Pesquisa no próprio quintal

Como explorar a cidade, o bairro e até a rua em ótimas aulas de História e Geografia

POR:
Ferdinando Casagrade, Cristiane Marangon

 

Trabalho de campo em Blumenal...
Trabalho de campo em Blumenal...,

História e Geografia são duas disciplinas que permitem integrar facilmente a realidade do estudante aos conteúdos curriculares. Basta uma volta pelo bairro em que sua escola está localizada para desenvolver a capacidade de observar o meio em que se vive e relacionar o acontecimentos passados com situações presentes.

O geógrafo Aziz Ab Saber, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), definiu essa questão com maestria na entrevista publicada por NOVA ESCOLA em fevereiro deste ano: "É preciso incentivar o aluno a construir o conhecimento da região em que mora".

Nas próximas três páginas você vai conhecer experiências bem-sucedidas do Colégio Sagrada Família, em Blumenau, interior de Santa Catarina; da Escola Estadual Aline Picheth, em Curitiba, a capital paranaense; e da Escola Municipal Zeferino Demétrio Costi, em Passo Fundo, Rio Grande do Sul.

...aluna toma notas em Passo Fundo (no alto à esq.) e professora visita o Jardim Botânico de Curitiba com a turma: imagens e registros para construir o conhecimento sobre a cidade e a região em que vivemos Fotos: Edson Vara e Jader da Rocha
...aluna toma notas em Passo Fundo 
(no alto à esq.) e professora visita o 
Jardim Botânico de Curitiba com a turma: 
imagens e registros para construir o 
conhecimento sobre a cidade e a região 
em que vivemos 
Fotos: Edson Vara e Jader da Rocha

Em todas elas, as recomendações acima foram levadas a sério pelo corpo docente, com ótimos resultados ? tanto para os educadores como para os estudantes. "Usar a história local para estimular o estudo é muito bom, mas cabe a você, professor, definir todas as etapas do trabalho, pois é sua obrigação responder a qualquer dúvida que os alunos possam ter", completa Kátia Maria Abud, professora de Metodologia de Ensino de História da Faculdade de Educação da USP.

O Colégio Sagrada Família, um dos mais tradicionais de Blumenau, a 184 quilômetros de Florianópolis, criou uma atividade envolvendo História, Geografia e Arte para comemorar os 150 anos da cidade. "A meta era ensinar aos alunos de 8ª série mais sobre nossa região", conta a coordenadora pedagógica Arlete da Silva Feltrin. "Graças ao projeto, eles conheceram a área urbana nos mínimos detalhes."

Um mapa com os 23 bairros blumenauenses foi a partida. A professora de Geografia, Karen Robert-Svendsen Tonella, criou um 24º ponto de estudos (o entorno da escola) e dividiu a turma em grupos. Sua colega de História, Silvana Silva Busettil, definiu que cada um tinha por missão visitar uma área e fotografar em cores, três aspectos considerados positivos e em preto e branco, três negativos.

"No início, muitos reclamaram dos bairros em que teriam de pesquisar, mas nós logo percebemos que é mais fácil identificar os pontos positivos e negativos de um lugar novo", diz o aluno Gustavo Fiuza Lima Scharf. À medida que o projeto avançava, os jovens perceberam que não bastava intuir o que havia de bom e ruim em cada local. Era necessário pesquisar mais. A prefeitura, o centro cultural e as associações de bairro, além dos moradores, viraram fonte de pesquisa.

Foi nessa fase que apareceu a história de Blumenau, cidade fundada por imigrantes alemães no vale do Rio Itajaí e com forte influência desse povo nos hábitos e nas construções. Cada grupo escreveu um relatório com indicadores sócio-econômicos (nível de emprego e de renda, população e outros). "Esse foi o momento mais importante", destaca Arlete. "Porque os estudantes realmente aprenderam a pesquisar."

A professora de Arte, Estephânia Pereira, enfocou as técnicas de fotografia ? para garantir a qualidade do material produzido pela garotada. No final, todos produziram painéis para a exposição, que foi aberta ao público. "Aproveitei para mostrar como é o cotidiano dos fotógrafos", diz ela, revelando a preocupação em desenvolver atividades tão ou mais importantes do que as previstas no currículo (leia o quadro abaixo). "A prova do aprendizado foi ver os alunos totalmente envolvidos, dentro do trabalho", conclui Arlete.

Câmeras a serviço do saber

Por meio da fotografia, os estudantes podem revelar suas formas de ver o mundo

Usar a fotografia em suas aulas é um ótimo jeito de envolver os alunos.

A técnica é um recurso didático importante, avalia Paulo Portela Filho, coordenador do serviço educativo do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Ela permite que eles revelem suas formas de ver o mundo. "A câmera é um instrumento de registro que está a serviço do olho", diz Portela.

As fotos podem ajudar o professor a desvendar o que sua turma sente e pensa. "Com habilidade e perspicácia, descobrimos temas a trabalhar em sala de aula, como o preconceito, a desinformação etc." Para o estudante, é importante destacar que, assim como as imagens que ele faz (ao apontar a lente), todas as fotos têm um significado comum: revelar o olhar e a expressão do autor.

 A exemplo do que aconteceu em Blumenau, também o aniversário da cidade (há nove anos) motivou a professora Gleide Sueli Weckerlin Ramirez, de História e Geografia, a convidar seus alunos a pesquisar dados históricos sobre os fundadores, o estilo de vida e as profissões em Curitiba. No início, tudo se resumia a exposições de cartões postais, fotos antigas e "relatos de causos", como ela diz. "A idéia surgiu porque eu queria fazer algo que resgatasse as histórias de antigamente", justifica Gleide. "O objetivo era mostrar como era a vida antes e como é hoje."

Hoje, as turmas de 5ª a 8ª série da Escola Estadual Aline Picheth vão mais longe no trabalho. Divididos em grupos, os estudantes conhecem os nove principais bairros da região central da capital paranaense. Além dos relatos e das fotos antigas, eles conhecem os principais pontos turísticos ? como a Ópera de Arame, o Jardim Botânico e a Rua 24 horas ? e suas histórias.

A garotada não economiza em empenho. Todos vão apurar dados na prefeitura, na biblioteca pública, na Assembléia Legislativa e nos faróis do saber ? misto de bibliotecas com centros de pesquisa existentes na cidade. Orientados por Gleide, que virou coordenadora da escola, eles buscam sempre mais curiosidades sobre as famílias tradicionais, seja lendo seja conversando com netos e bisnetos das pessoas que ajudaram a construir os bairros em questão.

"É maravilhoso ver jovens tão envolvidos com a atividade que não se importam em usar o tempo livre para realizar pesquisas", diz ela. Com a experiência de todos esses anos e o desejo da turma de aperfeiçoar o material produzido pelos colegas mais velhos é comum encontrar os grupos fazendo as visitas no contraturno. Durante os passeios, uma das tarefas mais importantes é fotografar ? as portas, as ruas, as pessoas, cada detalhe do lugar.

Muitos professores, independentemente da disciplina que lecionam, acabam se integrando ao projeto porque atuam como consultores dos estudantes nessas tarefas fora do horário escolar. Com isso, destaca Gleide, também os educadores crescem profissionalmente. "Para atender às necessidades dos alunos, todos são obrigados a buscar mais informações e a conhecer melhor a cidade em que vivem." 

No final, começa a produção de maquetes, que continuam expostas no aniversário da cidade, 29 de março. Nesse dia, a escola fica aberta à comunidade das 7 às 17 horas e os órgãos públicos que contribuíram para a pesquisa são convidados a conhecer os resultados. "É uma forma de valorizar a família e a sociedade", acredita Gleide. "Afinal, nenhuma tecnologia substitui o contato com o mundo."

Passo Fundo

Freqüentar as aulas de Estudos Sociais na 2ª série da Escola Municipal Zeferino Demétrio Costi, em Passo Fundo, a 297 quilômetros de Porto Alegre, virou um prazer. Todas as semanas os alunos esperam ansiosos a hora de virar pesquisadores de campo. A responsável pelo feito é a professora Ledy Haubert, autora do projeto Localizando Nossa Cidade. "Estabeleci como objetivo desenvolver a capacidade de observar o que ocorre à nossa volta", afirma ela. "Conhecendo a organização do bairro, as crianças aprendem conteúdos de várias disciplinas."

A primeira tarefa é aprimorar as noções de espaço. Cada aluno descreve quem se senta ao seu lado, indica a posição do quadro de giz, da televisão e da mesa da professora. "Só quando todos dominam esses conceitos partimos para a rua", explica Ledy. No primeiro passeio, a orientação da professora é anotar tudo o que está à volta. Os relatórios são discutidos na sala de aula.

O passo seguinte é desenhar um mapa do quarteirão. Toda semana, uma nova volta pelo bairro. Ledy prepara uma lista com as tarefas a cumprir. "Fazemos de quatro a cinco mapas individuais e quando percebo que a classe atingiu um nível parecido de compreensão do espaço partimos para o mapa geral, que orienta a montagem de uma maquete", conta.

Durante todo o ano, pessoas de fora da escola são chamadas para palestras. Quando acrescentam as placas de trânsito na maquete, por exemplo, as crianças têm aula com um guarda e ao montar o hospital e o posto de saúde, com uma enfermeira, explica Ledy.

O tempo todo os alunos são estimulados a comparar as condições de vida no entorno da escola, que fica na região central de Passo Fundo, com a dos bairros onde moram. Surgem questionamentos sobre a ausência de transporte público, de asfalto nas ruas, de hospitais e das redes de água e luz. As atividades se estendem de março a dezembro e os resultados são apresentados aos pais, professores e toda a comunidade do Serviço Social da Indústria, o Sesi, que mantém a escola em parceria com a prefeitura. "O melhor de tudo é que a gurizada adora o trabalho e nunca falta às aulas", comemora a diretora, Maribel Tessaro.

Evite que sua aula vire turismo 

Certifique-se de que a atividade fora da escola não vai se transformar num simples passeio

? Nunca faça passeios aleatórios. Escolha locais que tenham importância para o conteúdo que você quer ensinar.

? Elabore uma lista de metas que devem ser cumpridas em cada exploração do bairro ou da cidade. Ela serve de roteiro para orientar a observação dos alunos.

? Peça que todos escrevam relatórios sobre o que foi observado. A necessidade de registrar tudo o que observa evita que a criança desvie a atenção do objetivo principal.

? Aproveite os dados coletados durante o passeio e faça a garotada produzir redações nas aulas de Língua Portuguesa, tornando a atividade ainda mais interdisciplinar.

? Assuma o papel de orientador, chamando a atenção para detalhes, como a sinalização de trânsito e as redes de água e luz.

Quer saber mais?

Colégio Sagrada Família, R. Sete de Setembro, 915, CEP 89010-201, Blumenau, SC, tel. (47) 326-0232/0288, fax (47) 326-0959, e-mail: diretoria.sagrada@zaz.com.br

Escola Estadual Aline Picheth, R. Eurípedes Garcez do Nascimento, 921, CEP 80540-280, Curitiba, PR, tel. (41) 252-3412

Escola Municipal de Ensino Fundamental Zeferino Demétrio Costi - Sesi, R. Independência, 380, CEP 99010-040, Passo Fundo, RS, tel. (54) 311-4611 

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