Desenhar hoje para ler mapas no futuro

Crianças que desenham desenvolvem referência e orientação espacial, requisitos básicos para o futuro estudo da cartografia

POR:
Patrícia Negrão

Explicar a um amigo o melhor caminho para chegar a um determinado endereço, para muita gente, não é nada fácil. Tentar desenhar isso em um papel, então, nem se fala. Até mesmo recorrer a um mapa no qual as ruas estão simbolizadas pode ser complicado para algumas pessoas. Isso acontece com quem não foi estimulado a desenvolver a linguagem gráfica. Na escola, os desenhos normalmente são mais valorizados nas aulas de Artes, como forma de expressão. Nesse tipo de trabalho, no entanto, as crianças deixam claras as primeiras noções de localização e proporção, que não são consideradas. E aí está uma falha apontada por estudiosos da Geografia.

"Ao desenhar, a criança e o jovem representam seu modo de pensar o espaço", afirma Rosângela Doin de Almeida, professora da Universidade Estadual Paulista em Rio Claro (SP). E continua: "O desenho de uma criança não é só a cópia de objetos, mas a interpretação do real. O mapa também é o recorte de uma realidade". Alunos que são incentivados a desenhar desenvolvem referência e orientação espacial, requisitos fundamentais para o entendimento de mapas.

De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), uma das situações ideais para o estudo da Geografia é a leitura de paisagens, como os arredores da escola. "As crianças têm de ser mapeadoras do que está à sua volta para entender depois a cartografia", explica Tomoko Iyda Paganelli, geógrafa da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ).

"Ao abandonar o desenho e, anos depois, introduzir os mapas, a escola dá um salto e deixa um vazio", constata a consultora de Geografia Sueli Furlan, de São Paulo. Para ela, as ferramentas necessárias para o estudo da cartografia não são ensinadas. "O desenho é um registro que merece reflexão. É preciso que o professor crie o hábito de observar essa representação espacial produzida pelo aluno", sugere.

Quatro aspectos para levar em conta

De acordo com Rosângela Doin de Almeida e Maria Inez Moura Fazzini Biondi, há quatro aspectos a serem desenvolvidos com relação ao desenho das crianças. Eles serão úteis no futuro para o estudo da cartografia. Veja como aprimorar a habilidade na sua turma:

Localização

Avalie como os alunos desenham o caminho de casa para a escola, por exemplo. Como posicionam a casa em relação à rua? No mapa, os elementos se relacionam com base nas coordenadas geográficas latitude e longitude. 

Utilize o próprio desenho da criança como um instrumento de ensino. Faça perguntas do tipo: o que há à direita ou à esquerda da sua casa? Se ela já tem essas noções, é possível falar dos pontos cardeais norte, sul, leste e oeste. 

Peça que a criança observe novamente o local retratado e repita o mesmo desenho, completando as informações que ficaram faltando.

Proporção ou escala 

Verifique se existe proporção entre os elementos representados pelo aluno e entre estes e os reais. Se o desenho for de uma rua, por exemplo, os carros são menores que uma casa? No mapa, apesar de as localidades estarem reduzidas, há proporção entre os elementos.
Para que a criança perceba a proporção de tamanho entre os diferentes elementos que a cercam, sugira que utilize palmos ou passos como unidade de medida. Qual o tamanho de um quarteirão ou de um carro? Ao medir ambos com os passos, ela terá noção do tamanho a ser dado no desenho.

Projeção ou perspectiva

Analise de qual ponto de vista as casas foram desenhadas. De frente? Do alto? No mapa, são usadas projeções cartográficas metodologia que representa a superfície da Terras, sempre de cima. 

Faça perguntas ao aluno para estimulá-lo a perceber quais elementos estão mais à frente ou mais longe. No início do Ensino Fundamental a garotada não consegue desenhar em perspectiva.

Simbologia

Avalie se a criança tem habilidade para estabelecer em seus desenhos traços que representam elementos que ela observa à sua volta. No mapa há uma série de convenções para indicar como representar rios, estradas, cidades etc. 

Os alunos costumam fazer desenhos parecidos. Por exemplo, casas com um triângulo sobre um retângulo. Induza-os a prestar atenção nas construções da rua onde moram. Com o tempo eles percebem que elas não são todas iguais. Umas são maiores, outras menores. E até que o número de janelas é diferente.

Leitura dos arredores 

Um carro ou uma rua com casas. Qualquer desenho pode apresentar recursos suficientes para que você entenda como seu aluno está representando o mundo. Se ele faz um carrinho enorme em uma rua pequena ou uma igreja menor do que uma casa, é sinal de que ainda não tem noção de proporção.

Muitos professores pedem que os estudantes retratem a rua onde moram ou o trajeto de casa à escola. "Esse material só tem valor se for analisado com critério e se servir, depois, para a introdução de novos conceitos", enfatiza a professora de Geografia Maria Inez Moura Fazzini Biondi, de Ilhabela, São Paulo. Ela usou durante mais de 15 anos os desenhos de seus alunos com essa preocupação. E, neste ano, defendeu dissertação de mestrado sobre o tema na Universidade de São Paulo. Os desenhos ao lado fazem parte de seu trabalho.

Maria Inez passeava com os alunos pelos arredores da Escola Estadual Prefeito Leonardo Reale sugerindo várias possibilidades de representação gráfica. "Num primeiro momento, a garotada retratava a paisagem vista", explica. Com o tempo, a turma adquiriu capacidade de abstração. "Os alunos acrescentaram em seus trabalhos imagens que não faziam parte das paisagens locais."

Quer saber mais?

Rosângela Doin de Almeida, e-mail: rdoin@rc.unesp.br

BIBLIOGRAFIA
Do Desenho ao Mapa: Indicação Cartográfica na Escola,
Rosângela Doin de Almeida, 120 págs., Ed. Contexto, tel. (11) 3832-5838, 19,90 reais

O Espaço Geográfico: Ensino e Representação, Elza Passini e Rosângela Doin de Almeida, 90 pág., Ed. Contexto, 16 reais

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