O passado que não está nos livros de história

O relato oral das experiências de vida de pessoas comuns mostra que não existem só as versões de reis, rainhas, políticos e heróis. A escola é um dos lugares mais propícios para dar voz a essas novas fontes

POR:
Arthur Guimarães, Roberta Bencini

Seu José Soares Pontes tem 77 anos e foi condutor de bondes em Santos, no litoral
paulista, nas décadas de 1950 e 1960. Convidado pela Escola Municipal de Ensino
Fundamental Therezinha Pimentel, foi conversar com crianças que pesquisavam os
primórdios do morro São Bento, onde vivem e por onde bondes circulavam antigamente.
Apesar de contar com pouquíssimos dados escritos sobre o bairro, no encontro de
gerações a turma descobriu que o morro tem uma história que pode ser contada por
quem já viveu mais. E o simpático senhor se sentiu útil por saber que sua
trajetória de vida é fonte de conhecimento para os mais novos.

Atividades semelhantes são realizadas por muitas escolas como forma de valorizar a
terceira idade. Mas a oportunidade de contato com pessoas como seu José é muito
mais rica. Ela possibilita a história oral, uma nova área de pesquisa que tem
conquistado espaço. Esse campo surgiu da necessidade de buscar outras fontes de
informação, além dos documentos escritos e oficiais.

"A história oral potencializa ao máximo o contato didático com a fonte histórica",
diz o professor Lourival dos Santos, membro do Núcleo de Estudos de História Oral
da Universidade de São Paulo (USP). Novos enfoques e temáticas têm dado voz a
grupos que, tradicionalmente, não têm oportunidade de expressar sua versão dos
fatos. "É fundamental preservar a memória daqueles que não têm lugar nos manuais de
história, salvaguardar os seus testemunhos e depoimentos", disse o filósofo alemão
Walter Benjamin (1892-1940), que defendia, como ele próprio chamava, a "história
dos vencidos". Ou dos excluídos, como seu José. Onde mais a experiência de vida do
condutor de bondes poderia ser conhecida senão entre seus familiares e amigos?
Relatada para mais de 80 crianças, ela agora está perpetuada no acervo da escola e
na exposição de fotos e textos exibidos em painéis aberta aos moradores do bairro.

A veracidade das fontes orais

Informações históricas relativas a fatos como a chegada dos portugueses ao Brasil ou a abolição da escravatura são de fácil acesso em arquivos. Nesses locais, no entanto, só se encontram versões oficiais. "Existem muitas outras", afirma Santos, docente da USP. O que pensavam os índios e os escravos nesses momentos históricos? São poucos os documentos que trazem a voz dos dois grupos. Considerar apenas arquivos escritos como comprovações fidedignas é desconsiderar, por exemplo, a memória de sociedades indígenas. Sem papéis, valem as lembranças dos mais velhos, transmitidas oralmente aos mais jovens única forma possível de reconstrução do passado.

Há historiadores que não reconhecem os relatos orais como fontes históricas. Eles
apontam que a memória falha e que o presente recria lembranças que transformam o
passado. Eis uma boa discussão a ser lançada em sala de aula: seriam os documentos
escritos mais confiáveis que a história oral? Para Fábio Bezerra de Brito, docente
de História da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP, ambos são
subjetivos, pois foram ditos ou escritos por pessoas que são por natureza parciais.
"Na história oral a subjetividade é mais explicita." O que as pessoas contam é
apenas aquilo que elas acham merecedor de ser lembrado. E o que fica não é todo o
passado. Mais que conferir a veracidade das informações, a criança precisa saber
que nem tudo é conhecido e o que importa são as versões.

É importante que a turma compreenda que memória é cultura e também poder. Os
arquivos oficiais contêm as versões que mais interessam às classes sociais que
dominaram e dominam as sociedades. E os livros, conseqüentemente, só reservam
espaço para essas interpretações.

Os livros, então, não são confiáveis? "Claro que não podemos ignorar as histórias
estabelecidas. Seria cometer o mesmo erro. Mas devemos contrapô-las às outras que
podem ser recolhidas pelos próprios estudantes", afirma Santos. Ótima chance de
comparar informações e formular hipóteses. Seja na consulta a arquivos de relatos
orais, que são poucos no Brasil, seja realizando entrevistas.

O bairro e a cidade, segundo os moradores

Foi difícil para a Escola Municipal Therezinha Pimentel, em Santos (SP), encontrar informações sobre o bairro onde está instalada. "Parecia que a história não tinha subido o morro", brinca a professora Marta Ramos Cabette. Mas um convite para que dona Maria Alexandre Fernandes visitasse a turma abriu a todos uma janela do passado. Avó de uma aluna, dona Maria, de 68 anos, é bordadeira desde os 7. "Aprendi o ofício com minha mãe, uma imigrante que trabalhava dia e noite para sustentar a casa." Além de descrever sua arte para a garotada, ela falou sobre a chegada e a vida dos portugueses que ocuparam o bairro no começo do século XX.

Assim como o condutor de bondes José, a bordadeira Maria também faz parte da
historia do morro São Bento. "A classe ficou muito curiosa para saber como eram e o
que faziam as crianças daqui antigamente", conta a professora Marta. "Mas todos
aprenderam mais do que os costumes de uma época. Descobriram que o bairro em que
moram tem história, da qual eles participam", completa. Trabalhos como esse
provocam os estudantes a refletir sobre o fato de fazerem parte da história de sua
família, da escola e da comunidade em que vivem e, aos poucos, perceber sua
inserção no país e no mundo.

Um dos objetivos mais relevantes do ensino de História é a constituição da noção de
identidade. "Os livros da disciplina são escritos de forma impessoal. Não se
reconhece a origem da fonte. É como se os fatos fossem contados por um deus,
absoluto e inquestionável. Ao ouvir um relato ao vivo, a criança verifica que ela é
contada por alguém real, que passou por aquilo. Por fim, se reconhece no mesmo
contexto", afirma Maria Cecília Cortez de Souza, docente da Faculdade de Educação
da USP e autora de livro sobre o assunto.

Ao possibilitar a construção da identidade de quem conta e de quem ouve, a história
oral traz a comunidade para dentro da escola. E inclui na pauta de discussões os
problemas locais. No caso do morro São Bento, as maiores dificuldades dizem
respeito à carência de empregos, à ocupação desordenada do espaço e à pouca
valorização do lugar por seus moradores. "Marta foi certeira ao identificar a
necessidade que os moradores da vizinhança têm de reconhecer seu valor. A história
oral é um dos caminhos possíveis para provocar uma transformação", afirma Zilda
Kessel, museóloga e responsável pelo programa educativo do portal Museu da Pessoa,
um espaço virtual que utiliza a internet como ferramenta. Seu objetivo é
democratizar a memória e multiplicar a metodologia de captação de depoimentos de
vida, especialmente em escolas e comunidades.

Projetos como o realizado pela professora Marta podem resgatar até mesmo a história
de toda uma cidade. Na Escola Municipal Isaias Cândido Rodrigues, no distrito de
Guassussê, a 400 quilômetros de Fortaleza, cerca de 300 estudantes de 5ª a 8ª série
resgataram os primórdios de Conceição do Buraco, município alagado em 1960, depois
que uma chuva de inverno muito forte derrubou a parede do açude de Orós. Os alunos,
em conjunto com os educadores, entrevistaram idosos para levantar detalhes do
acidente e informações sobre a vida da localidade antigamente. A tarefa não foi
fácil, já que falar sobre o assunto era relembrar a tragédia.

O resultado da pesquisa rendeu ótimos ganchos para o trabalho com os temas
curriculares, mas teve uma importância ainda maior para a comunidade. "Com as
informações transcritas e reunidas, nossa escola produziu o primeiro documento
histórico de Guassussê", comemora a professora Geane Pereira.

A escola também tem história

Se narrar é resistir, como escreveu Guimarães Rosa em Primeiras Histórias, a servente Antonia Neta de Oliveira, 40 anos, sobreviverá para sempre nos arquivos do Colégio Assunção, escola de classe média alta paulistana onde trabalha. Sua saga de retirante nordestina está registrada no diálogo gravado por dois alunos de 7ª série. "Vim do Rio Grande do Norte em busca de uma vida melhor", lembra-se. Os adolescentes participavam de um projeto de Língua Portuguesa. A seca nordestina foi o eixo temático escolhido pela professora Celina Diaféria para ensinar a fazer entrevistas e redigir textos e estimular a leitura. Prova de que trabalhar com relatos não é atividade apenas para as aulas de História ou mesmo para as séries iniciais.

O livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, foi o fio condutor da atividade. Como
tarefa, a turma deveria conversar com os nordestinos para saber os motivos da
migração, os desejos e as perspectivas para o futuro. "Foi um choque para muitos
alunos descobrir a realidade dos nordestinos", conta Celina. Há dois anos, a mesma
turma pesquisou sobre o analfabetismo no Brasil. Também naquela ocasião o contato
com relatos orais de empregadas domésticas e funcionários da escola foi uma
oportunidade para destruir alguns preconceitos e pôr em contato duas classes
sociais distintas. "Eles acreditavam que essas pessoas não estudaram porque
simplesmente preferiram trabalhar. Não havia nenhuma análise crítica", revela. "E,
pior, desconheciam a realidade de vida dos empregados de suas próprias casas."

O relato de Tonha, como é conhecida a servente, compõe agora o acervo da escola,
onde se encontram fotos, objetos e depoimentos de educadores, funcionários e ex-
alunos. Fundada em 1930, a escola guarda um patrimônio que conta a trajetória do
bairro, o desenvolvimento urbano e as mudanças dos hábitos e costumes paulistanos.
Qualquer pessoa pode visitar o memorial. Entre as preciosidades do patrimônio está
uma boneca doada pela ex-aluna Maria Emília Assunção, 76 anos. Na infância, por
gostar tanto da escola, costurou a miniatura de um uniforme igual ao seu. Numa
atividade com os pequenos da 1ª série, Gilda mostrou a roupa usada na época e
contou sobre o passado do Colégio Assunção.

A entrevista como técnica de trabalho

Ao considerar como principal fonte de pesquisa as pessoas, verifica-se que a transmissão da história se dá na comunicação entre o entrevistado e a turma. Portanto, é possível aprimorar em classe o diálogo, a disposição de ouvir, a linguagem não-verbal de gestos e posturas e a elaboração de perguntas conforme o universo do entrevistado e o objetivo do trabalho. "A dinâmica do diálogo é um dos aspectos mais apaixonantes do trabalho com as fontes orais. Ótima oportunidade para ensinar principalmente os adolescentes a ouvir e respeitar a diversidade", diz Zilda Kessel.

Um dos momentos mais importantes de uma atividade sobre história oral é a
entrevista. Por isso, é preciso ter claro o objetivo da conversa e a temática do
projeto. As perguntas devem ser preparadas com antecedência, assim como o ambiente,
para que o entrevistado se sinta à vontade. "Os jovens devem ter claro que durante
a entrevista estão à frente de pessoas, e não de fontes históricas", diz o
professor Brito, da USP. "Caso contrário, a conversa perderá toda a
espontaneidade." Observar os movimentos do corpo, as expressões faciais e o olhar é
essencial. Esses elementos dão boas dicas sobre a personalidade do entrevistado e
enriquecem seu perfil. O trabalho se tornará ainda mais rico se forem solicitados
ao entrevistado alguns elementos que ajudem a contar o passado, como fotos e
objetos de época.

A importância crescente das fontes orais é apenas o começo de muitas mudanças que
estão por vir não só no campo da história. O inglês Paul Thompson, considerado um
dos "pais" da história oral, fundador e diretor do Arquivo Nacional de História de
Vida da Biblioteca Britânica, esteve no Brasil em agosto último e expôs que o
relato de experiências de vida de cada indivíduo, somado a tantos outros,
representa uma grande rede de informação. "Essa rede é capaz de proporcionar uma
nova visão sobre a história da humanidade."

Da tradição oral para a multimídia

Ouvir e aprender com os mais velhos eram práticas comuns do passado. Hoje o ritmo acelerado do trabalho e a nova configuração da família permitem cada vez menos situações diretas de trocas pessoais. A história oral vem, de certa forma, preencher esse vazio. Ela surge em 1950 nos Estados Unidos, na Europa e no México com o gravador. O equipamento possibilita o registro e a edição das entrevistas.

Hoje a gravação de imagens em vídeo, as fotografias e a internet mudaram radicalmente a relação com a informação. Na medida do possível, todos esses meios podem e devem ser utilizados pela escola na transmissão dos relatos.

É essencial que o material coletado pela escola ultrapasse o alcance dos alunos, pais, funcionários e professores e atinja a comunidade. "Sem registro e sem a divulgação dos relatos não há história. Há apenas entrevistas", afirma o professor Lourival dos Santos, da USP. Por isso, projetos dessa natureza devem resultar num produto final. Há vários meios de registrar os relatos colhidos: livro, CD, peça de teatro, site ou mesmo numa exposição. O material recolhido deve ser preservado em um espaço na biblioteca.

Quer saber mais?

Colégio Assunção, Al. Lorena, 665, 01424-000, São Paulo, SP, tel. (11) 3887-3433

Escola Municipal de Ensino Fundamental Therezinha Pimentel, R. São Roque, s/nº, 11081-000, Santos, SP, tel. (13) 3258-7699

Escola Municipal Isaias Cândido Rodrigues, Conj. Populares, s/nº, vl. Guassussê, 63527-000, Orós, CE, tel. (88) 584-3140

BIBLIOGRAFIA
A Voz do Passado: História Oral, Paul Thompson, 388 págs., Ed. Paz e Terra, tel. (11) 3337-8399, 40 reais

Escola e Memória, Maria Cecília Cortez de Souza, 196 págs, Ed. Universitária São Francisco, tel. (11) 4034-8092, 20 reais

Manual de História Oral, José Carlos Sebe Bom Meihy, 248 págs., Ed. Loyola, 20,30 reais

Memória e Sociedade: Lembrança de Velhos, Ecléa Bosi, 488 págs., Companhia das Letras, tel. (11) 3707-3500, 47,50 reais

INTERNET
Conheça o portal Museu da Pessoa no site www.museudapessoa.com.br

Saiba mais sobre o Núcleo de Estudos de História Oral da USP em www.fflch.usp.br/dh/neho 

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