das proprietárias. As crianças conhecem o autor, quando isso é possível, e apresentam músicas e textos relacionados ao tema escolhido.

O Colégio Friburgo, em São Paulo, já participou do projeto e, neste ano, vai repetir a experiência. Em 2004, a 2ª série trabalhou com o livro Mata - Contos do Folclore Brasileiro, de Heloisa Prieto (Companhia das Letrinhas). As crianças fizeram uma leitura compartilhada e discutiram o texto. Em grupos, leram então uma segunda vez. Depois, desenharam e pintaram os personagens escolhidos e escreveram seus sentimentos sobre eles. Esses trabalhos foram parar na vitrine. "Todos se envolveram com o projeto. No dia da inauguração, tivemos a apresentação de uma poesia musicada e do coral", conta Eni Spimpolo, coordenadora de 1ª a 4ª série.

Mesmo que livrarias ou bibliotecas de sua cidade não desenvolvam atividades específicas para estudantes, a ida a esses locais vale a pena. A própria circulação dos grupos de crianças e jovens nesses espaços pode servir de incentivo a ações. Às vezes elas não existem simplesmente por falta de demanda.

 

Professor que gosta de ler transmite o prazer aos alunos

Não são apenas os estudantes que precisam de estímulo para ler.

Muitos professores também não têm esse hábito, que igualmente pode ser incentivado na escola.

A rede municipal de Marília (SP) desenvolveu um projeto de leitura compartilhada com os educadores no ano passado. "Oferecemos textos, discutimos o autor, trabalhamos junto com os professores. Não adianta apenas falar dos benefícios de ler", diz Marta Isabel Cintra, coordenadora pedagógica da Educação Infantil da Secretaria Municipal da Educação. Em reuniões semanais, textos de autores clássicos, como Graciliano Ramos e Clarice Lispector, eram apresentados aos educadores.

"É uma cadeia. Sensibilizando o professor, atingimos também os alunos", diz Marta, que em 2004 trabalhava com o Ensino Fundamental. Na Escola Projeto Vida, em São Paulo, há uma preocupação especial com o nível de leitura dos docentes. "Durante as reuniões pedagógicas, é reservado um tempo para os professores apresentarem aos colegas livros que já leram e de que gostaram", conta a orientadora educacional Maria Eugênia de Toledo. No último encontro do semestre, todos levam suas leituras prediletas para indicar aos colegas. Na volta das férias, eles se reúnem novamente para comentar as obras, criando um ambiente de estímulo até mesmo a outras atividades culturais, como cinema e teatro. "Nesses encontros, o professor mostra seu gosto e seu estilo, já que o livro não precisar estar ligado, necessariamente, à sua área", explica Maria Eugênia.

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CONTATOS
Casa de Livros
, R. Capitão Otávio Machado, 259, 04718-000, São Paulo, SP, tel. (11) 5182-4227 , www.casadelivros.com.br
Colégio Friburgo, Av. João Dias, 242, 04724-000, São Paulo, SP, tel. (11) 5523-5633
Colégio Santa Maria, R. Padre Bernardino Pessoa, 512, 51020-210, Recife, PE, tel. (81) 3465-5133
Colégio Santo Antônio, R. Pernambuco, 732, 30130-151, Belo Horizonte, MG, tel. (31) 3261-7555
Escola Estadual Dom Orione, R. Prof. Fábio de Souza, 1150, 80310-230, Curitiba, PR, tel. (41) 345-4664 Escola Municipal Anna Maria Harger, R. Barbosa Rodrigues, 227, 89207-180, Joinville, SC, tel. (47) 436-0433
Escola Projeto Vida, R.Waldemar Martins, 148, 02535-000, São Paulo, SP, tel. (11) 6236-1458
Secretaria Municipal da Educação de Marília, tel. (14) 3402-6300

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