As mil faces do Brasil

Escola conta a história da imigração européia para explicar a formação de nosso povo

POR:
Maria de la Luz Mariz

Numa reunião pedagógica para discutir como a Escola Pedro de Oliveira, de Jundiaí, em São Paulo, comemoraria os 500 anos do Descobrimento, alguém disse: "Quase todo mundo aqui tem algum antepassado que foi imigrante. Por que não aprofundamos o tema da imigração e damos às crianças a oportunidade de aprender História do Brasil pesquisando suas próprias origens?" Como a sugestão de trazer a vida real para a sala de aula casava perfeitamente com as recomendações dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), a direção não pensou duas vezes antes de desenvolver o projeto. Decisão acertada, segundo a professora Sônia Maria de Freitas, doutora em História Oral do Memorial do Imigrante, de São Paulo. "Atividades que são tecidas entre a vida da criança e a disciplina a estudar são sempre eficientes", afirma.

"Para colocar a ideia em prática, a primeira providência foi esquecer a divisão por classes", lembram as coordenadoras Rosana Lima e Noemi Martho. Em seu lugar, entraram projetos que envolviam todas as turmas na pesquisa sobre a influência indígena, negra, européia e asiática na composição do povo brasileiro. E, principalmente, na história de Jundiaí. Os resultados foram mostrados três meses depois, numa exposição que foi planejada para durar um dia e acabou se estendendo por três, tamanho o sucesso.

Quem somos?

De início, os alunos observaram a própria aparência física, a de parentes, vizinhos, colegas, professores e de quem encontrassem na rua. As pessoas eram parecidas? Diferentes? Em que proporção? A que se atribui o fato? Os resultados mostraram que todos os tipos humanos - brancos, negros, mulatos, orientais - estavam presentes na população. Mas a maioria era de brancos. Qual a explicação para essa predominância?

Pesquisando em livros como Cem Anos de Imigração Italiana em Jundiaí, de Eduardo Carlos Pereira e Elizabeth Filippini (edição esgotada), e visitando o Museu Histórico e Cultural de Jundiaí, as crianças viram que, desde o final do século XIX, cerca de 4,5 milhões de pessoas de setenta nacionalidades européias e asiáticas haviam imigrado para o Brasil. Quase um terço desse contingente era de italianos. As razões para tamanha debandada? "Necessidade de braços para a lavoura, por parte dos fazendeiros brasileiros, e um grande empobrecimento dos europeus. 'Fazer a América' era um sonho dourado", explica Sônia Maria de Freitas.

Para os italianos estabelecidos nas fazendas de café do interior paulista, a amarga realidade cedo substituiu os sonhos de enriquecimento fácil. Em péssimas condições de vida, homens, mulheres e crianças trabalhavam de dez a catorze horas por dia em troca de um magro pagamento. "Decepcionado, meu avô recusou-se a pôr os pés na roça. Dizia que não tinha deixado a Itália para isso", conta, bem-humorado, o jundiaiense Virgilio Torricelli, 83, ex-professor e ex-vice-prefeito da cidade. "O resto da família, incluindo meu pai, na época com 12 anos, labutava de sol a sol no cafezal da Fazenda São José."

Saga d'além-mar

Quem trabalhou com os alunos a saga brasileira dos imigrantes foram as professoras Mara Tereza Pereira Buzzo, Helena Aparecida Guglielmin Tizatto e Maria Antonieta Mendes Valdo. "Comecei perguntando à turma quem conhecia alguém que viera de outro país para morar aqui", conta Antonieta. Grande parte dos alunos tinha avós ou bisavós imigrantes, em geral italianos. Por isso, e por causa da novela Terra Nostra, da Rede Globo, as classes estavam interessadíssimas no assunto. "Decidi então me concentrar nos italianos, que a partir de 1887 receberam passagens gratuitas para vir ao Brasil e crédito para comprar lotes no Núcleo Colonial Barão de Jundiaí. "

Onde era o Núcleo agora ficam os bairros da Ponte São João, onde está a escola, e o vizinho Colônia, onde ainda vivem descendentes desses primeiros imigrantes. "O ambiente conhecido deu aos estudantes uma empatia ainda maior com o projeto", comemora a educadora.

Mão na massa

Como trabalho de campo, os estudantes investigaram os atuais moradores da Ponte São João e da Colônia - além, é claro, dos próprios familiares e vizinhos. Com a ajuda de Antonieta, elaboraram fichas de identificação de origem e questionários para verificar de que parte da Itália tinham vindo os imigrantes (a maioria era originária do Vêneto, no norte do país).

Quem possuía objetos, documentos e fotos de época era convidado a emprestar o material para a exposição. Muitas pessoas tinham fotos dos avós ou bisavós. Algumas dispunham de preciosidades como passaportes originais, pignatas (panelas) e papéis de posse de lotes do Núcleo Colonial Barão de Jundiaí.

Nas aulas de Artes, a turma construiu réplicas em argila dos fornidos tijolos feitos pelos oleiros do Núcleo, costurou bandeiras italianas, brasileiras e de Jundiaí, fez desenhos reproduzindo as casas dos imigrantes e aprendeu a tarantela, dança típica italiana.

Pais e parentes foram convocados a colaborar na obtenção de informações e na coleta de objetos de época. Seu Virgílio Torricelli, tio-avô de Larissa Torricelli Fonseca, da 4ª série, dispôs-se a fazer palestras nas classes e a responder às perguntas das crianças. "Por causa da novela, o que elas mais queriam saber era o significado de expressões como 'Ecco!' ('Isso mesmo!'), 'Capisce?' ('Entende?') e 'Dove stai?' ('Onde está?')", diverte-se.

A história viva

O que mais prendeu o interesse das crianças foi a idéia de transformar a escola numa representação viva dos tempos da imigração. No pátio, o imenso painel pintado pela comunidade escolar mostrava um navio como os que faziam a travesssia do Atlântico, trazendo os imigrantes até o Porto de Santos. Embrulhadas em papel pardo, 5000 caixas vazias de leite transformaram-se em tijolos antigos usados nas réplicas de uma estação de trem e das fachadas de casas da época.

As classes foram decoradas para acompanhar aspectos históricos dos últimos 500 anos. Uma delas abrigava o Projeto Brasil Itinerante, uma exposição de quadros alusivos às grandes navegações montada pela Secretaria de Educação do município. Outra reunia documentos, fotos e objetos que haviam pertencido a imigrantes, tudo emprestado à escola pelas famílias dos oriundi. Uma terceira reproduzia uma classe do século passado, com carteiras duplas e alunos vestidos como os de então. "Durante o projeto, os alunos leram e analisaram Cazuza, livro de Viriato Correa sobre um escolar daquele tempo. Depois, compararam a vida e a escola deles com as do passado", conta a professora Mara Buzzo. Na sala representativa dos imigrantes orientais, alunas vestidas de gueixa conduziam uma cerimônia do chá.

O corredor que leva ao espaço do refeitório transformou-se em "Hospedaria dos Imigrantes", mobiliada com camas antigas. Fechando a exposição, a cozinha projetada e construída com os tijolos de caixa de leite pelas turmas de Antonieta, incluindo um fogão a lenha. Sobre ele, uma pignata e outros utensílios de cozinha, todos da época. Polenta frita, uvas e vinho, que podiam ser degustados pelos visitantes, garantiam a bem conhecida hospitalidade italiana.

Mais cores e sabores da terra

Antes de chegar à parte reservada aos imigrantes na exposição organizada pela escola Pedro de Toledo, os visitantes tinham de passar pelas salas dedicadas aos índios e aos africanos. Nada mais justo. Os índios eram os donos da terra "descoberta" pelos portugueses, e a força de trabalho dos africanos foi a alavanca inicial tanto da economia canavieira como da mineração. "Dos índios herdamos palavras como caju, tamanduá, caatinga, urubu, tapera e até jundiaí, que é o nome de uma planta", enumera Maria Lúcia T. Bonassi, que usou o livro Os Índios do Brasil como fonte de pesquisa para os alunos.Comentários semelhantes vieram de Margarete Periotto, só que sobre os africanos, objeto de seu trabalho com as classes. "Nem todas as crianças sabiam que os escravos tinham sido trazidos à força da África. E muitas não se davam conta da influência negra na música e na dança (samba), na linguagem e na culinária (feijoada, acarajé, vatapá, dendê)." Para destacar a influência negra em nossa cultura, Margarete organizou uma aplaudidíssima apresentação de capoeira, luta-dança inventada pelos escravos para esconder dos senhores os acertos de contas que faziam entre si.

Quer saber mais?

Escola Municipal de Ensino Fundamental Pedro de Oliveira, Rua Dino, 151, CEP 13216-040, Jundiaí, SP,
tel. (11) 7397-0155

Memorial do Imigrante, Rua Visconde de Parnaíba, 1316, CEP 03164-300, São Paulo, SP, tel. (11) 6692-1866, internet: www.memorialdoimigrante.sp.gov.br

Museu Histórico e Cultural de Jundiaí, Av. Barão de Jundiaí, 762, CEP 13201-777, Jundiaí, SP,tel. (11) 434-6259

Sônia Maria de Freitas

BIBLIOGRAFIA

E Chegam os Imigrantes? O Café e a Imigração em São Paulo, Sônia Maria de Freitas, 88 págs., edição da autora, à venda no Memorial do Imigrante por 12 reais

Os Índios do Brasil, Hernani Donato, 62 págs., Ed. Melhoramentos, tel. (11) 3874-0884, 13,80 reais

FILMES

Gaijin, Caminhos da Liberdade, de Tizuka Yamazaki, 1980

O Quatrilho, de Bruno Barreto, 1996

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