Como ensinar Arqueologia para entender as marcas do passado

As descobertas de arqueólogos devem fazer parte dos conhecimentos da turma: sob a terra, há objetos que dizem muito sobre os povos antigos

POR:
Ava Freitas
CULTURA MATERIAL No Colégio Ítaca, os alunos discutem sobre o que podem revelar diferentes artefatos. Foto: Marcelo Min
CULTURA MATERIAL  No Colégio Ítaca,
os alunos discutem sobre o que
podem revelar diferentes artefatos.
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Para ensinar Arqueologia, esqueça Indiana Jones, o charmoso pesquisador vivido por Harrison Ford no cinema. Na vida real, embora a ciência desvende muitos mistérios, está longe de envolver aventureiros em busca de tesouros perdidos. Por isso, muito mais do que um mundo de fantasia, as discussões em sala de aula devem mostrar como os vestígios de civilizações antigas encontrados sob a terra revelam informações sobre a época e o modo de vida de diversas sociedades ao redor do mundo.

No Planalto Central brasileiro, por exemplo, foram encontradas flechas de pedra lascada que levaram os pesquisadores a deduzir que naquela região moraram caçadoras e coletores. Na Amazônia, é consenso que num passado remoto já existiram agricultores. Os indícios são lascas de vasos de cerâmica utilizados para armazenar alimentos. No litoral e nas margens de rios, muitas informações foram recuperadas por causa dos sambaquis - restos de utensílios de pedra e cerâmica amontoados. Esses objetos e outros tantos formam a cultura material de um povo, ou seja, reúnem o que é produzido ou modificado pelo homem para atender a alguma necessidade. Por meio da análise deles, é possível pensar, por exemplo, na distinção entre sociedades nômades e sedentárias.

O objetivo principal da Arqueologia é entender essa cultura material e como o ser humano que utilizava determinado artefato vivia e se relacionava. "Esses dados são a tradução do passado", diz a professora Adriana Negreiros Campos, da equipe da Secretaria Municipal de Educação de Santos, a 80 quilômetros de São Paulo. Ela é responsável por atividades educativas nas ruínas do Engenho São Jorge dos Erasmos, sítio arqueológico remanescente de uma fazenda de açúcar na cidade. O passado a que Adriana se refere pode estar impresso em vestígios arqueológicos de natureza diversa. Além de objetos (como cortadores de pedra e vasos de cerâmica), estruturas e construções (como casas e templos) também dizem muito. Mais do que documentos históricos escritos, eles trazem informações importantes e, muitas vezes, inéditas sobre um povo.

Relações de poder impressas nos objetos sob a terra

Foto: Marcelo Min
ORGANIZAR O SABER Depois de ler e discutir sobre o tema, é hora de a turma registrar as conclusões no quadro

Contextualizar a época a que os materiais se referem é essencial. "Se o professor mostra pinturas rupestres que retratam a vida de indígenas e elas foram feitas há mais de 5 mil anos, esse distanciamento com o cotidiano deve ser enfatizado", explica Pedro Paulo Funari, do Centro de Estudos Avançados da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Essa diferenciação das épocas também é defendida por Aline Carvalho, do Laboratório de Arqueologia Pública da Unicamp. Um meio de fazer isso é chamar a atenção ao estudo da história que está sendo construída hoje, até mesmo na própria sala de aula. Essa análise pode levar a turma a refletir sobre como as relações de poder estão presentes nos espaços (leia a sequên­cia didática). Ela sugere perguntas como: por que a mesa do professor está sempre à frente da dos alunos? O que significa uma organização do ambiente como essa?

No trabalho com os conteúdos de Arqueologia com o 6º ano, Camila Koshiba, do Colégio Ítaca, em São Paulo, propôs duas atividades: mostrou objetos encontrados sob a terra - emprestados do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), da Universidade de São Paulo (USP) - e pediu que os alunos caracterizassem as sociedades que os produziram e usaram. "Nas discussões, notamos que vasos de cerâmica combinavam com as necessidades dos grupos que se fixam na terra, como os agricultores. Vimos também que o acabamento dado aos objetos varia de acordo com cada povo." Como resultado da análise dos sítios arqueológicos, das aulas expositivas e da leitura de textos, eles aprenderam que, geralmente, os objetos mais antigos estão a uma profundidade maior.

Para Judith Mader Elazari, do MAE, discussões sobre o tema devem ser acompanhadas de explicações sobre o trabalho do arqueólogo para evitar simplificações. "Um profissional não elabora suas hipóteses apenas com base num objeto encontrado. Ele precisa de muitos artefatos semelhantes para chegar a uma conclusão", diz. Existem muitas etapas que envolvem a pesquisa em Arqueologia, e o dia a dia do profissional vai muito além dos trabalhos de campo em escavações. "A rotina envolve pesquisa, discussão e a elaboração de textos."

Quer saber mais?

CONTATOS
Adriana Negreiros Campos

Aline Carvalho
Colégio Ítaca, tel. (11) 3751-1633
Judith Mader Elazari
Pedro Paulo Funari

BIBLIOGRAFIA
Antigos Habitantes do Brasil, Pedro Paulo Funari, 56 págs., Ed. Unesp, tel. (11) 3242-7171, 25 reais
A Pré-História do Nosso País, André Prous, 144 págs., Ed. Jorge Zahar, tel. (21) 2108-0808, 36 reais
História Temática: Tempos e Culturas, Andrea Montellato e outros, 200 págs., Ed. Scipione, tel. 0800-16-1700, 66,90 reais
O Brasil Antes dos Brasileiros: A Pré-História do Nosso País, André Prous, 144 págs., Ed. Jorge Zahar, 
tel. (21) 2108-0808, 36 reais

INTERNET
Página sobre arqueologia do Instituto Itaú Cultural.

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