Saber subterrâneo

Apresentar os tipos de solo como produtos de um processo dinâmico ajuda o 6º e o 7º ano a entender a formação, o uso e a recuperação dele

POR:
Beatriz Santomauro
CENTRO DA TERRA Com trena e caderno, a turma da EBM Prof. Manoel Roldão das Neves analisa o terreno. Foto: Danísio Silva
CENTRO DA TERRA Com trena e caderno, a turma da EBM Prof. Manoel Roldão das Neves analisa o terreno. Foto: Danísio Silva

No seu tempo de escola, qual estratégia o professor de Geografia usava para explicar conteúdos como os tipos de solo? Provavelmente, ele fazia isso por meio da memorização: latossolo, argissolo e cambissolo. A mesma tática servia para descrever rios, tipos de floresta e outros aspectos da paisagem.

Antes de atirar pedras no seu antigo mestre, é bom lembrar que até a década de 1960 o ensino da disciplina esteve dominado pela metodologia tradicional, centrada na descrição e na memorização. O problema é que essa abordagem deixava de fora coisas demais, especialmente os processos da natureza e as modificações introduzidas pela ação do homem.

No exemplo dos tipos de solo, não se estabeleciam conexões entre a lista a ser memorizada e os fenômenos que originaram a camada mais superficial da crosta terrestre - o chamado intemperismo, conjunto de fenômenos que inclui o desgaste causado pela ação da chuva e do vento (conheça as principais etapas da transformação no infográfico "Como a pedra vira terra - e o que fazemos com ela"). Também não se mostrava de que forma os usos que diferentes grupos fazem do terreno podem mudar seu curso natural - como a agricultura intensiva leva à erosão e o desmatamento causa a desertificação. Em outras palavras, a abordagem estática e descontextualizada escondia a noção de processo: uma seqüência de estados de um sistema que se transforma, algo essencial para a concepção de espaço como um elemento dinâmico da realidade.

Da rocha à agricultura 

Infográfico sobre a formação do solo
Clique aqui para abrir o infográfico "Como a pedra vira terra 
- e o que fazemos com ela". Infografia: Érika Onodera

Essa capacidade de inter-relacionar fenômenos aparentemente desconectados deve ser uma das metas para que o conhecimento seja significativo. "No caso das variedades de solo, é preciso mostrar a rede de processos interligados desde a transformação das rochas até a exploração econômica dos terrenos", diz Sueli Furlan, professora de Geografia da Universidade de São Paulo e selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. Melhor ainda se a proposta incluir elementos do cotidiano: isso abre espaço para saídas a campo em que os alunos desenvolvam procedimentos como levantamento de hipóteses, coleta de dados e relatórios que comparem o que foi observado com as informações do livro.

Leonardo Bez, da EBM Professor Manoel Roldão das Neves, em Biguaçu, a 19 quilômetros de Florianópolis, apostou nessa perspectiva para explicar a formação e o uso dos solos às turmas de 5ª série (leia a sequência didática). Ele começou o trabalho na sala de aula lançando perguntas sobre o tema:

- O que é solo?

- É terra. Ele é feito de terra - arriscou um dos meninos.

- Além de terra, tem areia. E existem uns bichinhos que moram lá - completou uma colega.

- E o que tem debaixo dele?

- Pedras! - responderam em coro.

- Certo. Mas como uma rocha tão dura pode ser transformada em solo?

- Ué... Acho que a água vai amolecendo a rocha e virando solo.

Para que a curiosidade sobre o assunto e as hipóteses se tornassem aprendizagem, Bez organizou diversas etapas de estudo. A primeira foram as aulas expositivas, em que ilustrações e mapas foram aliados importantes na compreensão. Com a ajuda deles, os estudantes aprenderam as características das rochas metamórficas, ígneas e sedimentares, viram em quais locais cada uma delas aparece e aprenderam que as alterações causadas pelo intemperismo e pela erosão formam os solos. Por meio dos cortes no terreno, a garotada entendeu que os solos são dispostos em camadas, chamadas de horizontes, cada um com cor, textura e consistência diferentes. "Com isso, ficou fácil para a turma finalmente compreender de verdade a lista dos tipos de solo que tínhamos de decorar em nosso tempo de escola", diverte-se o professor.

O campo é diferente. E agora?

Com a teoria fresca na cabeça, era hora de sair a campo e confrontar o conteúdo de sala de aula com a observação. A idéia de Bez foi levar a turma a um terreno onde todos pudessem ver os horizontes do solo. Como ele leciona em uma área rural, foi mais fácil achar um terreno adequado, bem ao lado da escola, com um corte vertical que mostrava quase 2 metros de terra. A mesma atividade pode ser realizada em regiões urbanas, especialmente nos terrenos em terraplanagem ou de prédios em construção. Outra opção é usar o trado, um instrumento que faz perfurações de várias profundidades.

Munida de trena, lupas e cadernos para anotação, a garotada da 5ª série de Biguaçu tomou um susto quando começou a analisar o terreno. Afinal de contas, o que o perfil mostrava era bem diferente da teoria aprendida:

- Professor, aqui tem uma camada de matéria orgânica superficial, igualzinha à do livro. Mas, aqui, a 60 centímetros de profundidade, tem outra! Por que será?

"Os alunos chegaram em campo com uma hipótese, mas tiveram que se questionar para entender a situação intrigante que estavam vendo na prática", afirma Bez. Investigando a história da ocupação do lugar, eles descobriram que a área tinha sido aterrada quase 30 anos antes para a construção de uma igreja. "Expliquei que, por causa do aterramento, a camada de matéria orgânica mais profunda já tinha sido superficial um dia."

A descoberta foi a deixa para explicar que a formação dos solos também está sujeita às mudanças causadas pelo homem. A ênfase foi no problema da erosão, causada pela retirada desordenada da cobertura vegetal e pelas ocupações irregulares de populações em encostas. Integrando o ensino dos solos desde a formação ao uso, Bez aproximou o assunto da turma e ajudou a conferir sentido ao conhecimento adquirido.

Quer saber mais?

CONTATOS
EBM Professor Manoel Roldão das Neves
, Estrada do Café, s/nº, 88160-000, tel. (48) 3285-9003, Biguaçu, SC
Sueli Furlan

BIBLIOGRAFIA
Formação e Conservação dos Solos
, Igo F. Lepsch, 192 págs., Ed. Oficina de Textos, tel. (11) 3085-7933, 58 reais
Solos e Meio Ambiente: Abordagem para Professores do Ensino Fundamental e Médio, Valmiqui Costa Lima e outros, 130 págs., Ed. Departamento de Solos e Engenharia Agrícola da Universidade Federal do Paraná, tel. (41) 3350-5649, 25 reais

INTERNET
Neste site, textos e animações sobre solos
Manual Técnico de Pedologia, com caracterização geral do solo, descrição de perfis e nomenclaturas 

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias