Mobilidade espacial nas cidades com alunos da EJA

Aprender sobre a mobilidade espacial ajuda os estudantes a compreender a relação entre as políticas públicas e a paisagem urbana

POR:
Fernanda Salla
Ilustração Otávio Silveira

Reclamações sobre o trânsito intenso e o tempo que se leva para ir de um lugar a outro são comuns em grandes centros urbanos. Quem nunca se atrasou para um compromisso ou teve de se programar com antecedência para chegar a um destino não tão longe do local de origem? Segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), em 2009 a população dos municípios com mais de 60 mil habitantes fez 58 bilhões de viagens (deslocamento da origem ao destino), gastando 21 bilhões de horas. Esses deslocamentos temporários feitos entre diferentes espaços, de casa ao trabalho, por exemplo, são chamados de mobilidade espacial e representam hoje um dos grandes desafios das cidades.

Abordar o tema em classe permite levar os estudantes a pensar criticamente os problemas urbanos (leia a sequência didática). "Percebemos que muitos não se situam bem na cidade nem sabem descrever com precisão o trajeto que fazem para ir de um lugar a outro. É algo comum com aqueles que saíram de sua cidade natal para viver nas grandes metrópoles, como há diversos casos entre os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA)", diz Carlos Eduardo Guimarães do Nascimento, professor de Geografia do Colégio Santa Cruz, em São Paulo. Um estudo realizado em 165 cidades do mundo por Valério Medeiros, pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), concluiu que as cidades brasileiras têm os piores índices de mobilidade. Florianópolis lidera o ranking, seguida por Rio de Janeiro.

Os problemas relacionados à mobilidade no Brasil ocorrem devido à falta de infraestrutura adequada e ao crescimento desordenado, que força a população a se afastar das áreas centrais, onde se concentram os postos de trabalho e as ofertas de serviços (leia o infográfico acima). "Isso é resultado de uma série de políticas públicas feitas ao longo da história - e movidas por interesses econômicos ou privados que priorizaram um modelo urbano que não favorece a maior parte da população", completa Nascimento.

É preciso mostrar o processo histórico por trás dos problemas

Os anos 1950 marcaram o início do modelo urbanístico que conhecemos hoje. Na gestão do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976), foi lançado o Plano de Metas JK, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento do país. Para isso, ele investiu na industrialização e na construção de estradas. Atraídas pelas oportunidades de emprego, pessoas migraram do campo para trabalhar nas indústrias, o que culminou num processo de crescimento acelerado e sem planejamento das cidades nas décadas de 1960 e 70. Criou-se um desenho urbano fragmentado, que resultou numa segregação espacial. A grande expansão dos anos 1950 coincide com a instalação da indústria automobilística no ABC Paulista, a ampliação da malha rodoviária, a decadência do transporte ferroviário e, consequentemente, com a expansão do uso do automóvel particular.

O modelo de deslocamento por vias surgiu em momentos diferentes em cada localidade, mas é fruto de decisões políticas. Em São Paulo, por exemplo, optou-se pela construção de anéis viários e avenidas radiais para a circulação de carros, em vez de linhas de metrô. A prioridade ao transporte individual, em detrimento do coletivo, soma-se à especialização técnica da sociedade e à industrialização. Por isso, você deve deixar claro que a ocupação e a mobilidade de uma cidade não é natural, mas resultado de um processo de urbanização conduzido por um dado modelo econômico.

 

Discutir problemas e possíveis soluções com base na realidade

O ponto de partida para discutir o tema em classe é o cotidiano dos alunos. Depois, de forma investigativa, é possível desmembrar as causas e levantar soluções para a questão da mobilidade nos grandes centros. "É preciso lançar um olhar sobre onde moramos, como fazemos para ir de um lugar a outro, quais são as vantagens e as desvantagens dessa realidade e onde estão as políticas públicas que nos afetam nesse sentido", afirma o geógrafo Wilson Roberto Ferreira, professor de EJA do Colégio Santa Cruz, em São Paulo. Foi assim que o professor Douglas Sanches, do Cieja Sapopemba, também na capital paulista, ensinou o conceito a seus alunos. "Os estudantes de EJA, a maioria de trabalhadores, circulam constantemente pela cidade e sentem as dificuldades que o espaço impõe, mas não refletem sobre as causas dessa lógica urbana. Para se apropriar dos espaços em que circulam, têm de entender a lógica econômica e política da cidade para compreender o que organiza sua rotina", explica. Inicialmente, ele exibiu em classe o filme nacional Os Doze Trabalhos, que retrata um dia na vida de um motoboy. Em seguida, os estudantes discutiram a película e produziram textos sobre as semelhanças entre a rotina do protagonista e a deles próprios. O professor apresentou os fatores que determinam o deslocamento das pessoas nos centros urbanos e a turma produziu um novo texto, relacionando seu cotidiano aos aspectos conceituais da mobilidade.

 

Quer saber mais?

CONTATOS
Carlos Eduardo Guimarães do Nascimento
Cieja Sapopemba, tel. (11) 2019-3514
Jaime Oliva

FILMOGRAFIA
Os Doze Trabalhos
, Ricardo Elias, 90 min., Politheama Produções Cinematográficas

INTERNET 
Pesquisa de mapas
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