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01 de Maio de 2009 Imprimir
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O que e para que(m)

Propostas de escrita devem ter intenção comunicativa, gênero e destinatário claros. Projetos didáticos ajudam a conjugar esses fatores

Por: Tatiana Pinheiro
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Seus alunos acham que escrever é uma chatice? Sofrem para rabiscar uma ou duas linhas e desistem? Não dizem nada com nada? Misturam gêneros - ou, pior, ficam sempre no mesmo, ou, pior ainda, não têm a menor noção do que se trata? Para resolver isso, um caminho é refletir sobre sua prática em sala. Mais especificamente, sobre suas propostas de produção de textos. É bem provável que esteja nelas a raiz da maior parte das queixas citadas.

O argumento é simples: uma boa proposta de texto precisa ter propósitos comunicativos claros. Trata-se, segundo os estudiosos, de garantir as chamadas condições didáticas da escrita: o que escrever? Para que escrever? E, finalmente, para quem escrever? Somente respondendo a essas perguntas é possível determinar como escrever (aqui entram os gêneros específicos: conto, fábula, receita, reportagem etc.).

Textos de tema livre costumam desconsiderar esses requisitos básicos. O resultado, quase sempre, é desastroso. Em seu livro Passado e Presente dos Verbos Ler e Escrever, a pesquisadora argentina Emilia Ferreiro demonstra claramente a diferença que uma boa proposta de escrita faz. Enquanto uma redação de tema livre sobre o frango (por incrível que pareça, a proposta era essa) gerou uma composição pobre de conteúdo e de forma indefinida, outra - em que destinatários, tema e motivo da escrita estavam explicitamente definidos - deu origem a um texto com diversas marcas do gênero, muito mais coerente e coeso (veja a ilustração acima).

Essa clareza de propósitos precisa estar presente em todas as propostas de escrita. Mas há alternativas de trabalho que acentuam essas características. A principal delas é o projeto didático, uma modalidade organizativa composta de sequências e atividades que culminam num produto final com destinatário definido. "O projeto é a melhor forma de realizar o que os especialistas chamam de transposição didática dos usos sociais da escrita por colocar o aluno diante de uma prática que considera a função comunicativa da linguagem", diz Beatriz Gouveia, pedagoga e formadora de professores do Instituto Avisa Lá, na capital paulista.

Um exemplo ajuda a esclarecer do que estamos falando. Vamos supor que a intenção seja propor um projeto didático sobre a vida dos dinossauros para alunos de 4º ou 5º ano. O produto final pode ser um livro, com uma coletânea de textos informativos, que ficará disponível na biblioteca da escola. Nesse caso, os propósitos didáticos - aprender a reconhecer e a produzir textos expositivos - e o propósito social ou comunicativo - produzir um livro sobre dinossauros para a consulta dos demais alunos - são do conhecimento de todos desde o início das atividades. Isso aumenta o entusiasmo para participar das tarefas. Quando sabem que aquela produção terá leitores reais, o empenho e o cuidado em todas as etapas da produção são redobrados.

Outro aspecto que diferencia o projeto didático é a duração. De acordo com a quantidade de conteúdos, ele pode ser feito durante um bimestre ou um semestre, seguindo um planejamento detalhado das atividades: como serão feitas, quanto tempo levarão, qual a meta de cada uma e como serão avaliadas. Nos projetos de produção de texto, é essencial considerar que cada etapa deve conter práticas de leitura e escrita ou de análise e reflexão sobre a língua (leia o projeto didático).

Interdisciplinaridade e culminância, palavrões a evitar 

Se a intenção principal for trabalhar produção de texto, é preciso tomar cuidado para não exagerar na interdisciplinaridade. A tentação de querer ensinar de tudo um pouco, forçando a barra para misturar diversas áreas, não costuma dar bons resultados. Para ficar no exemplo dos dinossauros, não precisa quebrar a cabeça para inserir a qualquer custo um conteúdo de Matemática, por exemplo.

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Também não vale pedir tarefas que a turma já sabe e achar que a missão está cumprida. Voltando aos dinos mais uma vez, imaginemos que os estudantes já possuem alguma familiaridade com a leitura de mapas. Pedir a eles que localizem os bichos num mapa-múndi, definitivamente, não é um bom exemplo de como abordar Geografia nesse projeto didático. Não se pode perder de vista que um bom projeto deve levar o aluno a aprender coisas que antes desconhecia. Trata-se de fazê-lo colocar em jogo seus conhecimentos para resolver um desafio, perceber que o que sabe é insuficiente e, com a ajuda do professor, encontrar caminhos para reorganizar suas hipóteses e seguir avançando.

Outro pecado muito comum nos projetos é a atenção demasiada à chamada "culminância", o produto final das atividades. A ideia é que a apresentação ou a entrega do projeto concluam uma caminhada permeada pelo aprendizado, na qual as crianças partiram de um estágio menor de conhecimento e chegaram a um maior. "Em nenhum momento da execução do projeto o propósito social e a culminância devem superar os propósitos didáticos. Não se pode perder noites de sono pensando no que servir de lanchinho no dia do sarau ou matutando em que tipo de papel o livro de poesias das crianças será impresso", alerta Silvia Carvalho, especialista em Educação e coordenadora do Instituto Avisa Lá.

E é sempre bom lembrar que não vale apostar apenas nos projetos didáticos. Apesar de bons, é preciso mesclá-los a outras modalidades organizativas para que os alunos escrevam mais. O ideal é que escrevam todo dia, em todas as situações que surgirem e complementem o projeto principal: tomar nota em situação de estudo, escrever cartas e bilhetes, trabalhar outros gêneros e assim por diante. Em todas elas, vale a regra de ouro: você deve deixar bem claro para a turma as perguntas essenciais - o quê, para quem e para quê escrever.

Quer saber mais?

CONTATOS
Beatriz Gouveia
Débora Rana
Silvia Carvalho

BIBLIOGRAFIA
Passado e Presente dos Verbos Ler e Escrever, Emilia Ferreiro, 96 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 15 reais  

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