Como interpretar diferentes mapas

Ao conhecer diversas versões cartográficas, os alunos analisam quais informações são representadas e como elas refletem pontos de vista

POR:
Rita Trevisan
Visão eurocêntrica
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a VISÃO EUROCÊNTRICA do século 16.
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VISÃO NORTE-AMERICANA do mundo.

Se os portugueses não tivessem conhecimentos cartográficos sólidos, não teriam se firmado entre as mais poderosas nações na época das Grandes Navegações. Naquele século 16, era fundamental para os países exploradores saber a localização dos territórios ultramarinos para aumentar sua soberania - e isso incluía a capacidade de desenhar novos mapas e interpretar bem os já existentes. O desafio de conhecer o espaço que cada nação ocupa no globo já foi superado e hoje temos à disposição aplicativos que disponibilizam na internet imagens de satélite de cada canto do planeta e aparelhos GPS portáteis.

"Antigamente, só as nações mais poderosas contavam com escolas de cartografia e profissionais habilitados para desenhar mapas", afirma Hervé Théry, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, de Paris, e professor convidado da Universidade de São Paulo (USP). Hoje, é verdade, os conhecimentos técnicos de escala, projeção e métrica - essenciais à atividade - estão mais próximos de todos. Porém há outro fator importantíssimo a ser destacado pelo professor durante as aulas sobre o tema, alerta o pesquisador. "Para fazer uma representação, não nos baseamos apenas em dados objetivos. É preciso tomar decisões, interpretar e saber que a melhor solução é a que atende aos objetivos previamente estabelecidos, deixando claras as informações que se quer priorizar", defende (leia a sequência didática).

Para despertar a curiosidade dos estudantes pelo processo de composição de um desenho e levá-los a perceber que a linguagem cartográfica se presta a diferentes funções - o que pressupõe levar em consideração a intenção do autor -, ofereça diferentes tipos de mapa. Toda a turma deve ter a oportunidade de participar de momentos de observação, comparação e criação. "Podemos dizer que, além de representar, os mapas também constroem uma visão de mundo. Apresentar uma diversidade de materiais é uma maneira de compartilhar outros pontos de vista e estimular a postura crítica diante das representações", diz Fernanda Padovesi, docente da USP.

 

Quanto maior o número de referências, melhor

Cartografia | Foco na valorização
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Se o tema das aulas for o mapa-múndi, a turma logo vai ver que diversas representações podem ser consideradas corretas (veja na página anterior a comparação de duas delas). A mais tradicional, de Gerhard Mercator (1512-1594), mostra a Europa no centro e o Hemisfério Norte com mais destaque que o do Sul. Embora seja a mais usada, ela não é a única aceita. Outra referência interessante é o mapa de Gall-Peters (1586-1643), em que o continente europeu tem um tamanho menor, e o africano, maior. Nele, estão realçadas as nações que fazem parte do dito Terceiro Mundo. "Não há um mapa que seja mais ou menos verdadeiro ou fiel à realidade. Todos eles, por serem representações, são passíveis de distorções", reforça Théry. Ele explica que o fato de dispor em uma folha plana espaços que, na verdade, estão distribuídos em uma esfera, já é uma maneira de alterar a informação real.

Na turma de 6º ano da professora Daniela Tobias, da EE Alípio de Oliveira e Silva, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, essa noção de diversidade é levada para o dia a dia. As aulas incluem o estudo de um mapa elaborado em 2500 a.C. (que mostra o rio Eufrates e os acidentes geográficos adjacentes, considerado um guia de navegação da época), outro de 1300 (que dá ênfase à localização dos portos, mostrando a preocupação com os oceanos e as rotas marítimas) e o de John Snow (que mostra a proliferação dos casos de cólera na Londres de 1854). Além disso, Daniela trabalha com o Terra Brasilis. Criado pelos portugueses na época da colonização, ele chama a atenção para a biodiversidade brasileira (veja a comparação entre esta imagem com uma atual nos mapas ao lado). "Meu objetivo é mostrar que não basta fazer contas, projeções, escalas e métricas. Para entender a linguagem cartográfica, é preciso considerar a função social do mapa, os interesses aos quais ele atende e de que forma faz isso", explica Daniela. Depois de uma ampla discussão sobre os tipos de representação e seus propósitos, a professora solicita que os alunos desenhem um mapa do espaço em que vivem, ressaltando os dados que acharem mais importantes.

O mapa-múndi também pode ser o ponto de partida para outra rica discussão: o uso do meridiano de Greenwich como referência. Essa é uma convenção relativamente recente. Explique à garotada que nem sempre foi assim porque, na história da cartografia, diversos outros meridianos já tiveram esse papel. Fernanda explica que mapas do século 2 destacavam um meridiano que passava pelas ilhas Afortunadas (atuais ilhas Canárias). Já em 1871, alguns países já haviam adotado o meridiano de Greenwich como referência para as cartas marítimas, mas ainda utilizavam os que passavam sobre sua região para as terrestres.

Da mesma forma, as nações e os continentes que aparecem no centro dos mapas - com maior destaque em relação aos demais - também podem variar. Enquanto as cartas antigas costumavam trazer Jerusalém em primeiro plano, os materiais mais estudados nos Estados Unidos atualmente apresentam a América do Norte no centro. Se construirmos um mapa em que o Brasil fique em destaque, por exemplo, a Ásia terá de ser dividida em duas partes e o oceano Pacífico aparecerá mais do que na projeção original de Mercator, por exemplo.

O futuro do mapa-múndi também pode servir como pauta para um trabalho crítico com os alunos. A maioria das projeções que temos hoje está orientada basicamente para a relação de metros e quilômetros entre uma localidade e outra. Isso fazia muito sentido na época das Grandes Navegações. "No mundo de hoje, marcado pela globalização e pela interatividade, o nosso desafio é pensar em mapas capazes de representar essa realidade dinâmica e os elementos que a compõem. Eles podem ser de assuntos específicos, como o que mostra a evolução na produção da soja nas últimas décadas no Brasil", sugere Fernanda.

Quer saber mais?

CONTATOS
Daniela Tobias
EE Alípio de Oliveira e Silva, tel. (11) 4701-2586
Fernanda Padovesi
Hervé Théry

BIBLIOGRAFIA
Atlas da Mundialização: Compreender o Espaço Mundial Contemporâneo, Marie-Françoise Durand e outros, 176 págs., Ed. Saraiva, tel. 0800-011-7875, 72,50 reais
Atlas do Brasil: Disparidades e Dinâmicas do Território, Hervé Théry e Neli Aparecida de Melo, 312 págs., Ed. Edusp, tel. (11) 3091-4150, 90 reais
Mapas da Geografia e Cartografia Temática, Marcello Martinelli, 112 págs., Ed. Contexto, tel. (11) 3832-5838, 21 reais
O Prêmio da Longitude, Joan Dash, 210 págs., Ed. Companhia das Letras, tel. (11) 3707-3500, 36,50 reais

INTERNET
Site do IBGE, arquivo de mapas do Brasil para download.

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