O que as cidades têm a ensinar

No Espírito Santo e em Minas Gerais,colégios mostram a importância de valorizar nossa história e cultura

POR:
Ricardo Prado, NOVA ESCOLA, Gabriel Pillar Grossi
A professora Penha dá aula na escadaria do convento: a garotada descobre que foi nesse lugar, no ponto mais alto da região, que Vila Velha nasceu, no ano de 1559. Foto: André Valentin
A professora Penha dá aula na escadaria 
do convento: a garotada descobre que 
foi nesse lugar, no ponto mais alto 
da região, que Vila Velha nasceu, 
no ano de 1559. Foto: André Valentin

Conhecer o lugar em que vivemos, descobrir seus encantos e problemas, sentir-se parte do espaço, valorizá-lo e defendê-lo. Essa lição, que vale para todos nós, vem sendo ensinada com freqüência cada vez maior em escolas de todo o Brasil. Nesta reportagem, você vai conhecer duas experiências que fazem as crianças compreender o próprio papel no mundo partindo de histórias, lendas e tradições locais. A primeira é de Vila Velha, no Espírito Santo. A segunda, de Catas Altas, pequeno município a 100 quilômetros de Belo Horizonte.

Na maior cidade capixaba, o Centro Educacional Michelangelo envolveu todos os professores no projeto Descobrindo o Espírito Santo. A escola, de classe média alta, tem 400 alunos da pré-escola ao Ensino Médio, com apenas uma turma por série. "Muitos conhecem melhor a Bahia, o Rio de Janeiro e até a Disney do que a própria terra", diz coordenadora pedagógica Neusa Maria Marinho Gomes. Por isso, há quatro anos foi criada a mostra cultural, que se tornou a estrela principal.

Conteúdos em comum

Paneleira manuseia o barro sob o olhar atento das crianças, em Vitória: chance para aprender que as panelas, maior símbolo da cultura popular capixaba, são uma tradição indígena de mais de 400 anos
Paneleira manuseia o barro sob o olhar 
atento das crianças, em Vitória: chance 
para aprender que as panelas, maior 
símbolo da cultura popular capixaba, 
são uma tradição indígena de mais 
de 400 anos

Os professores se reúnem em grupos de três ou quatro e encontram caminhos para atuar em conjunto. Assim, a garotada da 4ª e da 7ª série se aprofunda em alguns conteúdos em comum para preparar a apresentação do fim do ano. Da mesma forma, uma turma de Ensino Médio "assume" o grupo de 1ª ou 5ª para ajudar no estudo de assuntos tão variados como a água, a reciclagem do lixo, a chegada dos imigrantes ao Estado, a industrialização e a importância do turismo hoje.

No ano passado, o tema central foram os 500 anos do Brasil. Penha Oliose, professora de Matemática e Ciências Naturais da 3ª série, explorou aspectos da cultura, da colonização e da imigração juntamente com as colegas da 2ª série, do Jardim e do Jardim I. Os alunos dela visitaram o Convento da Penha e aprenderam que ali começou a ocupação de Vila Velha, em 1559. "Onde hoje é a cidade, era tudo Mata Atlântica na época em que frei Pedro Palácios construiu a capela", dizem eles. Hoje, a festa em homenagem à padroeira, uma semana após a Páscoa, é a maior celebração religiosa do Estado, que foi quase todo povoado por missionários.

Depois, a criançada viajou até Regência, para conhecer a sede estadual do Projeto Tamar (de defesa das tartarugas marinhas) e acompanhou o trabalho das paneleiras do bairro de Goiabeiras, em Vitória. Os estudantes ficaram sabendo que o principal símbolo da cultura popular do Espírito Santo é uma tradição de mais de 400 anos e que as panelas de barro pintadas com tinta à base de casca de árvore ainda são produzidas exatamente do mesmo jeito que os índios faziam no século XVI.

"O jovem aprende mais quando trabalhamos por projetos", afirma Penha. Organizar as tarefas desse jeito permite avaliar constantemente o envolvimento de cada um. A mostra cultural em si, praticamente não vale nota. Vale, isso sim, pelo congraçamento e pelas apresentações (leia o quadro).

Guia para fazer um guia

Na bela Catas Altas, professores e alunos estão reescrevendo a história local. Com o apoio do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac) e recursos da Companhia Vale do Rio Doce, duas turmas de 3ª e 4ª séries das escolas municipais Agnes Pereira Machado e João XXIII criaram o livreto "Descobrindo Maravilhas no Guia Turístico da Nossa Cidade", provavelmente a primeira obra do gênero totalmente escrita por estudantes.

"Apresentamos a idéia do guia e, quando as crianças souberam que usariam câmeras fotográficas e um gravador para fazer entrevistas, ficaram muito entusiasmadas", recorda o professor Otaviano Lucio de Magalhães, do João XXIII, que comandou o projeto ao lado de Rosemary Siqueira dos Santos, da Agnes Pereira Machado. A etapa inicial foi levantar os lugares já conhecidos. Como a maioria dos alunos de Otaviano vive no Morro da Água Quente, as primeiras lembranças foram a Igreja do Bonfim, a única do bairro, e cachoeiras das redondezas, como a do Quebra-dedo e a do Campo. Aos poucos, foram aparecendo monumentos mais centrais, caso da Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Finalmente, surgiu o Colégio do Caraça, principal ponto turístico de Catas Altas, mais uma total novidade para 42 dos 45 matriculados nas duas turmas.

Informações essenciais

Otaviano levou guias para a garotada consultar e dominar o estilo enxuto, com textos curtos e informativos. Cada dupla assumiu um monumento natural e outro arquitetônico. A troca de idéias foi muito incentivada. Assim nasceu o "esqueleto". Nas aulas de Língua Portuguesa, a tarefa mais importante: reescrever (várias vezes) os verbetes, até chegar ao que há de realmente essencial em cada ponto turístico. "Nesta hora, um era o escriba no quadro-negro e o outro ditava. Depois, a classe ajudava a corrigir", ensina o professor.

"Outro bom caminho é montar uma pasta para cada aluno ou dupla", aconselha Regina Scarpa, mestra em Educação pela USP e coordenadora do projeto. "Assim, é possível acompanhar e avaliar a evolução, do primeiro ao último trabalho." A atividade foi tão bem-sucedida que teve continuidade com o Museu da Pessoa. As crianças listaram 35 moradores considerados "importantes" e, destes, seis foram escolhidos. "Houve um significativo progresso nessa segunda etapa", diz Regina. "Como não tinham referências, elas precisaram elaborar textos originais, com mais autonomia."

As duas atividades, além do manejo da tecnologia (computador, câmera fotográfica), da confecção de diversos tipos de texto e da transposição da linguagem oral para a escrita, serviram para mostrar a importância do lugar e fizeram aflorar o orgulho pela cidade. 

Quer saber mais?

Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (CEDAC), R. Gonçalo Afonso, 47, CEP 05436-100, São Paulo, SP, tel. (11) 3097-0523

Centro Educacional Michelangelo, R. Getúlio Vargas, 488, Vila Velha, ES, CEP 29122-030, tel. (27) 3340-4322

Escola Municipal João XXIII, R. Direita, 371, CEP 35969-000, Catas Altas, MG, tel. (31) 3832-7243

Escola Municipal Agnes Pereira Machado, R. Monsenhor Barros, 141, CEP 35969-000, Catas Altas, MG, tel. (31) 3832-7104

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