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01 de Dezembro de 2009 Imprimir
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O estilo dos clássicos da literatura

Ao conhecer as características de estilo de autores profissionais, os alunos aprendem diferentes maneiras de estruturar um texto e abordar um tema

Por: Anderson Moço
OSCAR WILDE. Foto: divulgação
OSCAR WILDE. Foto: divulgação

Nas últimas nove edições, NOVA ESCOLA publicou reportagens na série especial Produção de Texto sobre como encaminhar o conteúdo, fazendo o diagnóstico do que os alunos já sabem e o que precisam aprender para escrever com qualidade, quais as etapas do processo de revisão, a validade da leitura para estudar... Este mês, para encerrar a coletânea, o foco é o estilo de um autor. Trata-se de fazer a turma ter contato com várias obras de determinado escritor profissional a fim de detectar suas marcas estilísticas e usá-las em suas produções.

"É importante que as crianças sejam levadas a observar as criações e as transgressões literárias para que possam enriquecer suas produções", diz Cristina Zelmanovitz, pedagoga e pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). Clarice Lispector (1920-1977), por exemplo, escreve usando os sentimentos e os detalhes da vida dos personagens como fios condutores da história. Ela rompe com o que é considerado normal e correto ao começar o texto Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres com uma vírgula e terminar com dois pontos. Há muito que observar também nos escritos de Machado de Assis (1839-1908). Ele é famoso por ser irônico ao retratar a sociedade do século 19 e fazer com que o narrador da história manipule os acontecimentos. Sabendo dessas e de outras marcas, é possível comandar um bom trabalho de leitura e apurar o olhar das crianças. "Essas características são como moldes", afirma Claudio Bazzoni, assessor de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Situações de produção com sentido e propósito claros

O primeiro passo é escolher as obras de um autor a serem dissecadas de acordo com as necessidades de aprendizagem da turma. Não se trata, então, de eleger textos ditos fáceis ou difíceis, assinados por nomes consagrados ou vanguardistas. Por exemplo, focar o jeito de finalizar as histórias pode ser interessante quando os alunos sempre mostram que os personagens vivem felizes para sempre. Trabalhar com Oscar Wilde (1854-1900) ajuda a garotada a tomar gosto pelos fins trágicos (leia os quadros abaixo e nas páginas seguintes, que mostram a análise feita por estudantes do 6o ano de contos do autor e trechos das produções que realizaram). O emprego do discurso direto, do narrador onisciente e de orações curtas também pode fazer parte da lista.

As marcas de estilo de Oscar Wilde
Durante a leitura de alguns contos do autor, os alunos encontraram algumas características que definem seu jeito de escrever

Abismo social
Os personagens têm origens sociais diferentes. Um é sempre nobre, e o outro, plebeu.

"(...) Ela só tinha permissão para brincar com crianças da sua condição (...) Mas (...) o Rei deu ordens para que ela convidasse quaisquer crianças amigas (...)" 
Conto O Aniversário da Infanta

Contextualização
Antes ou depois das falas dos personagens, o narrador conta detalhes, acrescenta opiniões e emoções ou dá mais informações.

"'O meu jardim é só meu', berrou o Gigante (...) Ele era um gigante muito egoísta. (...) Veio então a Primavera e por toda parte havia flores em botão e passarinhos (...)"
Conto O Gigante Egoísta

Personificação
Seres irracionais, objetos inanimados e elementos da natureza têm sentimentos e realizam ações.

"A Lua de cristal gelado debruçou-se para escutar. (...)"
Conto A Cotovia e a Rosa

Final trágico
As histórias nunca terminam bem, mas com mortes, separações e toda sorte de desgraça.

"Ele beijou o Príncipe Feliz nos lábios e caiu morto aos seus pés. (...)"
Conto O Príncipe Feliz

Depois da leitura, é importante conversar bastante com os alunos para que eles percebam as características que marcam os textos. Alguns recursos nem sempre ficam explícitos depois da primeira análise: é preciso levar a garotada a percebê-los. Para isso, questione algumas decisões do autor. Enxergar as maneiras com que ele resolve problemas acerca da forma e da linguagem e refletir sobre como chegou a essa resolução e por que fez essa opção também é uma possível pauta de debate antes da produção propriamente dita (leia a sequência didática no quadro da página seguinte).

No entanto, esse tipo de atividade não deve ter como pretensão, em hipótese alguma, criar Clarices, Machados, Wildes e outras cópias. "Ao ler várias obras de um mesmo autor, os alunos se aprofundam e passam a conhecê-lo mais a fundo. Mas, quando partem para a produção, embora se apropriem de certas marcas, têm de ter liberdade para desenvolver seus escritos", destaca Cristina.

A proposta também não pode tangenciar a escolarização da leitura. O real objetivo de focar os traços de um escritor, além de fazer com que os estudantes conheçam mais sobre a cultura escrita para redigir melhor, é ajudá-los a perceber que seguir um escritor, acompanhando sua trajetória profissional, é uma saborosa aprendizagem.

Apropriação das características de Oscar Wilde
Conhecendo as marcas estilísticas do escritor, a turma produziu seus próprios textos

Abismo social

Contextualização


Personificação

Final trágico

Um amor impossível
Por Maria Julia V. R. Carvalho

"Em Londres morava uma princesa muito bonita, dos lábios vermelhos feito rosas do campo, a pele branca feito a neve e os cabelos marrons feito as terras frescas dos bosques.
(...) Enquanto andava, passou um homem com uma calça rasgada, blusa amassada com sapatos furados no dedão. O homem tinha olhos azuis feitos os rios cristalinos, sua pele também era branca pois não dava para ver porque estava coberta pela sujeira de todo dia. (...)" 

"(...) Ele se perguntava várias vezes até que eles se olharam profundamente um dentro do outro, era amor à primeira vista. Quando a princesa se aproximou o homem perguntou: 'Quem és tu, uma moça tão bonita que eu nunca vi pelas vizinhanças'(...)". 

"(...) Nesse momento a cachorrinha pulou nos ombros de seu dono dizendo: 'É a princesa!!' (...)"

"(...) E muito infeliz a cachorrinha deitou em cima do tumulo de seu amado dono e adormeceu num sono profundo, até não ter mais consciência. Os dias se passaram até que a princesa voltou ao cemitério e encontrou a linda cachorrinha morta. Com todo o seu amor, decidiu fazer uma homenagem a sua fiel amiguinha prometendo viver sozinha para sempre até que a Morte a levasse e ela pudesse encontrar seus velhos amigos mais uma vez. E assim foi."

A vida e a morte
Por Andrés Vallarta Ângulo


"Em um grande reino vivia um jovem Garoto que sonhava em casar-se com a Princesa, mas sabia que isso nunca iria acontecer. (...)"

"(...) Então a Princesa levou o rapaz a um lago perto de onde eles estavam. Eles começaram a conversar 'Eu sou a Princesa deste reino' (...). Ela lhe contou tudo sobre sua vida como Princesa e lhe contou até a razão por ter fugido do castelo, o Garoto lhe contou a sua vida como um fazendeiro e todas as aventuras que tinha vivido e logo depois tudo sobre a vida, ele a pediu em casamento. A jovem aceitou, mas lhe disse que antes teria de cumprir o desafio de seu pai, o Rei. Era um desafio muito difícil vários príncipes nobres e fortes tinham tentado, mas nenhum tinha conseguido. Então ela levou-o até o castelo para ir falar com seu pai. (....)" 

"(...) De repente a Morte apareceu no castelo. Na Hora o rapaz tremeu de medo. O Rei então os levou a praça para que lutassem. (...)"

"(...) Ai a jovem se deitou do seu lado e lhe deu um beijo que provocou uma luz enorme que iluminou o reino inteiro dando vida a tudo que estava no seu caminho todos os doentes se curaram. A Princesa morreu junto com ele com seus lábios encostados nos do garoto."

* Agradecimento ao professor Luis Junqueira e aos alunos do 6º ano Maria Júlia V. R. Carvalho e Andrés Vallarta Ângulo da Escola Castanheiras, em Santana do Parnaíba, SP

Quer saber mais?

CONTATOS
Claudio Bazzoni

Cristina Zelmanovitz

BIBLIOGRAFIA
Letramento Literário, Rildo Cosson, 139 págs., Ed. Contexto, tel. (11) 3832-5838, 27 reais
Histórias para Aprender a Sonhar, Oscar Wilde, 64 págs., Ed. Companhia das Letrinhas, tel. (11) 3707-3500, 35,50 reais
Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, Clarice Lispector, 158 págs., Ed. Rocco, tel. (21) 3525-2000, 27,50 reais

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