Maracanã, a construção de um símbolo

Ícone maior da paixão que os brasileiros nutrem pelo futebol, o estádio carioca chega aos 50 anos

POR:
Marcelo Alencare Carlos Eduardo
Montagem com fotos do
Montagem com fotos do "maior do mundo" nos dias atuais e durante sua construção, em 1948: templo imponente foi erguido para sediar a Copa de 1950.
Fotos André Durão e Gamma

Gol da seleção brasileira. E um certo senhor Francisco Ferreira, no afã de comemorar, teve sua dentadura descolada das gengivas e entalada na garganta. Corria o ano de 1938. Milhões de torcedores, fanáticos como Francisco, já faziam desta terra o país do futebol jogo importado por Charles Miller no final do século passado. Uma paixão que, em 1950, seria transformada no maior templo de aço e concreto erguido para celebrar esse esporte. Construído para ser a sede da primeira Copa do Mundo após a 2a Guerra, o Estádio Mário Filho, o Maracanã, é o que melhor traduz a relação de amor e ódio que os brasileiros têm com seus craques.

Foi ali que mais de 200000 pessoas entoaram a marchinha Touradas em Madri, de Braguinha e Alberto Ribeiro, para embalar o escrete nacional na goleada de 6 x 1 sobre a Espanha. Dias depois, uma multidão ainda maior viveu o pior momento dos cinqüenta anos do estádio: os jogadores uruguaios ignoraram a festa popular nas arquibancadas, venceram os brasileiros por 2 x 1 e ficaram com a taça de campeão.

Reflexo das frustrações e alegrias da "pátria de chuteiras". Assim pode ser definido esse templo do futebol. O comportamento da galera, seja numa disputa do Campeonato Carioca ou num jogo da seleção, é sempre catártico de certa forma, lembra o dos antigos romanos no Coliseu. Em campo, gladiadores modernos como o goleiro Barbosa, responsabilizado pela derrota na final da Copa de 1950, conheceram a desgraça. Outros, caso de Garrincha, Zico e Romário, foram elevados ao olimpo dos boleiros graças a seus gols de placa e dribles desconcertantes.

Há quem diga que o maior de todos, o Rei Pelé, desperdiçou ótimas chances de balançar as redes adversárias só para fazer seu milésimo gol no Maracanã. Coincidência ou não, foi o que ocorreu numa noite de novembro de 1969, numa partida entre Santos e Vasco. Momentos como esse ajudaram a tornar o estádio (e o futebol brasileiro) um símbolo do esporte em todo o mundo.

Entre 1958 e 1970, o chamado esquadrão de ouro nacional conquistou três títulos em quatro Copas, e o Santos de Gilmar, Coutinho, Pelé e Pepe venceu por duas vezes o campeonato mundial de clubes. Eram tempos de vacas gordas, com muito público nos estádios. O período seguinte foi de entressafra. Seleção em baixa, sucessos isolados de alguns clubes. Resultado: queda de público e aumento da violência. Ao mesmo tempo, o mercado externo abria-se para os jogadores mais talentosos. Enquanto Falcão, Cerezo e Sócrates brilhavam na Europa, os brasileiros começaram a se afastar das arquibancadas. Por questão de segurança, a capacidade do Maracanã foi reduzida (hoje é de 140000 torcedores) e, precariamente conservado, o estádio virou um elefante branco.

Hoje, o futebol nacional vive um bom momento novamente. Ainda assim, os principais astros continuam migrando. A força do dinheiro mudou também o jeito dos craques. Jovens, em sua maioria humildes, encontraram nos gramados um meio de ascensão social. Embora as torcidas exijam "amor à camisa", eles tendem a se ver como artistas, não como atletas devotados. Principalmente se o palco em que estiverem atuando for o Maracanã.

Temas transversais

 De 5ª a 8ª séries

A força do dinheiro
Com base na história do Estádio Mário Filho, aproveite a aula elaborada por José Geraldo Vinci de Moraes, professor da Universidade Estadual Paulista, para discutir com seus alunos as mudanças ocorridas no futebol nos últimos cinqüenta anos.

1. Coordene estudos sobre a presença de "estrangeiros" atletas que atuam em clubes do exterior nas seleções brasileiras de 1958, 1962, 1970, 1994 e 1998.

2. Peça à turma que pesquise as carreiras de Garrincha, Pelé, Romário e Ronaldinho e relacione o comportamento desses jogadores com a comercialização crescente do futebol.

3. Divida os alunos em grupos, segundo os times da preferência de cada um, e peça que levantem a escalação da mais recente formação vitoriosa (campeão brasileiro, estadual etc.). Os craques continuaram no clube ou tiveram seus passes negociados com equipes nacionais ou estrangeiras? Quantos astros dos times campeões integraram a seleção? Encarregue os grupos de traçar o mapa das contratações.

4. Debata a influência das transações milionárias e dos altos salários sobre os jogadores, muitos deles nascidos em famílias pobres.

5. O filósofo italiano Antonio Gramsci disse que o futebol "é um reino da liberdade humana exercida ao ar livre". Discuta com a classe se tal liberdade ainda existe.

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