Machado de Assis, pesquisador de almas e palavras

POR:
NOVA ESCOLA
Machado de Assis: sensibilidade e 
ironia na análise da alma humana 

É principalmente nos contos e romances escritos após 1881 que Machado de Assis questiona o modo de ser das pessoas e as formas de fazer literatura. Ele não apenas retrata o Rio de Janeiro de sua época mas também investiga em profundidade sentimentos e intenções do ser humano, atingindo a universalidade. Suas obras ampliam os limites criativos da prosa de ficção, pois apresentam recursos estilísticos e narrativos inovadores.

Seu método consiste em expor detalhes de comportamento, cuja soma conduz à interpretação de uma faceta de personalidade. Intimidades são mostradas, e são expostas regiões do caráter que normalmente gostaríamos de ocultar. Machado trabalha constantemente a ironia e o humor. É com lucidez que investiga temas como a identidade (somos realmente quem supomos?), a importância das escolhas (cada opção define parte da nossa existência), a transformação do homem em objeto do homem (a busca de privilégios beneficia os que não hesitam).

Sua obra se tornou referência para toda a produção brasileira posterior. Graciliano Ramos, por exemplo, tem traços machadianos.

Biografia

Epiléptico, gago, filho de um operário mulato e de uma lavadeira, criado no morro carioca do Livramento — tais atributos não pressagiavam um futuro brilhante para Joaquim Maria Machado de Assis. Mas não o impediram de se tornar o maior escritor brasileiro: cronista, contista, dramaturgo, poeta, novelista, crítico, ensaísta e, sobretudo, romancista, autor de obras imortais como Quincas Borba e Dom Casmurro.

Nascido no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839, Machado de Assis trabalhou na adolescência como vendedor de doces. Aproveitando cada oportunidade, aprendeu francês com a proprietária e um empregado de uma padaria elegante, a ponto de se tornar tradutor dessa língua. Aos 16 anos, publicou seu primeiro poema. Aos 17 anos, quando era aprendiz de tipógrafo na Imprensa Oficial, ganhou a proteção do romancista Manoel Antônio de Almeida, diretor da instituição, que o introduziu no mundo das letras. Esse caminho tornou-se irreversível a partir de 1858, quando passou a trabalhar como revisor e a colaborar em revistas e jornais como o Diário do Rio de Janeiro.

Num primeiro momento, Machado de Assis dedicou-se ao teatro, escrevendo Queda Que as Mulheres Têm para os Tolos (1861) e outras peças. Em 1864, publicou seu primeiro livro de poesia, Crisálidas. Em 1867, ingressou no serviço público e, dois anos depois, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, companheira de toda uma vida. O lançamento de Ressurreição, em 1872, assinalou sua estréia como romancista. Seguiram-se outros romances, contos e crônicas até a guinada de 1881. Nesse ano, passou a publicar, na Gazeta de Notícias, deliciosas crônicas sobre a vida carioca. Ainda mais importante, lançou Memórias Póstumas de Brás Cubas. O livro marcou o início de uma revolução no romance brasileiro, que prosseguiu com Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899).

Em 1897, Machado de Assis esteve entre os fundadores da Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente. Ocupou o cargo até a sua morte, em 1908.

 Crônicas do cotidiano no Império e na República

Redações de jornais e revistas, sedes de editoras, teatros, repartições públicas, a Câmara e o Senado, a Academia Brasileira de Letras fizeram parte da paisagem do Rio de Janeiro de Machado de Assis. Ele foi o cronista de uma cidade que se via como pólo de civilização e progresso – por mais que esses aspectos fossem incompatíveis com a existência do trabalho escravo. Em textos bem-humorados, Machado registrou a chegada dos bondes elétricos, seu impacto no cotidiano carioca e outras “conseqüências do progresso” (título de uma crônica de 1892). Forneceu, por exemplo, irônicas instruções de comportamento aos passageiros dos bondes e descreveu a figura poderosa do condutor: “Sentia-se nele a convicção de que inventara não só o bonde elétrico mas a própria eletricidade”.

Quer saber mais?

Machado de Assis - Contos, 136 págs., Col. Bom Livro, Ed. Ática, tel. (11) 3990-1777, 15,50 reais
Obra Completa de Machado de Assis, Afrânio Coutinho (org.), três volumes, Ed. Nova Aguilar, tel. (21) 22280-020, 345 reais
Os Melhores Contos de Machado de Assis, Domício Proença Filho (org.), 304 págs., Ed. Global, 
tel. (11) 3277-7999, 42 reais 

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