As caras do continente

A América Latina é a região que concentra mais indígenas. Discuta as características dos povos e suas trajetórias em quatro diferentes países

POR:
Ana Rita Martins
Foto: Steve Dunwell/Getty Images
NO MÉXICO... Povos como os huichóis mantêm vivas as tradições astecas, um dos grupos nativos. Foto: Steve Dunwell/Getty Images

Os índios, definitivamente, não são todos iguais. Para começar, a própria denominação é hoje considerada inadequada. Criada por Cristóvão Colombo (1451-1506), a expressão surgiu da constatação de que a terra a que ele havia chegado em 1492 era a Índia. Melhor, então, falar em povos indígenas para designar aqueles que viviam numa determinada área antes da sua colonização por outro povo. O plural no nome é indispensável para destacar a diversidade desses grupos, em contraponto à ideia de que todo indígena é igual: vive na mata, caça com arco e flecha, usa tanga e tem o cabelo cortado em forma de cuia.

A América Latina é o lugar ideal para observar tamanha variedade (leia a sequência didática na página seguinte). Por aqui, os indígenas tiveram - e têm - papel tão essencial na construção dos países e das identidades nacionais. "A influência na língua, na alimentação e nos costumes é um exemplo do que pode ser trabalhado", diz Daniel Vieira Helene, coordenador de Ciências Sociais da Escola da Vila, em São Paulo, e selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10. Para as séries iniciais do Ensino Fundamental, é importante debater juízos de valor (todos os índios caçam? Se assistem TV, não são mais índios?) e identificar as diferenças e os legados em cada região (por que a população da Bolívia tem mais traços indígenas que a do Brasil? Onde estão os índios da Argentina?).

No que diz respeito à discussão sobre estereótipos, evite a tentação de generalizar características. Lembre-se de que diferentes grupos apresentam tipos distintos de organização social. O povo argentino kolla, por exemplo, fixa-se em pequenas comunidades, praticando a agricultura e criando animais. Já os mbyas-guaranis são nômades, vivendo da caça, pesca e coleta de mel entre as fronteiras do Paraguai, da Argentina e do Brasil.

Questionar a visão tradicional para mostrar a diversidade 

Foto: Steve Dunwell
...NA ARGENTINA Excluídos, grupos como os mapuches participaram pouco da história nacional. Foto: Steve Dunwell

Também é importante falar dos que moram na cidade - muitos estudantes acham que um indivíduo que usa calça jeans, vê TV e fala português não é indígena. Uma estratégia é questionar a turma: "Se você mora em Paris, come comida francesa e usa roupas da moda europeia, deixará de se sentir brasileiro? Atualmente, identificar-se como indígena é sobretudo uma questão de autodefinição", diz Iara Tatiana Bonin, pedagoga e autora de uma tese de doutorado sobre estereótipos nos livros didáticos.

Superados os rótulos, é hora de enfatizar a diversidade. Você pode fazer isso abordando quatro trajetórias emblemáticas dos indígenas na América Latina. A primeira, mais conhecida nossa, é a dos povos brasileiros. Reduzidos de 1 milhão, na época da chegada de Cabral, para menos de 700 mil, eles representam hoje 0,8% da população, vivendo em reservas ou em áreas periféricas das grandes cidades. Se a miscigenação de certa forma diluiu os traços étnicos típicos, a influência indígena se faz notar de maneira forte na língua (o tupi, por exemplo, nos legou cerca de 10 mil palavras), nos gêneros alimentares (como o milho, o guaraná e a mandioca) e no uso de transportes (como a jangada e a canoa).

Foto: Vanderlei Almeida/AFP
...NO BRASIL... Etnias como os caiapós moram nas periferias das cidades ou em reservas demarcadas. Foto: Vanderlei Almeida/AFP

O caso argentino tem, semelhante ao brasileiro, uma ínfima porcentagem de indígenas na população: só 0,4%. Mas, no país vizinho, quase não houve participação deles na formação da identidade nacional, ainda que sobrevivam traços, como a cultura da erva-mate. Imaginando-se descendentes diretos dos europeus, os brancos foram implantando até bem recentemente uma série de políticas públicas que tentavam forçar a "integração" dessas etnias, transformando povos tradicionais em camponeses ou peões rurais. Só em 1994 a Constituição reconheceu o respeito à identidade e aos costumes desses grupos, o direito à Educação bilíngue e à propriedade de terra.

Essa aceitação ocorreu bem antes no México - já em 1910, a revolução anti-ditatorial iniciou um processo de resgate e valorização dos nativos. Habitado originalmente por civilizações complexas, como a dos maias, toltecas, olmecas e astecas, o país incorporou de forma menos traumática seus povos tradicionais. Ainda que a matança promovida pelos espanhóis no século 16 tenha dizimado boa parte dessas populações, os descendentes delas somam hoje 30% dos mexicanos. Heranças culturais sobrevivem com força especialmente na culinária: comidas típicas, como guacamole, pimenta vermelha, tortilhas e até o chocolate, são aceitas com orgulho.

Foto: Aizar Raldes/AFP
...E NA BOLÍVIA Descendente de aimarás, o presidente Evo Morales foi eleito com maciço apoio indígena. Foto: Aizar Raldes/AFP

Os traços indígenas são ainda mais marcantes na Bolívia: eles totalizam 55% da população. Apesar do ataque feroz dos colonizadores, parte dos grupos, como os incas, quéchuas e aimarás, permaneceu em seu território de origem. Escravizados pelos espanhóis sobretudo para explorar a prata, habitavam regiões onde, mais tarde, floresceram as principais cidades do país. A eleição do presidente Evo Morales, descendente de aimarás, e a força da quinoa na pauta comercial (o país é o principal exportador do grão) comprovam que a influência indígena persiste até os dias de hoje. A visão conjunta dos exemplos citados vai ajudar a turma a entender a riqueza dessa herança no presente e no futuro do continente.

Quer saber mais?

CONTATO
Daniel Vieira Helene

Iara Tatiana Bonin

BIBLIOGRAFIA
Estados e Povos Indígenas, Antonio Carlos de Souza Lima, 112 págs., Ed. Contra Capa, tel. (21) 3435-5128, 22 reais
Índios e a Civilização - A Integração das Populações Indígenas no Brasil Moderno, Darcy Ribeiro, 559 págs., Ed. Companhia das Letras, tel. (11) 3707-3500, 75 reais

INTERNET 
Lista dos povos indígenas brasileiros
 
Sites sobre povos nativos

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias