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01 de Junho de 2007 Imprimir
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Ler e escrever de verdade

Ouvir uma história, recontá-la inúmeras vezes, escrevê-la com as próprias palavras e revisar até sentir orgulho do texto. Foi assim que esta turma de 1a série passou a dominar o mundo das letras

Por: Gabriel Pillar Grossi
Sandra revisa os textos produzidos pelos alunos para recontar a história da Branca de Neve: projeto detalhado para garantir que todos se alfabetizem. Foto: Marie Ange Bordas
Sandra revisa os textos produzidos pelos alunos para recontar a história da Branca de Neve: projeto detalhado para garantir que todos se alfabetizem. Foto: Marie Ange Bordas

Era uma vez uma rainha que, distraída, furou o dedo com uma agulha e viu caírem sobre a neve três gotas de sangue. Sonhadora, logo se imaginou ao lado de uma filha de pele branca como a neve, com lábios vermelhos como o sangue e os cabelos negros como ébano. Essa história - da linda jovem que acaba expulsa do castelo pela madrasta, conhece sete anões, é envenenada com uma maçã e acaba sendo salva pelo beijo de um príncipe - é velha conhecida. A história que você vai ler a seguir, no entanto, ainda não é tão comum em nossas salas de aula. Confira.

Era uma vez uma professora que, dedicada e exigente (e cansada de ver tantas crianças sofrendo para se alfabetizar), resolveu aperfeiçoar sua formação para aprender formas mais eficientes de garantir que todos efetivamente aprendam o que se espera nos primeiros anos de escolarização. Enfrentou dilemas e sofreu para mudar determinadas rotinas. Entre outras estratégias de ensino, descobriu a importância de utilizar textos conhecidos pelos próprios alunos (como Branca de Neve) e chegou ao fim do ano com a sensação de que o feitiço capaz de salvar suas crianças estava dentro dela mesma.

Alfabetizar usando textos conhecidos das crianças...

Facilita o aprendizado, pois todos já conhecem a história e se sentem mais à vontade para reescrevê-la.

Desenvolve o comportamento leitor e o escritor.

Permite que a leitura e a escrita sejam compreendidas como práticas sociais.

Sandra Valéria Lucio, a professora que usou a magia dos contos de fadas para acelerar a aprendizagem de sua turma de 1ª série da EE Professora Carolina Mendes Thame,em Piracicaba, no interior de São Paulo, ganhou muito mais do que um príncipe: conquistou grande confiança na própria capacidade de ensinar e, ainda por cima, levou para casa um dos troféus da nona edição do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, em 2006. "Eu até tinha o hábito de ler todos os dias para as crianças", lembra ela. "Mas desde que iniciei esse trabalho, que tinha como objetivo central levá-las a ler e escrever de verdade e a revisar os próprios textos para produzir um livro com esses novos recontos, eu percebi que todos podem se tornar não apenas leitores mas também escritores e revisores."

Numa das categorias mais concorridas do prêmio, o projeto de Sandra foi escolhido pela consistência. "As situações didáticas têm como foco a relação que cada estudante estabelece com a linguagem escrita, as características textuais e a própria escrita", diz Beatriz Bontempi Gouveia, coordenadora do programa Além das Letras, do Instituto Avisa Lá, e responsável pela seleção dos inscritos na área de Alfabetização. "Além da reflexão sobre os aspectos discursivos, o trabalho faz a transposição didática das práticas sociais de leitura e escrita de forma correta."

Quem é Sandra

Caçula de uma família de 12 irmãos, dos quais três são professores, Sandra Valéria Lucio sempre sonhou em ser alfabetizadora. Começou a lecionar em 1985, aos 1 6 anos, e em 1990 fez o concurso público para assumir uma vaga no estado de São Paulo. Três anos depois, foi chamada e, no início do ano letivo de 1994, passou a lecionar na rede. Desde 2001, está na EE Professora Carolina Mendes Thame, em Piracicaba, a cidade onde nasceu. "Prefiro dar aulas em escolas públicas porque a gente faz a diferença na vida dos alunos", diz a Educadora Nota 10. Mãe de Thomaz, que faz 12 anos em julho, Sandra atualmente leciona para uma turma de 3a série e dá reforço para alunos de 2a e 4a série.


"É uma trabalheira, mas ver as crianças aprendendo a ler e escrever compensa tudo." No ano passado, ela produziu o relato para concorrer ao Prêmio Victor Civita durante as férias, em Salvador. De volta a casa, precisou submeter-se a uma cirurgia e, no quarto do hospital, "cheia de pontos", recebeu o telefonema, informando que estava entre os dez finalistas. "Foi maravilhoso. Me ajudou a ficar boa mais rápido."

 

Repetir para aprender

No dia-a-dia da sala de aula, o que Sandra efetivamente fez foi mostrar às crianças que ler e escrever são hábitos importantes na vida das pessoas (a tal prática social) e que, para isso, é preciso utilizar o sistema de escrita (letras, palavras, frases) que segue regras iguais para todos. Com que recursos didáticos ela fez isso? Acima de tudo, com muita repetição de tarefas, sempre com a intenção de levar a turma a subir degrau a degrau a escada que leva ao mundo letrado.

Como em quase todas as classes de 1ª série das escolas públicas brasileiras, a de Sandra tinha 35 alunos nos mais variados estágios daquilo que os especialistas chamam de "hipóteses de escrita": dos menos aos mais avançados em seus conhecimentos sobre a escrita alfabética. "Optei por Branca de Neve por dois motivos", lembra a professora. "Porque narrativas como essa são muito presentes no universo infantil e porque essa história, em especial, já era bem conhecida de todos."

Assim, a primeira tarefa foi pedir que as crianças levassem para a sala tudo o que elas conheciam sobre a personagem: livros com diferentes versões do texto, histórias em quadrinhos, vídeos, bonecos etc. Aula após aula, a professora leu cada um dos textos (enfatizando as diferenças na construção da narrativa) e fez com que todos os estudantes recontassem a história (oralmente, por meio de desenhos ou escrevendo, mesmo que ainda não soubessem fazê-lo corretamente). Em seguida, revisou os trabalhos um a um, aproveitando a situação para promover boas reflexões sobre o nosso sistema de escrita e os aspectos discursivos do texto. Tudo com uma missão: produzir um livro, de autoria das crianças, para contar a todos os amigos e familiares a sua versão do conto da Branca de Neve.

Sequência de atividades desenvolvidas ao longo do projeto

1 Leitura em voz alta
Sandra iniciou o trabalho reunindo várias versões de Branca de Neve. Em seguida, leu cada um dos textos para a turma a fim de que todos percebessem como há diferenças entre as narrativas. Nesses momentos, a professora enfatizava as características da linguagem escrita. Ao trabalhar com um material muito conhecido pela turma, ela conseguiu que todos se familiarizassem rapidamente com o assunto, sem perda de tempo.

2 Leitura silenciosa
Cada aluno passou então a ler as diferentes versões da história, discutir as partes preferidas e contá-las para os outros. A atividade funciona inclusive com os que ainda não estão totalmente alfabetizados, pois muitos dos livros têm figuras que ajudam a lembrar as passagens mais importantes. Assim, as crianças começam também a fazer as relações entre as figuras e o texto correspondente.

3 Tudo de novo, em vídeo
Outra atividade desenvolvida pela professora foi a exibição do vídeo Branca de Neve, levado para a classe por um dos estudantes. Todos já conheciam a seqüência de fatos, mas as imagens em movimento ajudaram a compreender ainda mais as aventuras da bela jovem que é expulsa do castelo e envenenada pela rainha má e invejosa, mas acaba sendo salva pelos sete anões e por um príncipe encantado.

4 Escrever, reescrever, revisar
As etapas mais importantes do projeto foram feitas e refeitas diversas vezes. Trabalhando sozinhos, em duplas e coletivamente, os estudantes recontaram a história. Cada texto era lido e corrigido por Sandra, que ajudava os alunos a se tornarem revisores (tanto da narrativa como da escrita propriamente dita).

5 A hora das ilustrações
Como Sandra havia combinado que o fim do projeto seria a publicação de um livro com as histórias escritas pela turma, chegou o momento de exercitar as habilidades de desenho para ilustrar os momentos mais importantes de Branca de Neve (na opinião de cada um). Com muitos lápis coloridos e papel à vontade, todos criaram cenas que ajudam a entender a história recontada.

6 Produto final: um livro
Textos e desenhos prontos, chegou o grande momento da comemoração. Sandra montou uma capa com recortes do material produzido pelas crianças, digitou os textos no computador, acrescentou as imagens e encadernou um exemplar para cada aluno. A festa de lançamento foi marcada e, na presença de familiares e amigos, os jovens escritores autografaram os livros - sem esquecer as dedicatórias a todos os que participaram do trabalho.

Estratégia eficiente

Às vezes, a própria Sandra atuava como escriba, anotando no quadro o que a turma falava e ajudando a dar uma forma mais consistente ao texto. Na maior parte do tempo, os alunos refaziam o que julgavam necessário com base no confronto de suas opiniões com as dos colegas - em atividades coletivas ou dois a dois. O trabalho em duplas, aliás, é uma das estratégias mais eficientes do projeto porque a classe foi dividida conforme o domínio das normas que regem a escrita (em geral, com um mais avançado e outro menos, justamente para que, juntos, possam construir novas hipóteses e avançar no processo de alfabetização).

Inúmeras pesquisas já comprovaram que as crianças, sejam ricas, sejam pobres, aprendem a ler e escrever da mesma maneira. Num primeiro estágio, distinguem o que é desenho do que é escrita. No contato com o professor, e em atividades regulares de sala de aula, elas passam a refletir sobre a organização do nosso sistema de escrita. As descobertas de Emilia Ferreiro, no final dos anos 1980, revelaram que essa construção do conhecimento tem quatro grandes fases, com degraus intermediários entre elas:

? no nível pré-silábico, a criança constrói dois critérios: que é preciso uma quantidade mínima de letras (três) para que se possa ler e escrever e elas precisam ser diferentes; 
? no silábico, ela costuma usar uma letra para cada sílaba (PFOA para professora, por exemplo); 
? no alfabético, se estabelece a relação direta entre as letras e os sons (mas ainda são comuns os erros de ortografia, como em CAZA); 
? e só no ortográfico o aluno começa a dominar as regras do sistema alfabético para produzir textos corretamente.

Ao formar duplas de alunos com diferentes hipóteses sobre a escrita, Sandra potencializou a capacidade de avançar dos dois estudantes, pois eles se ajudam na construção do conhecimento. "Os que estavam mais atrasados percebiam que, antes mesmo de ler, conseguiriam produzir textos e contar a história graças à ajuda do colega", lembra ela. "Assim, todos se sentem à vontade para fazer perguntas e expressar idéias." O resultado concreto foi que 28 dos 35 integrantes da classe terminaram o ano nos níveis alfabético e ortográfico. E, porque continuaram com a professora na 2ª série, os outros sete tiveram a chance de concluir seu processo de alfabetização no início do ano seguinte.

PALAVRA DA CONSULTORA

Objetivos claros para garantir a aprendizagem
De um total de 421 trabalhos de Alfabetização inscritos no Prêmio Victor Civita em 2006, o de Sandra Valéria Lucio se destacou, segundo a selecionadora Beatriz Bontempi Gouveia, a Bia, pela clareza sobre os propósitos didáticos e pela forma como garantiu a aprendizagem dos alunos. "O tempo todo, a professora considerou a leitura dos contos como uma condição essencial para a escrita. Além disso, promoveu recontos e muitas reescritas (de forma coletiva, em duplas e individualmente), dando ênfase à revisão dos textos produzidos pelos estudantes." Bia afirma ainda que Sandra não caiu numa armadilha bastante comum: confundir os objetivos de aprendizagem com os conteúdos que pretendia ensinar. "Nesse trabalho, os objetivos e conteúdos são convergentes porque consideram as necessidades de aprendizagem do grupo e a missão de garantir que todos aprendam a importância da linguagem escrita e dos comportamentos dos leitores." Faltou apenas, na opinião da selecionadora, dar mais ênfase à ortografia nos textos escritos pelas crianças já alfabetizadas.

Quer saber mais?

CONTATOS
EE Professora Carolina Mendes Thame, Av. Orlândia, 401, 13423-480, Piracicaba, SP, tel. (19) 3424-5010

Sandra Valéria Lucio, profsandravaleria@yahoo.com.br 

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