Conheça a dança folclórica catira

A antiga dança do Centro-Oeste, quase esquecida entre os moradores de Aparecida do Taboado, ressurge com a formação de um grupo de dançadores mirins

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Denise Pellegrini
Os pequenos catireiros mostram sua arte: resgate da tradição. Foto: Marcelo Min
Os pequenos catireiros mostram sua arte: 
resgate da tradição. Foto: Marcelo Min

Ao som da viola, o cantador entoa uma moda. As crianças, atentas à música, dançam, ora batendo palmas, ora sapateando. A apresentação do grupo mirim de catira da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental João Luiz Pereira, de Aparecida do Taboado (MS), realizada no ano passado, teve um significado especial. Manifestação folclórica importante do município, a dança corre o risco de ser esquecida. Hoje não há nenhum grupo formado entre seus 17 mil habitantes. Por esse motivo, a professora Jucelma Seifert da Silva decidiu elaborar um projeto quando o tema surgiu espontaneamente durante uma de suas aulas.

Tiago Dantas Guilherme contou aos colegas que seu avô tinha sido um grande catireiro, mas que seu grupo tinha se dissolvido. Em seguida o garoto perguntou por que não se dançava catira na escola. Estava dada a largada para as turma, formada por 32 alunos de 5 e 6 anos, conhecer melhor a cultura da cidade.

"Essa tradição está se perdendo. Por isso as iniciativas que buscam revivê-la são muito bem-vindas", enfatiza Zito Ferrari, coordenador do Projeto Sarandi Pantaneiro, mantido pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. O grupo resgata, divulga e preserva a dança, a música e a cultura do estado. De acordo com Ferrari, monitores do Sarandi ensinam a catira e outras manifestações culturais a estudantes. Para ele, esse trabalho é mais eficaz justamente na Educação Infantil. "As crianças crescem respeitando a cultura dos seus antepassados, que é delas também."

Síntese do trabalho

Tema: Resgate de tradição local

Objetivo: Levar a criança a conhecer a catira, dança tradicional do município, descobrindo sua origem e aprendendo a praticá-la

Como chegar lá: Peça que os alunos pesquisem junto à família informações sobre a dança. Procure referências em livros e revistas e consulte moradores antigos da comunidade que sejam praticantes. Convide um catireiro para contar a origem da manifestação folclórica e ensaiar um grupo. Amplie o tema central do projeto, relacionando a dança à história da localidade e a costumes surgidos na época de sua chegada e que ainda se mantêm

Dica: Providencie a roupa típica do grupo folclórico que quer montar e deixe as peças na escola. Como os alunos de Educação Infantil logo se mudarão para outros colégios, você poderá manter o grupo com os que forem chegando

Consulta à comunidade

O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil estabelece que a escola é o lugar onde deve se dar a ampliação das experiências trazidas de casa e o contato com diferentes costumes, hábitos e expressões culturais. Jucelma proporcionou isso à classe. Ela deu início às atividades com uma pesquisa sobre a chegada da catira ao município. "Pedi que os alunos indagassem pais e avós e fui em busca de catireiros antigos", lembra-se. Um deles era o senhor Felipe Leonel de Aquino, de 73 anos, avô de Tiago, que foi convidado a falar sobre a tradição e sua origens para estudantes e pais. A garotada descobriu que a dança tinha vindo de Minas Gerais, trazida por vaqueiros, há cerca de 50 anos.

Pessoas idosas que pertencem à comunidade são valiosas fontes de informação, de acordo com o Referencial. Jucelma acertou ao recorrer aos conhecimentos que os moradores antigos têm sobre o modo de vida local, de acordo com a pedagoga Giana Amaral Yamin, professora de Prática de Ensino da Educação Infantil da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. E ainda poderia ter ido além, promovendo outros tipos de pesquisa. "O professor não deve se basear apenas no senso comum", afirma Giana. "Levantamentos em livros e enciclopédias enriqueceriam muito o trabalho." Isso não significa que os meninos e as meninas deveriam escrever ou decorar nada. "A riqueza de uma experiência desse tipo está na busca de informações em fontes escritas, uma prática que não será esquecida", completa.

Ecos do passado

Não foi apenas com a dança que os mineiros presentearam a cidade. Eles trouxeram também o arroz- tropeiro, preparado com carne-seca, lingüiça e toucinho, bastante apreciado na região, e muitas narrativas. "Quando interrompiam a viagem para pernoitar, os peões contavam histórias tenebrosas", revela Jucelma. Os temas eram assombrações e fatos inexplicáveis, como o choro de um bebê morto que nunca se calava. Quando menina, a professora ouvia causos desse tipo ? que não estão registrados em livros ? e recontou vários deles para a garotada. Para Giana, tanto essas narrativas como as temáticas exploradas nas modas de viola podem ser ricas fontes para o estudo da época. "Relacionando os dois materiais é possível realizar um resgate histórico", ensina.

Esse passado não muito remoto de Aparecida do Taboado foi estudado por meio da análise de fotos antigas, emprestadas pela prefeitura. A turma comparou o espaço em que vive hoje com o antigo. O Referencial mostra que isso possibilita perceber diversas formas de relação do homem com o meio. "Constatamos que antes havia bem menos casas e indústrias que hoje", diz Jucelma.

A dança

Antes que começassem os ensaios do grupo mirim, Jucelma pediu autorização aos pais. Muitas famílias não permitiram que seus filhos participassem, por motivos religiosos. Outros alunos não quiseram aprender a coreografia. Todos, no entanto, acompanharam as aulas. Giana faz um alerta: para que o projeto faça sentido, os ensaios devem ser momentos prazerosos. "E quem ficou de fora tem direito a outra atividade", completa.

Por cerca de 40 dias o treino dos seis pares foi comandado pelo senhor Felipe, acompanhado por uma dupla de músicos, os irmãos José e Clementino Leite de Souza. Nesses momentos as crianças desenvolveram a expressão corporal. "Elas tinham que sapatear e bater palmas ao ritmo da música", conta. De acordo com o Referencial, a catira, por ser realizada em grupo, tem um sentido socializador e estético. Outro ponto positivo da experiência: justamente na idade de sua classe, entre 4 e 6 anos, a dança pode ser utilizada como meio de desenvolver a percepção de estruturas rítmicas.

Jucelma afirma que, durante os ensaios, a turma aprimorou diversas outras habilidades. A atenção foi uma delas. Isso porque era necessário contar as palmas e as batidas dos pés no chão. Todos também tinham que se preocupar com o espaço disponível para desenvolver a coreografia. "Ninguém podia sair do contorno no tablado ou invadir o espaço do outro", explica. E mais: os garotos ampliaram o vocabulário e se empenharam nos desenhos, que formaram um grande painel.

O projeto se encerrou com duas apresentações uma na escola e outra num clube da cidade. A avaliação de Jucelma é positiva. Ela conseguiu desenvolver o interesse pela cultura local e, ao mesmo tempo, aproximou-se das famílias. "Os pais compareceram em massa à reunião com o senhor Felipe, deram opiniões e nosso convívio se tornou mais harmonioso." E aumentou o interesse dos estudantes pelas aulas. Para Giane, isso ocorreu porque Jucelma propôs experiências prazerosas, promoveu o desenvolvimento da socialização e a melhoria da autonomia e da auto-estima dos alunos. "Ela confiou na capacidade deles."

O desafio da professora continua. Ela quer formar um novo grupo de catireiros mirins, já que muitos não estudam mais lá. Para Zito Ferrari, é importante que ele seja permanente e conte sempre com a assessoria de um antigo dançador. "As apresentações devem acontecer em festivais folclóricos para que a valorização da cultura seja cada vez maior."

Dança indígena ou portuguesa

Os catireiros com camisa xadrez, calça jeans, lenço no pescoço e um chapéu de aba larga: traje igual para meninas e meninos. Foto: Marcelo Min
Os catireiros com camisa xadrez, 
calça jeans, lenço no pescoço 
e um chapéu de aba larga: 
traje igual para meninas e 
meninos. Foto: Marcelo Min

Conhecida também como cateretê, a catira é típica no Centro-Oeste. Existem pelo menos duas origens para essa manifestação folclórica, uma indígena e outra, portuguesa. Nos tempos coloniais ela era um agradecimento ao santo de devoção pela boa colheita. Originalmente a dança era exclusiva para homens, mas com o passar do tempo a presença feminina começou a ser aceita.Os catireiros, como são conhecidos, têm uma vestimenta típica: camisa xadrez ? de manga comprida ? e calças jeans. Usam botas, chapéu de aba larga e lenço no pescoço, lembrando os boiadeiros. Eles bailam ao som da moda de viola, que trata de questões do dia-a-dia, como o trabalho e o amor. Os dançarinos se colocam em duas fileiras, uma em frente à outra, e após a introdução da canção, começam a sapatear e bater palmas, sempre ao ritmo das violas. Logo depois os cantadores entoam a segunda parte da música. A dança termina com o recortado, em que os dançadores vão trocando de lugar a cada estrofe da moda. Quando voltam aos seus lugares originais, a dança termina.

Quer saber mais?

Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental João Luiz Pereira, R. Princesa Maria Leopoldina, 4561, CEP 79570-000, Aparecida do Taboado, MS.

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