A guerra do Paraguai: uma mancha de sangue na história do Mercosul

A Guerra do Paraguai acabou há mais de um século, mas ainda influencia as relações entre os vizinhos sul-americanos

POR:
Adriana Vera
Batalha do Riachuelo: em 11 de junho de 1865, a esquadra brasileira destruiu a paraguaia. Foto: Reprodução da Biblioteca Nacional
Batalha do Riachuelo: em 11 de junho de 1865, a esquadra brasileira destruiu a paraguaia. Foto: Reprodução da Biblioteca Nacional

Os dados sobre as populações dos países na época do conflito, o número de combatentes nos respectivos exércitos e o total de mortos são contraditórios. Mas é certo que o Paraguai ficou arrasado. Sua população, especialmente a masculina, diminuiu drasticamente. Parte de seu território acabou em poder dos rivais Argentina e Brasil.

No balanço final, brasileiros e argentinos concentraram ainda mais as forças na região, quadro que se refletiu na formação do Mercosul e se mantém até hoje. Os dois países são responsáveis por 90% dos negócios do bloco, mas as disputas bilaterais estão deixando todo o grupo em situação difícil. Pela primeira vez desde a formação da aliança, em 1999 houve retração no volume de transações comerciais, em boa parte por causa da desvalorização do real em relação ao dólar, em janeiro do ano passado.

Em 1864, quando começou a guerra, Brasil e Argentina já tinham as principais economias da região, mas o pequeno Paraguai representava uma ameaça aos dois gigantes. Tinha construído um sistema educacional avançado e começava a formar sua indústria. Ao chegar ao poder, em 1840, Solano López queria mais: um acesso para o mar. Para isso, pretendia unir o Paraguai às províncias argentinas de Entre Ríos e Corrientes, ao Uruguai e ao sul do Rio Grande do Sul.

Ao mesmo tempo, sua política econômica contrariava a poderosa Inglaterra. O governo de López controlava as exportações e não se deixava influenciar pela Coroa Britânica, como acontecia com os demais países da América do Sul. Por isso, e também porque bancos londrinos financiaram os gastos da Tríplice Aliança (tornando-se credores do Brasil, da Argentina e do Uruguai), ganhou força a versão de que os ingleses foram os maiores interessados e os únicos vencedores da disputa.

"Essa visão era comum no final dos anos 70, quando historiadores esquerdistas tratavam o Paraguai de López como um exemplo a ser seguido, uma espécie de Cuba do século XIX", lembra Francisco Alambert, que defendeu tese de doutorado sobre o episódio na Universidade de São Paulo. Hoje, a influência britânica é contestada, assim como a versão de que o Paraguai teria vivido uma experiência democrática e socialista no século passado. Estudos recentes destacam a repressão política do governo López. "Mas ainda acho convincentes as idéias sobre o interesse dos ingleses", defende o pesquisador.

Alambert alerta, porém, que essa não era a única questão envolvida. Havia também problemas específicos da região. "É o caso da disputa entre Brasil, Paraguai e Argentina pelo comércio da bacia do Prata", afirma. Além disso, as catorze províncias argentinas, que só haviam acertado sua união em 1862, continuavam disputando o poder interno. No início da guerra, o presidente Bartolomeu Mitre tentava pacificar seu país e impedir que os intendentes de Entre Ríos e Corrientes levassem em frente o projeto de anexar-se ao Paraguai.

No Brasil, as maiores dificuldades eram financeiras. "O imperador precisava criar um fato que mobilizasse a sociedade", diz Alambert. A crise começara em 1850, quando foi proibida a entrada de escravos africanos. Nosso país era o único império escravagista das Américas. Todos os outros eram repúblicas. E não tinham escravidão.

História

De 5ª a 8ª séries
Povo pacífico ou violento?

Aproveite esta reportagem para mostrar a seus alunos as diversas questões envolvidas na Guerra do Paraguai, como a influência internacional da Inglaterra e a estruturação do Exército brasileiro.

1. Promova um debate: como o nosso povo, chamado de pacífico, pôde ser tão violento?

2. Ressalte a ideologia que movia Dom Pedro II. "O Brasil se uniu e as críticas ao Império praticamente desapareceram", comenta Francisco Alambert. "Pode-se dizer que o episódio serviu para adiar a proclamação da República."

3. Discuta também como o ideal de liberdade foi utilizado. "O Exército era formado em sua maioria por negros, que ganhavam a alforria se lutassem", lembra o historiador. "Mas os ideólogos do Império, incluindo Machado de Assis, diziam que nosso Exército de escravos deveria aniquilar o ditador paraguaio em nome da liberdade dos povos!

Leituras recomendáveis são O Conflito com o Paraguai. A Grande Guerra do Brasil, de Francisco Fernando Monteoliva Doratioto, Ática, tel. (11) 3346-3001, R$ 10,80; e A Retirada da Laguna, de Visconde de Taunay (várias edições disponíveis).

Os momentos decisivos do conflito

A guerra entre os quatro países que hoje compõem o Mercosul começou em dezembro de 1864, quando o Paraguai atacou regiões do atual Estado de Mato Grosso do Sul. Quatro meses antes o Brasil tinha invadido o Uruguai, com o apoio da Argentina, e alçado ao poder o político do grupo colorado Venâncio Flores. O governo anterior, do grupo blanco, tinha alianças com o Paraguai e resistia às pressões de produtores brasileiros e argentinos que tinham terras no Uruguai.

Em março de 1865, Francisco Solano López pediu autorização ao governador da província argentina de Corrientes, Justo José de Urquiza, para seu exército cruzar o território em direção ao Brasil. Urquiza era compadre de López, mas rejeitou a proposta.

O ditador paraguaio invadiu a Argentina em 14 de abril. A Tríplice Aliança formou-se em 1º de maio. Apenas seis semanas depois, em 11 de junho, a esquadra brasileira destruiu a paraguaia numa curva do Rio Paraná chamada Riachuelo. Nossos vizinhos passaram à defensiva, posição que mantiveram até a derrota final.

Em outubro de 1865, as tropas de López se retiraram de Corrientes em direção a Humaitá, no sul do Paraguai. Os aliados tomaram Humaitá em 25 de julho de 1868. No final do ano, houve a Dezembrada, série de ataques bem-sucedidos, comandados pelo Duque de Caxias. Quando Assunção, a capital paraguaia, caiu (no dia 1º de janeiro de 1869), López estava foragido. O ditador foi morto por soldados brasileiros em 1º de março de 1870, em Cerro Corá.

Luta brutal envolveu até crianças

Não há números precisos sobre a Guerra do Paraguai, mas as lembranças de batalha são amargas. "É uma chaga que marcou todos os envolvidos", define o historiador Francisco Alambert. Soldados lutaram descalços e enfrentaram fome e doenças. Houve episódios de extrema crueldade, como a Batalha de Acosta Ñu, em agosto de 1869, na qual 3000 paraguaios (todos com menos de 15 anos) foram dizimados por 20000 soldados. "Dom Pedro II, sempre visto como um bom velhinho, exigia que se lutasse até a morte de Solano López. Apesar de o Duque de Caxias achar que o ditador aceitaria um acordo de paz."

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