De kailá a Oyatogotelo

A trajetória do paulistano que se mudou para uma tribo em Mato Grosso do Sul e ensinou índios kadiwéus a resgatar a identidade, a auto-estima e o prazer de estudar

POR:
Ferdinando Casagrande
Meu trabalho só estará completo quando eles mesmos estiverem ensinando as próximas gerações
"Meu trabalho só estará completo quando eles mesmos estiverem ensinando as próximas gerações". Foto: Massao Goto Filho

GIOVANI JOSÉ DA SILVA

Idade: 29 anos

Formação: História, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e especialização em Antropologia, na Universidade Federal de Mato Grosso

Tempo de Magistério: Dois anos

Onde leciona: Escola Municipal Indígena "Ejiwajegi" Pólo, em Porto Murtinho (MS)

"O senhor não vai bater na gente?" Giovani José da Silva acabara de assumir como professor da Escola Municipal Indígena "Ejiwajegi" Pólo, no município sul-matogrossense de Porto Murtinho, quando ouviu essa pergunta pela primeira vez. Levou um choque e foi atrás de explicações para a atitude dos alunos. Não demorou a perceber que seus antecessores haviam cristalizado um modelo autoritário de ensino, razão pela qual toda a aldeia, de nome Bodoquena, odiava freqüentar a sala de aula. A 468 quilômetros de Campo Grande, quase na fronteira com o Paraguai, os índios kadiwéus eram obrigados a decorar datas e nomes históricos, numa sucessão de fatos sem ligação com a realidade do lugar. Justamente por isso, o colégio era sinônimo de espaço para "aprender coisas de brasileiros".

"Eu precisava transformar essa situação", lembra Giovani. "E o primeiro passo era conquistar os 200 estudantes." Foi um longo e fascinante trabalho, que culminou com o troféu de Professor Nota 10 no Prêmio Victor Civita do ano passado. Nascido no bairro paulistano de Vila Maria, ele cresceu no asfalto, acostumado ao barulho de carros e aviões e ao ar poluído mas teve contato permanente com a cultura indígena porque a mãe, descendente de guaranis, é bilíngüe e nunca perdeu as raízes. "Nós sempre viajávamos para Porto Murtinho, o lugar maravilhoso onde mamãe nasceu." Adulto, não pensou duas vezes na hora de trocar a cidade grande pelo velho refúgio de infância.

Estradas de terra

Formado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul em 1994, ele voltou a São Paulo para estudar Sociologia na USP. Cursou dois anos e decidiu que queria mesmo viver em Porto Murtinho. Em 1997, começou a lecionar História e Geografia na rede pública. Rapidamente, tomou conhecimento da situação dos kadiwéus, na aldeia Bodoquena. Instalados numa reserva de 538536 hectares a 400 quilômetros do núcleo urbano do município, eles dispunham de apenas uma escola de 1a a 4a série, mantida pela Fundação Nacional do Índio (Funai). "Para continuar a escolarização, a única opção era ir para a cidade", diz Giovani. "Ou seja, todos abandonavam os estudos."

Ele resolveu iniciar uma campanha para que a Secretaria Municipal de Educação assumisse o controle sobre a escola, com o objetivo de criar classes até a 8a série. A campanha deu certo e a Funai passou a "Ejiwajegi" para a rede, mas havia um problema: nenhum professor se dispunha a ir para Bodoquena, longe de casa, sem luz elétrica, água encanada ou telefone. E mais: numa comunidade cujos índios têm fama de ser agressivos. "Não havia outra saída", lembra Giovani. "Convoquei um amigo e colega de São Paulo, o sociólogo José Luiz de Souza, e nos mudamos para a aldeia, dispostos a revolucionar o ensino naquele lugar."

Divisão de tarefas

Os dois kailás (forasteiros, em kadiwéu) juntaram-se aos quatro professores indígenas responsáveis pelas séries iniciais, dividiram as disciplinas entre si e criaram uma turma de 5a e outra de 6a série. Entre as atribuições de Giovani, é claro, ficaram as aulas de História. De saída, ele percebeu que tinha de acabar com o preconceito contra a escola, pondo fim ao ambiente que só ensinava fatos de não-índios. Era preciso abrir espaço para reflexão e preparar atividades sobre as origens daquele povo. O sonho virou realidade na forma de um projeto pedagógico intitulado Como os Kadiwéus Viviam Antigamente.

O diagnóstico inicial não foi exatamente animador. "Os estudantes acreditavam ser inferiores, mesmo sem saber por quê", lembra. A solução foi relativamente simples, uma receita que, felizmente, é cada vez mais comum nas salas de aula de nosso país: trabalhar o conceito de diferença, para que todos compreendessem que não eram piores, mas únicos, particulares. A grande sacada foi estabelecer objetivos claros: levar os meninos e meninas a identificar relações sociais, a compreender que a história individual é parte da coletiva e a dominar procedimentos de pesquisa e de produção de texto.

Pacto com as famílias

O primeiro passo do projeto foi deixar os alunos contarem tudo o que sabiam sobre a história e a cultura dos kadiwéus. Seis temas foram definidos: moradia, vestuário, brinquedos, alimentação, guerras e luto. A iniciativa não foi tão bem-sucedida quanto o professor imaginava. "Os pequenos tinham muito pouco a dizer", afirma Giovani. Para resolver a questão, ele propôs que todos conversassem com os parentes e amigos mais velhos. "Para colocar essa idéia em prática, no entanto, precisei fazer um pacto com as famílias e prometer que não usaria o material para escrever um livro sobre a tribo, mas apenas para ensinar os filhos deles a valorizar a própria cultura."

A turma foi a campo e voltou com muitas lendas e mitos, entre eles o da formação do mundo, segundo o qual humanos e animais teriam sido tirados de um buraco pelo Criador. "Mesmo as crianças evangélicas, que acham que descendemos de Adão e Eva, acreditam nisso." Tomando o cuidado de não desqualificar nenhuma das interpretações, Giovani usou essa crença para explorar versões religiosas e científicas da origem do universo.

Não demorou muito para as entrevistas surtirem um efeito colateral positivo. Pais e avós, antes ressabiados, começaram a colaborar com as atividades de sala de aula. "Eles tomaram posse da escola, um espaço que antes não consideravam como deles", destaca o professor. Sem dúvida, o trabalho melhorou o aprendizado e resgatou a auto-estima da comunidade. A maior prova disso pode ser vista nas paredes. Pela primeira vez desde a construção do prédio, a tinta branca foi substituída por pinturas de motivos indígenas.

Inferiores jamais, diferentes sempre

Projeto: Como os Kadiwéus Viviam Antigamente

Disciplinas: História, Língua Portuguesa e Arte

Duração: Um ano

Objetivo: Identificar relações sociais no próprio grupo de convívio, na localidade e na região, além de manifestações estabelecidas em outros tempos e espaços; compreender que a história individual é parte da coletiva; dominar procedimentos de pesquisa e de produção de texto, aprendendo a observar e colher informações

Avaliação: Os alunos sentiram que o conhecimento sistematizado por eles sobre a sociedade indígena tem tanto valor quanto o adquirido nos livros didáticos. Puderam compreender que eles também ajudam a escrever diariamente a história kadiwéu e que são capazes de observar e colher informações, tornando-se, nas palavras dos próprios jovens, "antropólogos de si mesmos"

Enxergar longe

Os 15mil reais que Giovani ganhou em outubro, no Prêmio Victor Civita, se transformaram numa casa em Bodoquena e em armários para a escola e uniformes de vôlei para os alunos. Os kadiwéus torceram muito pelo professor. Já fazia um bom tempo que ele tinha deixado de ser um kailá. Numa cerimônia realizada na aldeia, os líderes indígenas o rebatizaram de Oyatogotelo, palavra que significa "luz que brilha longe". "Me disseram que sou uma lanterna na escuridão, uma lâmpada que ajuda a enxergar longe, e que estava passando como uma chuva, mas que dependia deles fazer brotar alguma coisa da terra."

Agora, vem a parte mais importante: semear o futuro. "A comunidade não me quer aqui para sempre. Todos pretendem ver os próprios filhos lecionando." Um sonho menos distante do que parece. Desde o ano passado Giovani comanda um curso de formação de novos docentes entre os kadiwéus. "Hoje, tenho consciência de que a comunidade aprendeu a valorizar a própria cultura e passou a entender que ela é tão importantes quanto a de qualquer outro povo", diz. "Mas sei que meu trabalho só estará completo quando eles mesmos estiverem ensinando as próximas gerações."

Quer saber mais?

Escola Municipal Indígena "Ejiwajegi" Pólo, Aldeia Bodoquena, Reserva Indígena Kadiwéu, CEP 74280-000, Porto Murtinho, MS 
 

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