Nasce o registro escrito de uma língua indígena

O emocionante trabalho de um professor indígena ressalta a importância de uma atividade esquecida: a passagem da linguagem oral para a escrita

POR:
Beatriz Santomauro
Foto: Kriz Knack
ANÁLISE DO TEXTO Na revisão, a turma da
EIEEF Sertanista José do Carmo Santana
aprende a gramática paiter. Foto: Kriz Knack
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Os índios paiteres-suruís são um grupo nômade, com aldeias em Mato Grosso e Rondônia. Escolarizados, os mais jovens e os líderes da comunidade aprendem a falar e escrever em português. Mas, entre si, continuam se comunicando na língua de seus antepassados, o paiter. Como na maioria dos povos indígenas, não havia até 2006, entre essa etnia, escrita que representasse o que se fala. A história e a cultura do povo eram transmitidas apenas oralmente. Porém, com a mobilização da comunidade, de associações indígenas, de especialistas da Universidade de Brasília (UnB) e da Fundação Nacional do Índio (Funai), o paiter ganhou um alfabeto e regras gramaticais. Nasceu uma língua. Um dos palcos desse processo foi uma sala de aula. Seu protagonista, um professor indígena.

Morador da zona rural de Cacoal, a 485 quilômetros de Porto Velho, Joaton Suruí participou da iniciativa que, entre 2006 e 2007, tornou possível registrar a escrita paiter. Com a orientação de linguistas e antropólogos, ele participou de oficinas que resultaram nas normas e no alfabeto da língua. Fim de papo? Não. "Uma língua escrita sem uso é uma língua morta", ensina o professor. "Para que o paiter não morresse logo após ter nascido, senti a necessidade de mostrar às crianças sua utilidade."

Como não havia nada escrito em paiter nas aldeias - nenhum panfleto, placa de rua, jornal ou revista -, a escola passou a ser o principal caminho para a disseminação do registro da língua. Joaton tomou as rédeas desse processo. Lecionando para uma turma multisseriada do 6º ao 9º ano da EIEEF Sertanista José do Carmo Santana, ele desenvolveu um projeto para ensinar a nova escrita com seus 13 alunos - todos indígenas como ele.

A forma escolhida foi a confecção de um livro, escrito e ilustrado pelos estudantes. "Eles ficaram ansiosos com a responsabilidade. E com razão: quando for lançado, o livro será o primeiro publicado em nossa língua materna."

As produções escritas dos alunos guardam marcas da oralidade 

Foto: Kriz Knack
ALUNOS PIONEIROS O grupo multisseriado
de 6º a 9º ano de Joaton é o primeiro a
escrever no idioma indígena. Foto: Kriz Knack

O trabalho emocionou os selecionadores do Prêmio Victor Civita de 2008, que conferiram a Joaton o troféu de Educador Nota 10. "Consolidar a língua paiter por meio de livros é uma forma de promover a autonomia e possibilitar o registro da memória que ainda sobrevive graças à tradição oral. Não vejo maneira mais emblemática de mostrar o papel da escrita", defende Cláudio Bazzoni, assessor de Língua Portuguesa da prefeitura de São Paulo e selecionador do Prêmio. Ainda segundo Cláudio, os paiteres só têm a ganhar se o projeto for replicado por outros docentes das aldeias. "Se surgirem novas publicações, é possível que mais escolas alfabetizem os alunos na língua materna, o que aumentaria o registro das ricas narrativas desse povo."

Ao chegar a este ponto do texto, você, professor de Língua Portuguesa, pode estar se perguntando: "O que uma iniciativa focada em uma língua quase extinta, falada por pouco mais de mil pessoas, tem a ver com minha realidade em sala?" A verdade é que tem muito a ver. O trabalho de Joaton aponta para uma prática essencial no domínio das habilidades linguísticas: a passagem do oral para o texto escrito.

Apesar de muito importante - é comum que os alunos com poucas experiências de letramento tenham uma escrita que apresente muitas marcas de oralidade -, esse conteúdo costuma ser negligenciado nas classes de 6º e 7º anos. Tudo porque persiste a visão de que basta transcrever o que se ouve e pronto: a composição escrita já transmitiria, com clareza, tudo o que a fala quis dizer.

"Não é assim que funciona", diz Cláudio. Para que essa transição seja bem realizada, é preciso investir na chamada retextualização. Em linhas gerais, é o esforço que o autor realiza para manter o mesmo conteúdo da fala original, mas utilizando uma forma adequada ao gênero escrito para que o texto seja mais bem compreendido (leia a sequência didática). Não se trata de "arrumar" a fala para o papel: a oralidade é tão coerente quanto a escrita. Acontece que cada modalidade da língua tem uma organização específica, de acordo com seus propósitos de comunicação.

Reorganizar o oral para produzir escritas claras e coerentes 

A fala, por exemplo, apoia-se nos gestos, nos movimentos do corpo, na expressividade do olhar, na entonação e nas expressões próprias de cada pessoa. O texto escrito, por outro lado, impõe uma forma mais fixa - nele, é necessário respeitar convenções e regras, além de se comunicar com uma pessoa (o leitor) que está ausente no tempo e no espaço. Para que a turma desenvolva a consciência de que se fala de um jeito e se escreve de outro, o professor deve apostar em atividades de edição e revisão de textos.

Para realizar esse trabalho, uma estratégia interessante é propor a gravação de conversas ou de narração de histórias, por exemplo. Em seguida, os estudantes fazem a transcrição exata do que ouviram. E aí começa a edição. A meta inicial é eliminar as marcas da oralidade - vocábulos repetidos, hesitações ("é...", "hum..." etc.), conceitos redundantes - para conseguir informar com coesão.

Depois, é hora de inserir a pontuação adequada para transmitir a intenção comunicativa. Também faz parte do processo agrupar conteúdos em parágrafos, reorganizando o texto para aproximar ideias semelhantes. Nada está pronto, porém, sem a revisão, momento de prestar especial atenção na concordância verbal e nominal e na substituição de palavras por outras mais precisas.

"Se o processo for bem feito, os leitores terão a sensação de um texto claro e coerente", afirma Cláudio. Trilhando esse percurso, a pioneira turma de Joaton quer evitar a vala comum onde se perderam para sempre centenas de línguas indígenas brasileiras. Das quase mil que existiam à época da chegada dos portugueses, restam pouco mais de 180, um terço delas fadado a desaparecer pelo pequeno número de falantes. O objetivo é que a passagem do oral para o escrito abra o caminho para que as outras aldeias paiteres e as futuras gerações - e, por que não?, o mundo todo, via internet - possam conhecer a rica história desse povo. "Só a palavra escrita pode manter viva nossa cultura", acredita o professor.

Na sala de aula, um resgate da cultura paiter-suruí

USO SOCIAL O alfabeto (acima) serviu de
referência para cartazes escolares na
nova língua. Foto: Kriz Knack

Joaton Suruí nasceu em 1979, dez anos depois de seu povo ter sido contatado pela primeira vez por frentes extrativistas. A convivência dos paiteres com os brancos nunca foi fácil: espremidos por garimpeiros e madeireiros, o grupo viu a população diminuir e a cultura tradicional, aos poucos, se desgastar. Formado em Magistério Indígena em 2006, Joaton fez de sua prática em sala de aula uma bandeira para reverter esse quadro.

Disseminando a escrita dos paiteres em suas aulas de Identidade, Língua Materna e Artes colaborou para manter viva uma língua que, para os 1,2 mil das 27 aldeias da etnia, possui uma função social indiscutível. "É por meio do paiter que ensinamos crianças a fazer nosso artesanato e nossa comida, como caçamos e pescamos, como cultivamos as roças e quais são nossos mitos e ritos", diz o professor. Para os avaliadores do Prêmio Victor Civita de 2008, o projeto demonstrou sintonia com a tese defendida por antropólogos e linguistas de que a Educação Indígena deve ser plurilíngue e intercultural.

Objetivos: No trabalho realizado no segundo semestre de 2007 com uma turma multisseriada de 6º a 9º ano, Joaton propôs transpor uma lenda tradicional dos paiteres, normalmente transmitida oralmente, para a língua escrita. O resultado será publicado num livro com texto e desenhos feitos pelos alunos.

Passo a passo: O professor convidou seu pai, Gacamam Suruí, um dos mais antigos moradores da aldeia, para narrar o mito do gavião-real na língua paiter. A história foi gravada e reproduzida em trechos para que os alunos transcrevessem o que ouviam. As produções foram corrigidas coletivamente, permitindo confrontar modos de escrever e conhecer a grafia das palavras. Ao longo das diversas sessões de revisão, regras ortográficas e de gramática da nova língua eram apresentadas e discutidas.

Avaliação: Após passar pelas revisões coletivas, as produções dos alunos eram também corrigidas pelo professor. Dessa maneira, Joaton conseguia acompanhar o desempenho de cada um e saber o que deveria ser aprimorado individualmente. Em todas as situações, analisou os seguintes aspectos: é possível entender o que o autor diz? As regras gramaticais são obedecidas? O texto segue a ordem da narração?

Quer saber mais?

CONTATOS
Cláudio Bazzoni
EIEEF Sertanista José do Carmo Santana, R. Geraldo Cardoso Campos, 4343, 76961-517, Cacoal, RO, tel. (69) 3443-1262
Joaton Suruí

BIBLIOGRAFIA
Da Fala para a Escrita: Atividades de Retextualização, Luiz Antônio Marcuschi, 136 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3873-7111, 26 reais
Gêneros Orais e Escritos na Escola, Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz, 278 págs., Ed. Mercado de Letras, tel. (19) 3241-7514, 58 reais
Linguagem e Ensino: Exercícios de Militância e Divulgação, João Wanderley Geraldi, 152 págs., Ed. Mercado de Letras, 32 reais

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