Alcântara Machado, repórter da imigração italiana

POR:
NOVA ESCOLA
Alcântara Machado: artífice de uma língua para as camadas populares. Agência Estado/Reprodução
Alcântara Machado: artífice de uma 
língua para as camadas populares. 
Agência Estado/Reprodução

Em seu principal trabalho em prosa de ficção, o livro Brás, Bexiga e Barra Funda, Antônio de Alcântara Machado registra a vida cotidiana e a linguagem dos oriundi, isto é, dos imigrantes italianos e seus descendentes, que, no início do século 20, viviam nos bairros paulistanos que dão nome ao livro. Sua escrita é renovadora e antiacadêmica, saborosa em sua capacidade de captar o tom coloquial e os italianismos da fala de seus personagens.
É o autor quem, no prefácio, afirma: "Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias". A opção pela maneira jornalística de apresentar os personagens e seus pequenos dramas cotidianos confere aos contos um caráter moderno, pois transfere ao leitor a responsabilidade de julgar os procedimentos e a realidade retratados. Desse modo Alcântara Machado se aproxima de vários narradores brasileiros de nossos dias, particularmente de João Antônio, que em seus contos adotou técnica semelhante: visão jornalística e registro da linguagem dos personagens típicos do ambiente urbano brasileiro. 

Biografia 

De uma família tradicional, formada por juristas, políticos e diplomatas, Antônio Castilho de Alcântara Machado de Oliveira nasceu em São Paulo em 25 de maio de 1901. Seguindo os passos do avô e do pai, ambos professores na Faculdade de Direito de São Paulo, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais na mesma faculdade em 1923. Mas não seguiu a profissão, preferindo dedicar-se ao jornalismo. Um ano depois, já era redator-chefe do Jornal do Comércio e fez nesse veículo suas primeiras incursões pela literatura, como crítico teatral. Em 1925 realizou uma viagem à Europa, onde escreveu crônicas e reportagens publicadas no Jornal do Comércio. Esse material serviu de base a seu livro de estréia, Pathé Baby, publicado em 1926 e prefaciado por Oswald de Andrade. No mesmo ano, Alcântara Machado esteve entre os responsáveis pelo lançamento da revista Terra Roxa e Outras Terras.

Em 1927, quando já integrava a redação dos Diários Associados, em São Paulo, Alcântara Machado publicou seu livro mais conhecido: Brás, Bexiga e Barra Funda, com 11 contos ambientados em bairros paulistanos de forte influência italiana. No ano seguinte, além de publicar Laranja da China, lançou com Oswald de Andrade a Revista de Antropofagia. Em 1931, a colaboração seria com outros modernistas: Mário de Andrade, Paulo Prado e Alcântara Machado fundaram a Revista Nova.

Por essa época, uma nova vocação despontava no escritor-jornalista: a política. Alcântara Machado escreveu e leu pelo rádio textos de apoio à Revolução Constitucionalista de São Paulo (1932). Depois mudou-se para o Rio de Janeiro, onde dirigiu o Diário da Noite; paralelamente, participava ao lado do pai, deputado por São Paulo, das discussões sobre as propostas da bancada paulista na Assembléia Constituinte. Em 1934, elegeu-se deputado federal, mas não chegou a tomar posse: uma crise aguda de apendicite resultou na sua morte, em 14 de abril de 1935, aos 34 anos. Vários textos seus, como o romance Mana Maria, foram publicados postumamente.

O arauto da gente pobre paulistana

A cidade onde nasceu Alcântara Machado registrava um crescimento febril desde a década de 1880. Aos palacetes dos cafeicultores e da elite política da República Velha, somavam-se construções como o Edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu paulistano, finalizado em 1930. Outros símbolos da modernidade, destacados em seus textos, eram as máquinas e em especial os veículos como bondes e automóveis. Mas, no fundamental, a São Paulo de Alcântara Machado era a cidade dos imigrantes de origem italiana, que trabalhavam como operários ou em outros ofícios humildes. Foi a essa gente pobre que ele deu voz, em Brás, Bexiga e Barra Funda ? e foi devido à presença dela que ele se propôs a "construção de uma língua", mesclando influências portuguesas e italianas.

Quer saber mais?

Brás, Bexiga e Barra Funda/ Laranja da China, Antônio de Alcântara Machado, 150 págs., Ed. Martin Claret, tel. (11) 3672-8144, 10,50 reais 
Contos Reunidos - Brás, Bexiga e Barra Funda, Laranja da China e Outros Contos, Antônio de Alcântara Machado, 188 págs., Col. Bom Livro, Ed. Ática, tel. (11) 3990-1777, 17,90 reais 

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