Novo Hamburgo, tempo bom, 19ºC

Alunos de 4ª série pesquisaram e comprovaram: a previsão do tempo, nesta cidade gaúcha, está certa em 91% dos dias

POR:
Ricardo Falzetta
A professora Jandira Petry, num belo dia de sol do frio inverno gaúcho: tempo bom nas aulas de Geografia
Foto: Tamires Kopp

Estudar o clima por meio de uma análise da previsão do tempo é lance de quem faz a diferença na aprendizagem dos alunos. Ainda mais quando se trata de uma turma de 4ª série. Jandira Petry, Educadora Nota 10 do Prêmio Victor Civita de 2006, deu esse passo no frio inverno gaúcho de 2005.Naquele ano, Jandira propôs aos seus alunos da EMEF Presidente Rodrigues Alves, em Novo Hamburgo, a 30 quilômetros de Porto Alegre, que colocassem à prova o quadro sobre o tempo publicado diariamente num dos jornais locais."Todo mundo diz que a previsão do tempo sempre erra. Será que é verdade?", indagou a professora. Para chegar ao veredicto, ela e os estudantes pesquisaram durante um mês, todos os dias, o que se passava na cidade. "Jandira propôs algo mais do que apenas identificar aspectos genéricos. Ela desenvolveu fundamentos para uma correta noção de tempo e clima", observa Sueli Angelo Furlan, da Universidade de São Paulo, especialista em formação de professores e selecionadora do Prêmio Victor Civita (leia mais no quadro).

O resultado surpreendeu. Diferentemente do que dita o senso comum, a previsão do tempo em Novo Hamburgo é, sim,muito confiável. A porcentagem de acerto no período analisado foi de 91%. Já o interesse dos alunos pelo tema bateu nos 100%. A idéia de Jandira surgiu quando ela percebeu que, no livro didático, o capítulo sobre o clima do Rio Grande do Sul trazia pouca informação. "Dizia apenas que temos um clima subtropical, mas nós observamos que a variação nas condições do tempo, sobretudo no inverno, é grande", explica. "Com o projeto, trabalhamos a metodologia de pesquisa e conseguimos aliar o estudo do clima com a prática da leitura de jornal, a análise crítica das informações, o desenvolvimento de conceitos matemáticos e o uso da informática."

Olha lá para cima!

Lançado o desafio, a professora Jandira estabeleceu algumas regras.Todos os dias, a turma começaria a aula com uma análise de dados e com observações feitas pelos próprios estudantes. O objetivo era montar um gráfico com a variação da temperatura e tabular erros e acertos da previsão durante um período predeterminado: de 21 de junho (início do inverno) a 21 de julho.

A primeira tarefa diária ficou a cargo de Jandira. Às 7 da manhã, a caminho da escola, ela passava por um dos termômetros de rua da cidade e anotava a temperatura."Em geral, era sempre muito baixa, mas numa semana chegamos a registrar temperaturas de 3º a 19º C", lembra. Os alunos, por sua vez, tinham a responsabilidade de, ao longo da manhã, observar o que percebiam no céu: nuvens, vento, frio, calor, névoa, chuva, umidade. Tudo devia ser registrado para relatar em sala de aula.

Na escola, logo no início das atividades, às 13 horas, a turma lia,em duplas, a previsão do tempo nas páginas do NH, jornal local que, graças a uma parceria com a prefeitura, é distribuído gratuitamente para a rede municipal de ensino. O quadro com as informações meteorológicas, depois de consultado, era recortado e colado no caderno. Na seqüência, Jandira conduzia uma conversa sobre as informações apresentadas e o que era possível observar naquele dia. Então, perguntava: as previsões batem? A temperatura variou muito de um dia para o outro? Houve alguma mudança radical no período?

Ao término das discussões, cada aluno escrevia um comentário sobre o dia, registrava numa tabela a temperatura anotada por Jandira e alimentava um gráfico de barras para mostrar visualmente a variação desse dado durante o período da pesquisa. Em outra página de controle, as crianças tabulavam a conclusão do dia: a previsão acertou totalmente, parcialmente ou errou.Para completar a apuração das informações, reportagens sobre o clima também eram lidas e afixadas no mural.

Finalmente, um dado extra era apresentado e analisado graças ao aluno Luan, que fez a pluviometria do período. Para medir, ele improvisou com uma garrafa PET cortada ao meio e uma régua. Luan instalou o "equipamento" nos fundos de sua casa e, todos os dias em que chovia, anotava o número.Concluída a pesquisa, ele registrou 55 milímetros de chuva. "Apesar de a garrafa não ser exatamente confiável, a informação ficou muito próxima da verdadeira", comenta Jandira.

Em paralelo às atividades de sala de aula, a professora contou com a parceria da colega Luciane Gorette Severo, responsável pelo laboratório de informática.No computador, a garotada acessou sites com dados meteorológicos, como o da Defesa Civil do Rio Grande do Sul (www.defesa civil.rs.gov.br), e aprendeu a tratar os dados em planilhas eletrônicas,montando gráficos e fazendo cálculos de média e porcentagem.

Virou notícia

Ao fim do projeto, a turma montou uma seqüência de slides em Power- Point para exibir na Feira Multicultural da escola."Resolvi então mandar um e-mail para o professor Eugênio Hackbart, meteorologista chefe da Metsul, empresa que fornece a previsão do tempo para o jornal", conta Jandira. A pronta resposta de Hackbart deixou todos muito felizes." Ele elogiou nossa pesquisa, pediu uma cópia, mostrou-a a alguns colegas e comentou os resultados com o pessoal da redação", relata a professora.Nos dias seguintes, a turma recebeu a visita da reportagem e, na leitura da próxima aula, todos foram citados na página que durante um mês fora objeto de suas investigações." A auto-estima da criançada foi parar nas alturas!", orgulhase Jandira.

Com a repercussão da notícia, os estudantes foram convidados a apresentar o trabalho em várias outras feiras escolares da cidade. Jandira e Luciane, por sua vez, mostraram o projeto num curso de formação de professores e nos fóruns de Educação do município, organizados pela prefeitura.

O projeto, em seis etapas

1. Que frrriiio!!!
Durante quatro semanas, no caminho para a escola, Jandira anotou, às 7 horas, a temperatura informada por um dos termômetros de rua de Novo Hamburgo. O dado serviu de base para um estudo sobre a variação climática, que costuma ser intensa durante o inverno gaúcho.

2. O céu do dia
Como está o tempo hoje? Todos os alunos passaram a observar o céu durante o dia e registraram suas percepções sobre frio e calor, vento, nebulosidade e umidade do ar.

3. No jornal
Em sala de aula, à tarde, os estudantes liam diariamente a previsão do tempo publicada no jornal local e comparavam os dados com as observações feitas em campo. Para a surpresa geral, a previsão acertou em 91% das vezes. E foi parcialmente correta nos demais dias. Os dados levantados alimentaram gráficos e tabelas e todos aprenderam conceitos matemáticos, como média e porcentagem.

4. No computador

Nas aulas de Informática, a turma usou planilhas eletrônicas para dar tratamento às informações e elaborou gráficos mais precisos. Além disso, foram feitas pesquisas sobre meteorologia na internet e montada uma apresentação para a Feira Multicultural da escola.

5. Em casa
Um dos dados meteorológicos acompanhados pela turma de Jandira foi o índice de chuvas. Em casa, o aluno Luan improvisou um pluviômetro com uma garrafa PET e uma régua e chegou bem próximo da informação oficial do período: 55 milímetros de chuva.

6. Quase famosos
Terminadas as atividades, Jandira fez contato com o meteorologista chefe da empresa que fornece a previsão para o jornal. O especialista ficou empolgado com a pesquisa, divulgou-a entre colegas e comentou os resultados na redação, que enviou um jornalista à escola e publicou uma reportagem sobre o projeto.

Estudar o clima analisando a previsão do tempo... 

? Permite colocar em prática o processo de pesquisa científica: hipótese, levantamento e análise de informações e conclusão.

? Fundamenta conceitos da geografia física, em geral pouco trabalhados em sala de aula.

Quem é Jandira 

Estudante de Pedagogia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jandira Petry leciona na rede pública desde 1990. Quando terminou o Ensino Médio, seu sonho era ser jornalista. Entrou na faculdade, fez boa parte do curso e chegou a trabalhar no jornal NH, o mesmo que anos depois faria parte do projeto que lhe rendeu o Prêmio Victor Civita. Vieram o casamento e a dedicação aos filhos - e Jandira decidiu se afastar do jornalismo. "Quando os meninos cresceram um pouco, resolvi trabalhar de novo e, num emprego de secretária no Senai, percebi que o ambiente escolar era o que realmente me atraía." Jandira voltou à escola e fez uma complementação para se formar no Magistério. Logo em seguida, iniciou sua carreira na sala de aula. Para ela, receber o prêmio foi a consagração dessa opção de vida. Desde outubro de 2006, ela e a escola continuam colhendo frutos. "Em dezembro, ganhamos um pluviômetro de verdade do professor Hackbart e estamos batalhando um espaço para a construção de uma estação meteorológica", conta. A turma da 4ª série que participou do projeto já saiu da EMEF, que oferece aulas apenas até a 5ª, mas Jandira continua o projeto com novos alunos. Afinal, prever o tempo em Novo Hamburgo faz todo o sentido.

PALAVRA DA CONSULTORA 

Para acertar ainda mais na previsão

A precisão na escolha do conteúdo vem sempre acompanhada da necessidade de mais envolvimento do professor com esse conteúdo. A opinião é da professora Sueli Angelo Furlan, da Universidade de São Paulo, selecionadora de Geografia do Prêmio Victor Civita. "Quando se adota um caminho complementar ao do livro didático, que em geral não propõe procedimentos metodológicos como o seguido por Jandira, é essencial pesquisar e planejar com muito detalhamento tudo o que se pretende fazer", comenta a educadora. Para ela, em algumas etapas do trabalho, Jandira apostou na intuição. "Mas ela poderia ter ido mais longe se tivesse, por exemplo, estruturado uma entrevista com o professor Eugênio Hackbart, em vez de fazer somente um contato", diz. "Isso não tira o mérito de ter realizado com a turma uma observação empírica estruturada, que é a base de muitos procedimentos atuais adotados na previsão do tempo feita com seriedade", explica Sueli. A consultora deixa ainda uma sugestão: observar a influência do tempo nos ritmos do cotidiano é um estudo bastante enriquecedor, que pode ser proposto com questões do tipo: por que o ser humano climatiza o shopping center com ar-condicionado?

Quer saber mais?

CONTATOS
EMEF Presidente Rodrigues Alves
, R. Taquari, 494, 93530-530, Novo Hamburgo, RS, tel. (51) 3595-9714

Jandira Petry, janda@sinos.net

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias