Nascimento do Brasil

O aniversário de 200 anos da chegada da família real inspira um debate com turmas de 8º e 9º anos sobre a formação do nosso país

POR:
Paulo Araújo
Infográfico Sattu e Luiz Iria (consultor), inspirado no mapa do Brasil e regiões circunvizinhas (1798), de Giovani Maria Cassin
Infográfico Sattu e Luiz Iria (consultor), inspirado no mapa do Brasil e regiões circunvizinhas (1798), de Giovani Maria Cassin
 

Era uma vez, num reino chamado Portugal, um príncipe regente medroso, glutão e viciado em coxas de galinha chamado João. No dia 29 de novembro de 1807, ele juntou a mãe (uma rainha louca), a mulher (uma princesa espanhola), os filhos e cerca de 11 mil pessoas e partiu para o distante Brasil, uma colônia que pertencia a seus domínios e ficava do outro lado do oceano Atlântico. A razão da mudança? O medo de ser deposto pelo Exército francês, comandado pelo imperador Napoleão Bonaparte. Em terras brasileiras, o príncipe ficou por 13 anos, realizou alguns feitos importantes, tornou- se rei após a morte da mãe e fez do filho, Pedro, seu sucessor. Depois, quando Napoleão já havia perdido a guerra, voltou para sua terra natal.

É assim, de forma resumida, que muitos brasileiros estudam a vinda da família real portuguesa para o Brasil. Vinda, aliás, não é o termo apropriado para descrever o episódio, que completa 200 anos agora, em março. "Foi uma fuga pura e simples, apressada, atabalhoada, sujeita a erros e improvisações", garante o jornalista Laurentino Gomes no livro 1808.

A transferência da corte foi mesmo uma epopéia, como você pode conferir no infográfico à direita. Ao longo dos três meses em que passou no mar, a comitiva enfrentou tempestades, calmarias, peste de piolhos, falta de alimentos e de água e chegou ao destino dividida em duas. As conseqüências desse fato na formação do país, no entanto, raramente são analisadas em sala de aula com a importância que tiveram e merecem. "Muitos livros didáticos listam as realizações de dom João, destacando o lado caricato do personagem", aponta Flávia Aidar, professora de História e selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. "Os textos que estão sendo publicados para comemorar a data e as discussões que eles provocam deverão recolocar o episódio em seu devido lugar", aposta.

Unidade geográfica

Segundo historiadores ouvidos por NOVA ESCOLA, a conseqüência mais importante da mudança da família real para o Brasil foi unificar e preservar a integridade do nosso território. Basta lembrar que, antes de 1808, ocorreram diversos movimentos de cunho nativista, contra a cobrança de altos impostos e outras imposições da corte (como a Revolta dos Beckman, a dos Emboabas, a dos Mascates e a de Vila Rica). Outros, mais radicais, queriam separar a província do império e foram chamados de emancipacionistas: Inconfidência Mineira, Conjuração Baiana e Revolução Pernambucana (confira no mapa ao lado onde e quando elas tiveram lugar). Se a monarquia portuguesa não tivesse se transferido para cá, provavelmente a antiga colônia teria sido retalhada em pequenos países, exatamente como aconteceu na parte do continente governada pela Espanha.

Até 1808, a idéia de pertencer a um mesmo país não existia. Os habitantes se diziam "das Minas", "da Bahia", "de São Paulo", "do Pará", "de Pernambuco", mas nunca se apresentavam como brasileiros. "A comunicação era precária e geralmente o povo de uma província ignorava a existência das outras", assinalou o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que percorreu grande parte delas entre 1816 e 1822. "O Brasil era um círculo imenso, em que os raios se dirigiam para bem longe do centro", comparou.

Por outro lado, a administração lusitana trouxe consigo pragas que marcariam para sempre a administração pública brasileira. A corrupção e a troca de favores são as mais duradouras. No primeiro decreto, assinado pelo monarca durante a escala em Salvador, já estava lá a marca do "toma lá, dá cá". "A abertura dos portos às nações amigas era uma dívida que dom João tinha com a Inglaterra. Foi o preço pago pela proteção dada contra Napoleão ao longo da viagem, devidamente negociado em Londres um ano antes", esclarece em seu livro Laurentino Gomes. Como a corte não poderia vir só, teve de convencer os funcionários do reino a atravessar o Atlântico. Para isso, o regente distribuiu benesses: concedeu títulos de nobreza e pensões vitalícias e prometeu as melhores casas do Rio de Janeiro para abrigá-los, ainda que elas tivessem de ser tiradas de seus proprietários. Foi a política do "Ponha-se na Rua" - uma brincadeira criada pelos cariocas para se referir ao selo Propriedade Real (PR), afixado nas portas dos imóveis confiscados.

Projeto didático

OBJETIVOS
? Estimular o debate sobre a presença da família real portuguesa no Brasil e a construção do país contemporâneo.
? Entender a formação da identidade brasileira.
? Conhecer a estrutura social e familiar brasileira do século 19.

CONTEÚDOS
? Aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos do Brasil Colônia e do Brasil Império.

ANOS
8º e 9º.

TEMPO ESTIMADO
Dois meses.

MATERIAL NECESSÁRIO
Reproduções de gravuras de Jean Baptiste Debret (1768-1848); retroprojetor; fotografias do Rio de Janeiro do século 19 (disponíveis na internet); DVD Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camurati, ou o DVD O Quinto dos Infernos, de Wolf Maia; aparelhos de DVD e de TV; CDs do padre José Maurício (1767-1830) e de Chiquinha Gonzaga (1847-1935); e trechos dos livros 1808, A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, História da Alimentação no Brasil, A Moreninha e História da Vida Privada no Brasil.

DESENVOLVIMENTO
? 1ª ETAPA

Para saber o que a turma conhece sobre o tema, passe um trecho do filme Carlota Joaquina, Princesa do Brasil ou da minissérie O Quinto dos Infernos, exibida pela TV Globo. Os jovens conhecem os personagens? Sabem que foram concebidos com base em pessoas que existiram de fato? O que eles representam na nossa história? Pergunte como era a vida social na colônia naquela época. Conduza um debate sobre como os monarcas são retratados. Particularize as seguintes situações: o deboche que Carlota Joaquina faz dos brasileiros e a figura bufona de dom João. O que há de verdade? Selecione episódios que citam algumas realizações da monarquia no Brasil, como a abertura dos portos, do Banco do Brasil e de universidades. Por que elas foram importantes? Todos vão perceber que dom João criou condições de o país começar a ter alguma autonomia. Anote as respostas.

?2ª ETAPA
Depois da avaliação inicial, desperte a curiosidade e reflita com a turma sobre o modo de viver, pensar, se alimentar e até mesmo namorar da família real e de seus colaboradores. Distribua cópias do capítulo "A Colônia" do livro 1808 para que todos leiam previamente. Discuta o conceito de cultura e o "choque cultural" diante da forma de viver que os portugueses encontraram aqui. Levante questões para esquentar o debate. Como se dá o processo de adaptação de um indivíduo num meio ao qual ele não está acostumado? Quais as principais estratégias de sobrevivência? Alguém já teve de se mudar para uma cidade distante? Vale a pena ouvir os relatos para encerrar esse bloco.

? 3ª ETAPA
Reserve uma aula para cada um dos temas da chamada história do cotidiano.
A família - Peça que todos leiam trechos de Tomando Banho de Civilização, parte do capítulo 7 de A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, que conta como eram constituídas as famílias do Rio de Janeiro antes da chegada de dom João. Em seguida, exiba transparências com as gravuras de Debret, um dos artistas da Missão Francesa trazidos para retratar a colônia. Uma das mais ricas é Um Funcionário do Governo Sai a Passeio com a Família. O objetivo é observar os traços de hierarquia entre o pai, a mãe, os filhos e os escravos - esses últimos, sempre descalços. E hoje, existem tipos fixos de família? Quantos a turma consegue classificar? Com homens e mulheres trabalhando fora, ainda existe a figura do "chefe de família"?
Hábitos alimentares - Uma boa leitura para essa etapa é História da Alimentação no Brasil, de Câmara Cascudo (1898-1986). Selecione alguns trechos e distribua para a turma. Mostre reproduções de obras que representem os hábitos alimentares do período colonial, como a gravura O Jantar no Brasil, também de Debret. Em relação à cultura e à alimentação, os portugueses se adaptaram ao calor dos trópicos? Havia hábitos alimentares distintos entre europeus, africanos e índios? Quais eram os itens mais consumidos à mesa?
Relações pessoais - A grande questão agora é investigar como eram os relacionamentos pessoais no período colonial. Para começar, leia com os estudantes o capítulo do livro A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo (1820-1882), que trata do tema de maneira romântica e com pitadas de ironia. Quais as semelhanças e diferenças entre o namoro e o casamento do início do século 19 e o de hoje? A moçada sabe que os jovens daquele tempo se casavam a partir dos 13 anos e que muitos não escolhiam os parceiros?
Vida cultural e Educação - Solicite uma pesquisa sobre a diversão no século 19. Alguém já ouviu um tipo de música chamada polca? Qual a origem do samba, ritmo criado nos morros cariocas? Vale uma pesquisa sobre esse assunto e a audição de músicas do padre José Maurício e de Chiquinha Gonzaga. Em relação à Educação, a turma pode ler O Quê Se Lê e o Que Se Pensa, um ensaio do primeiro volume da coleção História da Vida Privada no Brasil.

PRODUTO FINAL
? Sarau cultural e teatro. Proponha que os adolescentes montem um sarau para retratar a vida cotidiana do século 19. Eles podem, além de declamar textos, entremeá-los com músicas e degustação de comidas. Divida a turma em cinco grupos e peça que cada um se responsabilize por cenas sobre um tópico estudado, inclusive uma envolvendo a família real.

AVALIAÇÃO
Analise os esquetes e veja quais informações estudadas foram incorporadas às cenas. Solicite um texto individual sobre o tema apresentado. Compare os dados presentes nessa produção final com as observações feitas no início do projeto e avalie como a turma passou a interpretar a efeméride.

CONSULTORIA Ana Bergamin, professora da Escola Vera Cruz, em São Paulo; Flávia Aidar, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. Flávia Ricca Humberg, professora da Escola Vera Cruz, em São Paulo, e Washington Dener, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Feitos reais

Ao desembarcar na capital da colônia, a realeza provocou mudanças significativas na estrutura do Estado e na vida cotidiana de 60 mil pessoas que ali viviam - outras 46 mil moravam em Salvador e 20 mil em São Paulo, as três cidades mais populosas de um país que tinha cerca de 3 milhões de habitantes, dos quais 1 milhão de escravos e 800 mil índios (leia no quadro ao lado um projeto didático sobre o modo de vida das pessoas naquela época). Para administrar seu grande império, do qual também faziam parte possessões na África e na Ásia, o príncipe se viu obrigado a montar um aparato estatal que incluía ministérios, tribunais e diversos departamentos administrativos. E era preciso também estruturar um lugar para viver bem, um país que honrasse ser a sede do império. Por isso, ele ordenou a realização de diversos feitos - que devem ser estudados sempre sob dois ângulos: os benefícios imediatos e os custos para o Brasil no futuro.

? Imprensa Régia - Até 1808, o único jornal que circulava no país era o Correio Braziliense, escrito e impresso em Londres e distribuído de forma clandestina na colônia. Mas o novo periódico oficial, batizado de A Gazeta do Rio de Janeiro, só trazia notícias positivas ao governo.

? Banco do Brasil - As únicas moedas que circulavam na colônia eram cunhadas em Lisboa. Por isso, dom João implantou um sistema monetário na sede do reino e o primeiro passo foi abrir um banco (que quebrou em 1820 e foi recriado em 1853 por dom Pedro II).
? Universidades de Medicina, em Salvador, e de Engenharia, no Rio de Janeiro - Os filhos da elite, até então, iam estudar na Universidade de Coimbra, em Portugal. O ensino era restrito aos homens.

? Jardim Botânico - Apreciador das ciências naturais, o monarca instalou numa chácara uma grande coleção de plantas nacionais e estrangeiras, hoje considerada a maior da América do Sul.

? Biblioteca Nacional - Dom João mandou trazer os 60 mil volumes da Real Biblioteca, uma das mais ricas da Europa, abandonada no porto no dia da fuga (e que chegou ao Brasil somente em 1811). Ela foi o embrião da Biblioteca Nacional, a oitava maior do mundo, hoje com 10 milhões de livros. Para uma parte do acervo original ficar aqui, foi preciso que dom Pedro I, já imperador, pagasse uma indenização a Portugal.

O ato mais significativo de todos foi a elevação da colônia à categoria de Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves em 1815. "Esse fato apressou a nossa independência, em 1822", avalia a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo. "Os historiadores não fazem conjecturas sobre o que não aconteceu, mas, se a família real tivesse ficado em Portugal, certamente o Brasil seria um país completamente diferente do que vivemos hoje", finaliza Lilia.

Quer saber mais?

CONTATOS
Ana Bergamin
Washington Dener

BIBLIOGRAFIA
1808, Laurentino Gomes, 420 págs., Ed. Planeta, tel. (11) 3087-8888, 39,90 reais

A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, Lilia Moritz Schwarcz, 560 págs., Ed. Cia. das Letras, tel. (11) 3707-3500, 60 reais

A Moreninha, Joaquim Manoel de Macedo, 152 págs., Ed. Ática, tel. (11) 3990-2100, 19,90 reais

A Vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, Thomas O´Neil, 128 págs., Ed. José Olympio, tel. (21) 2585-2060, 26,10 reais

História da Alimentação no Brasil, Câmara Cascudo, 960 págs., Ed. Global, tel. (11) 3277-7999, 98 reais

História da Vida Privada no Brasil (vol. 1) Fernando Novais (org.), 523 págs., Ed. Cia. das Letras, 82,50 reais

FILMOGRAFIA
Carlota Joaquina, Princesa do Brasil
, Carla Camurati (dir.), Elimar Produções, tel. (21) 2294-3966, 12,90 reais

O Quinto dos Infernos, Wolf Maya (dir.), Som Livre, tel. (21) 2223-3340, 69,90 reais

INTERNET
No site www.rio.rj.gov.br/culturas/proj_especiais_joao.shtm você acompanha o calendário comemorativo dos 200 anos da chegada da família real 

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