Aqui, todo o poder está nas mãos das crianças

No Ceará, jovens se preparam para gerir projetos culturais enquanto trabalham em uma fundação com museu, rádio e editora de livros

POR:
Anderson Moço
Augusto, 11 anos, é um dos responsáveis por tocar a instituição. Foto: Raoni Maddalena
COMO GENTE GRANDE Augusto, 11 anos, é um dos responsáveis por tocar a instituição

Ao chegar à porta do casarão antigo e bem cuidado que abriga a Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, a 584 quilômetros de Fortaleza, sou recebido por um menino de 11 anos. "Bem-vindo ao Memorial do Homem Cariri. Vou ser seu guia nesta visita", diz Augusto Diniz. Ele começa explicando que o acervo da casa, a primeira construída na cidade, conta a história dos habitantes da região. "Esses elementos ajudam a narrar nossa trajetória", explica, apontando para ferramentas, relicários e fotografias antigas. O garoto conhece muito bem cada objeto exposto e não titubeia nenhuma vez ao responder às questões sobre o museu. Eu pergunto há quanto tempo ele trabalha ali, já que parece tão experiente em guiar o grupo. "Trabalho na fundação há oito anos. Estou no 5º ano e já tenho idade suficiente para orientar os visitantes." Augusto vai à escola de manhã e passa a tarde no local.

A Fundação Casa Grande surgiu em 1992. Além do museu, um antigo educandário, que fica ao lado do casarão, foi transformado na Escola de Comunicação da Meninada do Sertão. Para participar das atividades, é preciso estar matriculado em alguma escola regular da região. "Nosso objetivo é transformar esses jovens em gestores culturais. Aqui, eles passam por diversas áreas e se responsabilizam por todas as etapas do trabalho, da administração ao planejamento dos eventos", diz o criador da fundação, Alemberg de Souza. O balanço financeiro da instituição, por exemplo, é feito pelos alunos mais velhos e fica exposto em murais espalhados pelo prédio, à vista de todos.

A escola tem uma rádio comunitária, na qual as crianças são produtoras e apresentadoras, um estúdio de televisão, em que são gravados dois programas mensais, e uma editora, que publica trabalho de alunos e moradores da região. Há ainda uma gibiteca, uma biblioteca, uma sala de música e um teatro - tudo administrado pelos jovens, que também organizam festivais de música e peças de teatro. Nesses casos, eles cuidam da programação dos espetáculos, da iluminação e da sonoplastia das produções. "Todos aprendem com a mão na massa, trabalhando juntos e trocando ideias, enquanto têm contato com uma série de linguagens artísticas", explica Souza, que supervisiona o trabalho.

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