África, um continente cada vez mais urbano

Desde a década de 1950, a população rural começou a migrar em busca de melhores oportunidades de emprego e ascensão social. Atualmente, 18 países africanos possuem a maior parte das pessoas vivendo nas cidades

POR:
Ana Rita Martins
MORADIAS PRECÁRIAS Em Nairóbi, no Quênia, 1 milhão de pessoas vivem em Kibera, a maior favela da África. Foto: Uriel Sinai/Getty Images
MORADIAS PRECÁRIAS  Em Nairóbi, no Quênia, 1 milhão de pessoas vivem em Kibera, a maior favela da África
A etimologia da palavra África remete a termos como "poeira, ensolarado, terreno longe do frio e caverna". Curiosamente, todos de alguma forma estão relacionados às representações que temos sobre as paisagens inóspitas e selvagens e o clima quente da região. A força dessas imagens tem razão de ser: os desertos do Saara, do Namibe, de Calaári e o que cobre o Corno da África, além das florestas guineenses e congolesas, ocupam metade do território africano. Um erro comum, no entanto, é resumir o continente a isso.

A África vive um processo de urbanização iniciado na década de 1950. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o consumo de matérias-primas e combustíveis fósseis aumentou e o continente passou a exportá-los. A infraestrutura criada para suprir essa demanda e escoar os produtos concentravase nas maiores cidades e, naquela época, ainda era bastante precária. Nas décadas seguintes, diversos países conquistaram a sua independência e se integraram à nova ordem econômica vigente, o que resultou no crescimento de muitas regiões.

A queda do muro de Berlim, em 1989, também influiu nessa transformação. Com a supremacia do modelo capitalista e a posterior globalização, as cidades africanas passaram a se desenvolver cada vez mais. A população rural começou a migrar em busca de melhores oportunidades de emprego e ascensão social. Botsuana, por exemplo, concentrava 21% da população nas cidades em 1990. Dados de 2007, divulgados este ano, mostram que essa porcentagem subiu para 60% (veja no mapa da página 4 o crescimento da África urbana).

Sem infraestrutura, faltam moradias e saneamento nas cidades

TRÂNSITO CAÓTICO A Cidade do Cabo, na África do Sul, enfrenta o tráfego intenso, um dos males da urbanização. Foto: Michael Hammond/Getty Images
TRÂNSITO CAÓTICO   A Cidade do Cabo, na África do Sul, enfrenta o tráfego intenso, um dos males da urbanização

Jean-Pierre Elong-Mbassi, geógrafo e urbanista camaronense, considera que as nações não souberam se preparar para tal mudança. O problema, de acordo com ele, é que na África, de modo geral, 70% dos recursos públicos estão nas mãos do governo federal. Repasses às outras esferas administrativas dependem, muitas vezes, da boa relação entre políticos. Daí a dificuldade dos municípios em obter verbas para investir em urbanização.

Uma das consequências desse desenvolvimento desordenado é o trânsito intenso, já que não há oferta adequada de transporte público. Sofrem com ele, por exemplo, a Cidade do Cabo, na África do Sul, Lagos, na Nigéria, e Kinshasa, na República Democrática do Congo. O quadro se agrava com as moradias precárias e sem saneamento básico que se espalham pelos bolsões de pobreza nos grandes centros. Nairóbi, no Quênia, tem a maior favela do continente africano, Kibera. Lá, vivem cerca de 1 milhão de pessoas, amontoadas em casas feitas de madeirite e lata.

"A população do continente é majoritariamente jovem e as taxas de natalidade são altas. Querendo o melhor para si e para os filhos, as pessoas ficam nas cidades, na maioria das vezes desempregadas e morando em condições subumanas", conta Rafael Sanzio, especialista em geografia africana e docente da Universidade de Brasília (UnB). A situação tende a se agravar. De acordo com o relatório Estado das Cidades Africanas, divulgado em 2008 pela Organização das Nações Unidas (ONU), a população urbana africana duplicará até 2030.

Oferta de serviços e de bens de consumo atrai a população

Apesar de a urbanização mal planejada acarretar problemas sociais e de infraestrutura, ainda assim a possibilidade de viver nas grandes cidades atrai grande parcela da população. Junto com a diversificação da economia e a maior oferta de empregos, vêm também maiores possibilidades de acesso a serviços de saúde e de Educação. Com a ampliação do setor produtivo, começam a surgir vagas para profissionais mais qualificados e especializados, aumentando a necessidade de escolas, centros de formação técnica e faculdades. "A Nigéria é um país que tem se destacado na oferta de vagas nas universidades", conta Amailton de Azevedo, professor de História da África da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A consolidação do sistema de ensino, que ainda tem muito a evoluir, é o primeiro passo para a geração e o fortalecimento de polos culturais e de pesquisa, que tendem a atrair investimentos externos. A África do Sul vive essa situação. Cidades extremamente urbanizadas, como Johanesburgo, Durban e Pretória, têm contado cada vez mais com a presença de multinacionais interessadas na mão de obra abundante e mais qualificada e no mercado consumidor crescente. "A urbanização por si só já traz a reboque o desenvolvimento econômico. Quando aliada a planejamento político e visão social, os dividendos são ainda maiores. Esse é o modelo que a África deve seguir para continuar crescendo em todas as áreas", afirma Isabel Medeiros, geógrafa e pesquisadora do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.

Países africanos com maioria da população urbana
Países africanos com maioria da população urbana
1990
2010
1. África do Sul
2. Congo
3. Djibuti
4. Guiné Equatorial
5. Líbia
6. Namíbia
7. Tunísia
1. África do Sul
2. Angola
3. Argélia
4. Botsuana
5. Cabo Verde
6. Camarões
7. Congo
8. Costa do Marfim
9. Djibuti
10. Gabão
11. Gâmbia
12. Gana
13. Libéria
14. Líbia
15. Marrocos
16. São Tomé e Príncipe
17. Seichelles
18. Tunísia

Fonte: Almanaque Abril, 1990 e 2010

Quer saber mais?

CONTATOS
Amailton de Azevedo
Leila Leite Hernandez
Pio Penna Filho

BIBLIOGRAFIA
A África e os Africanos na Formação do Mundo Atlântico - 1400-1800
, John Thornton, 436 págs., Ed. Campus, tel. 0800-026-5340, 99,90 reais
África - Horizontes e Desafios no Século XXI, Charles Pennaforte, 64 págs., Ed. Atual, tel. (11) 3613-3000, 31,90 reais
A África na Sala de Aula - Visita à História Contemporânea, Elikia M?Bokolo, 584 págs., Ed. Colibri, 25 euros
África Negra, História e Civilizações - Até ao Século XVIII, Tomo I, 584 págs., Ed. Colibri, 25 euros
África Negra, História e Civilizações - Do século XIX aos Nossos Dias, Tomo II, 626 págs., Ed. Colibri, 25 euros
História Geral da África - Metodologia e Pré-História da África, Vol. I, J. Ki-Zerbo (coord.), 863 págs., Ed. Ática, tel. 0800-115152 (edição esgotada)
Para Quando a África?, Joseph Ki-Zerbo, 172 págs., Ed. Pallas, tel. (21) 2270-0186, 40 reais

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