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Trabalho de campo sobre a paisagem

Etapas de pesquisa progressivamente mais complexas, amparadas por registros em texto e fotografia no caderno estimulam os estudantes a afinar o olhar e interpretar melhor a paisagem do entorno

por:
BN
Bruna Nicolielo
Março de 2011
Foto: Wellington Macedo
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Colocar a garotada diante de um mundo a ser decifrado é uma das missões da Geografia. E uma das melhores estratégias para isso é conduzir etapas de pesquisa de campo sobre a leitura da paisagem com um aprofundamento cada vez maior (leia a sequência didática)."Ler a paisagem é descobri-la. É identificar sistemas naturais e culturais de modo a entender as relações entre a eles e se sentir parte desses processos", diz Solange Lima-Guimarães, professora de Geografia da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Rio Claro.

A paisagem, um dos conceitos estruturantes da disciplina, revela uma dinâmica que combina tempo e múltiplas ações conduzidas por diversos agentes. Por isso, você deve levar seus alunos a percebê-la, observá-la e descrevê-la, interpretando seus significados objetivos e subjetivos.

Segundo o geógrafo sino-americano Yi-Fu Tuan, que desenvolveu metodologias de percepção ambiental, a observação leva a construções de imagens sobre nosso meio ambiente e, consequentemente, traduz os graus de compreensão que temos da paisagem. Esse processo também pode conduzir a leituras distorcidas e à atribuição de valores ligados a uma percepção estereotipada. Para a turma de 9º ano da EEFM Professor Arruda, em Sobral, a 239 quilômetros de Fortaleza, por exemplo, a caatinga era um ambiente com vegetação pobre e seca.

Apesar de ser a paisagem dominante na cidade, os alunos reproduziam visões simplificadoras. Foi o que constatou Maria Níceas Oliveira França, vencedora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 (leia mais sobre o projeto na última página), quando pediu que eles redigissem um texto sobre o lugar onde vivem. Depois de examinar as produções, a professora quis desconstruir a visão que eles tinham do seu entorno. Ela organizou, então, um projeto que previa, inicialmente, sua própria imersão no modo de ser e viver dos alunos. Foi a campo para conhecer os lugares onde os jovens moravam, entrevistar seus familiares e registrar tudo em imagens.

A observação e a descrição como pontos de partida

Uma boa abordagem introdutória, antes da saída a campo, é fazer uma pesquisa prévia dos elementos que constituem a paisagem. Esse estudo pode ser apoiado em textos, na sistematização das observações que os alunos já fizeram em seu cotidiano e em material fotográfico - como fez Maria Níceas. Inicialmente, ela debateu os conceitos de paisagem, lugar e território com base em imagens de diferentes biomas brasileiros extraídas das mais diversas fontes de pesquisa. Por fim, também apresentou as fotografias tiradas em campo. Por meio desse levantamento, a turma pôde problematizar, formular questões e levantar hipóteses que demandavam outras investigações e exigiam novos conhecimentos.

Antes de uma saída a campo, porém, é preciso elaborar objetivos claros, que devem estar inseridos em uma problemática. Também é fundamental fazer uma visita prévia ao espaço de pesquisa. Para as anotações, o ideal é que cada aluno tenha seu próprio diário de campo ou caderno de brochura. É possível, ainda, confeccionar fichas, com tópicos sobre o que se pretende descobrir durante o estudo in loco.

Fotografias também servem como instrumentos para a análise dos jovens. Uma oficina preparatória pode ajudá-los a manusear a máquina fotográfica. Eles devem ser instruídos sobre enquadramento e profundidade, além de serem estimulados a fotografar livremente. Em tempos de tecnologia cada vez mais acessível, porém, é preciso estabelecer limites. "Com câmeras digitais, os alunos ficam tirando fotos sem pensar muito. Eles precisam ficar livres, sim, mas há de ter critério. Durante a preparação, peça que eles não saiam disparando, mas tirem apenas 12 fotos", sugere Antonio Davi Gutierrez Antonio, coordenador de projetos do Centro Paula Souza, em São Paulo, e formador de professores de Geografia. A entrevista, outra ferramenta importante, deve ser planejada com antecedência, mas aberta a adaptações no campo, à medida que surgirem oportunidades e interesses. Ela pode ser gravada ou não, dependendo das escolhas do grupo. Em sala, os alunos podem debater o que é mais importante descobrir, de acordo com o objetivo inicial da atividade, e elaborar uma lista de perguntas.

Campo em fases, meio de ver a paisagem cada vez melhor

Na etapa seguinte, a turma de Maria Níceas realizou atividades progressivamente mais complexas, visitando os arredores da escola e depois algumas localidades da zona rural da cidade. A observação e a descrição foram a base para o início do trabalho. "Os estudantes devem ser levados a pensar a paisagem em sua totalidade. É preciso refletir sobre os elementos naturais (vegetação e solos), os processos que não vemos (ciclos biogeoquímicos) e a ação humana", diz Antonio.

Para o geógrafo Tuan, diversas visões de mundo coexistem em um meio ambiente comum. Daí a importância de considerar que um mesmo entorno pode ser interpretado de muitas maneiras. Ao trabalhar a leitura da paisagem, a comparação das diferentes percepções é muito importante, pois permite o confronto de visões e valores culturais, por exemplo. Por isso, o trabalho de observação deve começar pelas características que mais tocam cada um. Isso reforça a ideia de que, quando se observa um dado entorno, buscamos identificar os aspectos que fazem cada um se aproximar dele.

A dimensão simbólica da paisagem deve ser considerada. "Cada elemento ajuda a compreender também a cultura do lugar", explica Solange. Assim, o entorno próximo, a igreja em que um parente foi batizado e a praça onde ocorrem as festividades locais, por exemplo, são geossímbolos de valor individual ou coletivo, isto é, referenciais que dizem respeito às histórias de vida particular ou de toda a coletividade.

Numa praça próxima à escola, a turma de Maria Níceas analisou os elementos naturais e humanos que compunham os arredores. Mais adiante, uma viagem até a zona rural do município permitiu observar processos já trabalhados em sala, como a degradação ambiental e as mudanças estacionais da caatinga. Examinando a vegetação, os estudantes tiveram uma surpresa: a exuberância dela no inverno. As árvores estavam verdes, e os açudes, cheios - bem diferente do retrato dominado por arbustos secos e cactos que os estudantes tinham cristalizado em seu imaginário.

Essa sequência de três momentos do trabalho de campo permitiu que os alunos estudassem os assuntos trabalhados em sala sobre a paisagem urbana e rural com uma profundidade crescente.

Na etapa final, é preciso voltar à classe e mediar a interpretação do material recolhido em campo. Também é necessário permitir à turma trocar impressões para identificar o que ainda precisa de mais pesquisa. Ao fim, os estudantes poderão construir uma visão do espaço vivido para além do livro didático e aprender a identificar elementos simbólicos e objetivos do lugar onde vivem, ampliando os conteúdos de sua produção escrita sobre a paisagem. A turma de Sobral melhorou sua percepção do entorno e reescreveu a produção inicial, usando os conceitos da Geografia com mais propriedade. "Maria Níceas realizou um trabalho que contribuiu para a construção de um olhar mais complexo em seus alunos", diz Sueli Furlan, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Leitura da paisagem: o projeto da Educadora Nota 10

Foto: Wellington Macedo

A professora nota 10: Maria Níceas Oliveira França
Professora de Geografia do 9º ano da EEFM Professor Arruda, em Sobral, CE

Leciona há mais de 20 anos e graduou-se em Estudos Sociais e Zootecnia pela Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA). É pós-graduada em Geografia pela mesma instituição.

 

Foto: Wellington Macedo

1. Análise de registros
Maria Níceas começou o trabalho discutindo em classe os registros que ela produziu ao estudar a área rural da cidade. Para os alunos, a caatinga era apenas um ambiente marcado pela seca, rude e com vegetação esturricada.  Apesar de ser a paisagem dominante, eles reproduziam o que traziam os livros didáticos. Com imagens de diferentes biomas brasileiros, ela debateu três conceitos - paisagem, lugar e território -, fundamentais para entender como se organiza o espaço.

 

Foto: Wellington Macedo

2. Visita a campo em etapas
O grupo visitou uma praça próxima à escola para observar e interpretar o espaço onde vivem. Os alunos fizeram registros no caderno sobre os elementos naturais e humanos que compunham os arredores.

 

Foto: Wellington Macedo

3. Ida à zona rural
A vivência de campo se ampliou e todos viajaram para distritos rurais. Observaram a vegetação, a fauna e os rios próximos. A saída ainda trouxe uma surpresa: a exuberância da caatinga no inverno. As árvores estavam verdes, e os açudes, cheios (bem diferente da paisagem dominada por arbustos secos e cactos que os estudantes tinham no imaginário). "Contribuí para um olhar mais complexo sobre a paisagem", comemora.

O conteúdo do 1º ao 5º ano

Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, também é possível fazer visitas de campo para aprofundar um tema depois de tê-lo estudado em sala. O objetivo da atividade é o mesmo: coletar informações e analisar aspectos culturais, sociais, ambientais e econômicos in loco. É possível fazer uma única visita ou uma sequência delas, de acordo com seus objetivos. A turma deve ser previamente preparada para analisar um único aspecto da paisagem - por exemplo, visitar a nascente de um rio.

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