Idioma que vem da web

A internet é um excelente recurso para explorar o uso real do inglês. Mas é preciso definir muito bem quais gêneros e quais conteúdos abordar

POR:
Beatriz Santomauro
Foto: Tamires Kopp

ESFORÇO DOBRADO Débora e a 5ª série trabalharam 
duro no primeiro contato com o inglês e a internet.
 
Fotos: Tamires Kopp

Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Cada vez mais utilizada como fonte de pesquisa, a internet tem a maior parte de suas páginas em inglês. Por isso, a proposta de incluir a rede mundial de computadores no ensino de idiomas é bastante oportuna porque apresenta aos alunos um conhecimento de aplicação imediata. Para ser bem explorada, entretanto, essa união precisa ter uma característica fundamental: considerar os usos reais do inglês (segundo a tendência dominante no ensino de Língua Estrangeira, a sociointeracionista, essa é a maneira mais adequada de lecionar a disciplina). O trabalho da professora Débora Lisiane Carneiro Tura, da EEEB Dom Pedro I, em Quevedos, a 398 quilômetros de Porto Alegre, combina todas essas virtudes. Para apresentar o inglês à 5ª série, ela desenvolveu um projeto em que o idioma é ensinado com base na leitura e escrita de textos para blogs (páginas pessoais usadas para divulgar características de seus autores): quem são, como vivem, por quais assuntos se interessam e quais suas opiniões sobre eles.

Bem-sucedida, a iniciativa rendeu a Débora o troféu de Educadora Nota 10 no Prêmio Victor Civita de 2008 (leia mais sobre o projeto no quadro "O desafio de entender e criar blogs"). "Com a opção por uma atividade real de comunicação, ela fez com que a turma entrasse em contato com textos autênticos, que existem também fora do ambiente da sala de aula. Além disso, fez a produção ter sentido para a garotada", diz Andrea Vieira Miranda Zinni, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e selecionadora do Prêmio.

Noções básicas de informática fazem o projeto decolar 

Blogs, porém, não são a única alternativa para mergulhar nas situações comunicativas "de verdade" que existem na internet. "Eles são apenas um dos gêneros disponíveis entre tantos outros: notícias informativas, páginas de receitas e sites com resenhas de cinema, por exemplo. Nesse sentido, a sequência de atividades desenvolvida por Débora pode servir de inspiração para qualquer trabalho que envolva o uso real do idioma na rede", opina Andrea (leia projeto didático que utiliza a web para que a turma conheça álbuns fotográficos escolares e saiba produzir um deles).

Para começar, é inevitável reservar um espaço para entender como funciona a rede mundial de computadores. Uma boa alternativa é buscar na própria web os chamados tutoriais, textos que ensinam passo a passo o funcionamento de recursos digitais. Nas aulas, vale também dividir as dúvidas com os alunos, que muitas vezes manejam a tecnologia melhor do que os professores.

Com essa primeira missão cumprida, é hora de enfrentar outra dificuldade: a precária infraestrutura das salas de informática nas escolas. Se o número de computadores for muito pequeno, divida a turma em dois grupos. Enquanto um usa os aparelhos, o outro faz atividades em sala de aula - por exemplo, revisando os textos já produzidos.

O.k., agora que a parte tecnológica está em ordem, você deve planejar detalhadamente a proposta de atividade em língua inglesa. Se a intenção for considerar o uso real do idioma, um primeiro passo é selecionar qual gênero será abordado. A escolha, porém, deve sempre estar a serviço de um propósito: o que você pretende ensinar. Sem definir conteúdos, o trabalho com gêneros corre o risco de perder o foco. No exemplo de Débora, a opção foi enfatizar, nos textos dos blogs, as chamadas wh questions (What is your name?, Where do you live?, Who is your best friend? etc.), perguntas com respostas abertas que são essenciais para a construção de apresentações pessoais, algo bastante útil para quem está tendo seu primeiro contato com a língua.

O momento seguinte, ainda parte do planejamento, é procurar bons exemplos de textos que correspondam ao conteúdo que se quer ensinar. Nesse ponto, os dois lembretes mais importantes são escolher autores que sejam falantes de inglês (o que reduz a probabilidade de erros ortográficos e gramaticais) e páginas com conteúdo adequado para a turma (o que ajuda a evitar "escapadinhas" para sites perigosos).

 

Foto: Tamires Kopp
MEUS CAROS AMIGOS Por serem "de verdade", amigos virtuais ajudam a dar um propósito comunicativo aos textos
Foto: Tamires Kopp
CONTEÚDO ONLINE Depois da produção revisada, a turma publica os textos do gênero estudado
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REVISÃO INDIVIDUAL Após as mudanças sugeridas, os textos são devolvidos para que cada aluno possa refazê-los
Foto: Tamires Kopp
REVISÃO COLETIVA A discussão no quadro favorece o debate sobre as alterações necessárias na produção dos alunos

 




















Leitura constante para aprender características discursivas 

A partir dessa etapa, a sequência ganha muitas semelhanças com o ensino da língua materna: é principalmente por meio da leitura constante de boas produções do gênero escolhido que os alunos aprendem características discursivas e linguísticas que indicam tanto quem escreve como o provável leitor. No caso de idiomas como o inglês e o espanhol, essa atividade favorece que a turma compreenda as ideias gerais, levando em conta o contexto, mesmo antes de dominar completamente a língua. "Para isso, é comum lançar mão de estratégias como a leitura de imagens ou recorrer a palavras com raízes similares em português", explica a consultora Andrea.

Familiarizada com o gênero, a garotada parte para a produção. Nessa etapa, o importante é reforçar a utilidade das estruturas aprendidas. Na classe de Débora, as wh questions foram essenciais para a construção de textos sobre as preferências e os interesses dos alunos, informações sobre família e amigos, suas rotinas, o que fazem na escola e no tempo livre. É preciso ter claro, ainda, que toda a produção deve vir acompanhada de sessões de revisão para que a moçada possa refletir sobre o que escreveu e avançar.

Uma última recomendação é evitar cair na tentação de traduzir tudo para a turma. Procure ser uma referência como falante da língua, recorrendo ao português apenas em último caso. Para tirar dúvidas ou dar alguma explicação, prefira a associação com imagens - ou, ainda, busque sinônimos que possam facilitar o entendimento. Esse é o caminho mais eficaz para aumentar a autonomia no aprendizado de um idioma cada vez mais necessário no dia-a-dia.

O desafio de entender e criar blogs

Casada e mãe de duas filhas, a gaúcha Débora Lisiane Carneiro Tura é formada em Letras e tem pós-graduação em Metodologias de Ensino da Língua Inglesa. Para tornar realidade a iniciativa que lhe rendeu o Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 em 2008, ela ficou quatro horas a mais por semana com a turma de 5ª série. "Isso foi necessário porque aqueles alunos estavam sendo apresentados não só ao inglês mas também à internet. Poucos tinham computador em casa", diz.

Objetivos
Com duração de um semestre, o projeto que visava apresentar o inglês aos alunos começou com a leitura de blogs variados para criar familiaridade com o gênero. Em seguida, veio a escrita na internet. Primeiro na forma de blogs coletivos, em que todos trabalhavam juntos, somando saberes para construir os textos. Depois, quando a turma já demonstrava mais segurança, Débora incentivou a produção de blogs individuais e colaborativos, com os alunos redigindo os próprios textos e comentando os dos colegas. Cada produção, é claro, vinha acompanhada da indispensável etapa de revisão.

O passo-a-passo
Quanto maior era o contato com a leitura, a escrita e a revisão coletivas, mais elementos os estudantes tinham para conversar com os amigos virtuais e voltar aos textos feitos inicialmente para reescrevê-los e aprimorar forma, conteúdo e estilo. "Aos poucos, eles passaram a produzir textos de modo mais autônomo, interagindo com agilidade e usando estruturas linguísticas mais complexas. Também foram se sentindo mais preparados para deixar comentários em outros blogs", lembra Débora. A professora interferia, ressaltando as regularidades que apareciam nos textos, chamando a atenção para o vocabulário sobre os modos de vida dos colegas, os gostos e a descrição de lugares e de profissões.

Avaliação
Débora utilizou como parâmetro tanto as atividades de produção individual como a participação na revisão coletiva. Os momentos de colaboração com os colegas e a participação nas atividades também ajudaram a professora a notar dificuldades e planejar quais conteúdos precisavam ser enfatizados nas aulas seguintes.

Quer saber mais?

CONTATOS
Andrea Vieira Miranda Zinni

Débora Carneiro Lisiane Tura
EEEB Dom Pedro I, R. Humaitá, 51, 98140-000, Quevedos, RS, tel. (55) 3279-1020

BIBLIOGRAFIA
Ensino-Aprendizagem de Línguas Estrangeiras: Reflexão e Prática, Fátima Cabral Bruno (org.), 160 págs., Ed. Claraluz, tel. (16) 3374-8332, 23 reais

INTERNET 
Blog de um dos alunos da Educadora Nota 10: leonardosilvaalessio.blogspot.com


Tecnologia

Tecnologia a serviço da aprendizagem

 

 

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