Geografia regional: por dentro do bairro de Guaianazes

Educadora Nota 10 usa a interpretação de mapas e gráficos para classes de 5ª e 7ª séries refletirem sobre o lugar onde vivem

POR:
Tatiana Cardeal, Débora Didonê
DONOS DO ESPAÇO: Luzia fez a turma ir a campo para conhecer sua região e ganhou o Prêmio Victor Civita

Pelas estatísticas oficiais, o bairro de Guaianases, na Zona Leste de São Paulo, tem todas as características de um autêntico bolsão de miséria, local em que se concentram graves problemas econômicos e sociais. Lar de 286 mil moradores, espremidos numa área de 18 quilômetros quadrados - uma densidade média de 16 mil habitantes por quilômetro quadrado, quase o triplo da média da cidade -, a região ostenta índices de escolarização, renda e expectativa de vida semelhantes aos de países africanos muito pobres, como Ruanda e Nigéria. Mas a frieza dos números esconde outras realidades. Com a experiência de 20 anos como moradora do bairro, a professora de Geografia Luzia Feitosa Jabra enxergava um Guaianases diferente. "Eu sentia que, apesar de todos esses problemas, os moradores estabelecem um vínculo afetivo com o lugar. Queria que meus alunos também pudessem compreender, com mais clareza e profundidade, as múltiplas faces da região onde vivem", explica. Com essa idéia em mente, Luzia criou um projeto didático de Geografia para as turmas de 5a e 7a séries da EMEF Professor João de Lima Paiva. O trabalho uniu atividades do ensino da disciplina - a interpretação de mapas e gráficos - ao contato direto com a realidade local, na forma de entrevistas com moradores, pesquisas fotográficas e exploração do território.

Planejamento flexível 

A iniciativa foi tão bem-sucedida que rendeu uma palestra na Universidade de São Paulo (USP), ministrada pelos estudantes. Para Luzia, o reconhecimento veio com o Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 - ela estava entre os finalistas do ano passado. A princípio, o projeto didático se destinava apenas à turma da 5a série, já que o estudo dos conceitos de lugar e paisagem é específico dessa fase (veja a definição dos dois termos no projeto didático da página 65). Mas, ao se darem conta do que os colegas mais novos aprendiam, as classes do 8º ano pediram para participar também. "Aliei a proposta de conhecer a realidade local a conteúdos próprios dessa série: a análise de dados econômicos e do desenvolvimento da América Latina", diz a professora.

Em termos práticos, o trabalho começou com um levantamento do que os alunos sabiam sobre o bairro. Em seguida, Luzia organizou uma seqüência para ampliar a reflexão sobre o lugar: apresentou à turma uma planta pictórica dos distritos de Guaianases e Lajeado - um cartum na forma de mapa sem escala, termos técnicos ou legendas, que serviu para a moçada localizar a rua da escola e outros lugares conhecidos, como o mercado municipal e a estação de trem. Enquanto faziam a análise do desenho, alguns jovens perceberam que a rua onde moram não estava ali e que a única escola descrita era a primeira a ser construída no bairro - a deles, mais recente, não aparecia. Para Luzia, o exercício sinalizou o interesse dos estudantes pela análise cartográfica e sua afetividade pela região. Com esse repertório, a classe estava quase pronta para ir a campo. Faltava confeccionar fichas para roteirizar e registrar os dados coletados na caminhada com os professores pelo bairro.

O trajeto por Lajeado e Guaianases não foi um mero passeio. Ficou combinado que a turma do 6º ano tiraria fotos das características mais importantes do bairro. As classes de 8º ano, ao mesmo tempo, gravariam o material em vídeo. Em entrevistas com antigos moradores, os alunos recuperaram detalhes da imigração italiana e da chegada, em 1940, de paranaenses e nordestinos. Entenderam que as casas construídas sem planejamento eram ameaçadas pelas enxurradas por se situarem em encostas e à beira do Córrego Itaquera. Anotavam o que havia no caminho percorrido: área residencial ou comercial, muita ou pouca gente, vegetação ou agressão ao meio ambiente, construções antigas ou recentes. Também davam sugestões de melhorias. "Eles diziam o que faltava, se o lugar poderia ser mais limpo ou arborizado. Foi o momento da observação individual, do entendimento de como o bairro foi formado e das alternativas para o seu futuro", explica a Educadora Nota 10.

De volta à sala, Luzia usou livros didáticos para aprofundar as discussões sobre infra-estrutura da região e a relação centro-periferia. Ainda apresentou gráficos e mapas "de verdade" para os alunos analisarem dados socioambientais (escolaridade, mortalidade infantil, índice de desenvolvimento humano) e compararem o bairro em que vivem com outros de formação diferente. "Ficou claro que as ruas retas da planta do Ipiranga correspondiam a um bairro planejado, ao contrário de Guaianases e Lajeado, que tiveram crescimento desordenado", destaca. Trabalhando o material colhido durante a caminhada, ela sugeriu que os jovens pesquisassem e levassem para a escola imagens das primeiras construções do bairro, como forma de entender como a paisagem urbana local foi constituída. A compilação dos olhares dos jovens se concretizou num ensaio fotográfico, na 5a série, e num filme, na 7a - produtos que registram a rica história do bairro e abrem portas para novos estudos e possibilidades de mudança. Como diz Luzia, esses jovens se consideram agora responsáveis pelo seu lugar. Um dos depoimentos de alunos na avaliação final comprova as palavras dela: "Sabendo dos problemas que nosso bairro enfrenta, no futuro teremos como agir sobre esses fatos e modificá-los para melhor". 

Quem é Luzia

Luzia Feitosa Jabra, paulistana, 43 anos, mudou-se aos 17 para Guaianases, onde concluiu o Ensino Médio e começou a lecionar como professora da 4a série. "Sempre percebi que a comunidade era muito trabalhadora, mas não se considerava importante por morar num bairro pobre", afirma. Para ela, é na escola que as novas gerações têm chance de pensar nos pontos positivos e negativos do lugar em que vivem e se sentir mobilizadas para mudar o que for necessário. Embora não more mais em Guaianases, é lá que Luzia passa boa parte do dia, ainda atuando como educadora. No ano passado, a coordenadoria de ensino da região resolveu homenageá-la com um troféu pelo projeto sobre o bairro - que rodou escolas da rede como exemplo de trabalho bem-sucedido e rendeu a Luzia o convite para participar de um grupo de referência na Secretaria Municipal de Educação para orientar professores na leitura e escrita na área de Geografia. Casada, Luzia tem três filhos: um de 25, que é administrador, uma de 23, que estuda Comércio Exterior, e uma de 18, que quer fazer Jornalismo.

Palavra da especialista

Para Sueli Ângelo Furlan, selecionadora dos trabalhos de Geografia do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, o grande mérito do projeto de Luzia é ampliar o conhecimento que os alunos têm sobre o espaço que habitam e discutir a participação deles nesse contexto. "Ao entrevistarem moradores mais velhos do bairro, os jovens descobriram que um dia seu rio foi limpo e serviu como fonte de alimento. Além de iluminarem o passado, as pesquisas ajudaram a turma a enxergar com mais complexidade o papel de cada um no cotidiano do bairro", explica. Sueli destaca ainda que a avaliação de aprendizagem aparece em muitos momentos, com a professora analisando as conquistas e as necessidades de cada estudante. "O aprendizado ficou nítido no seminário que eles apresentaram na USP. Mesmo com uma linguagem própria da faixa etária, as crianças entendiam sobre o que falavam", afirma.

Projeto didático

O lugar em que se vive

OBJETIVOS
? Interpretar e comparar mapas, gráficos, dados sociais e textos
históricos.
? Desenvolver a capacidade de observar e registrar informações sociais e ambientais.

CONTEÚDOS
? Representação e modificações na paisagem do bairro.
? O lugar e sua localização no espaço geográfico.
? Plantas e mapas de bairro: escalas e legendas.
? Gráficos, tabelas e dados espaciais.

ANOS 6º e 7º.

TEMPO ESTIMADO 12 aulas.

MATERIAL NECESSÁRIO
Livro de pesquisa, guia de ruas, mapa pictórico, fotografias antigas e recentes do bairro, cartolina branca, caneta hidrocor e câmera fotográfica.

DESENVOLVIMENTO
? 1ª ETAPA
Apresente o projeto, os materiais que serão usados e o resultado esperado.

Pergunte o que a turma conhece sobre o bairro da escola. Mostre uma planta pictórica (um mapa sem legendas ou termos técnicos, mas com pontos de referência) e fotografias da região. Exponha com o retroprojetor frases de pessoas de outros povos e culturas que falem do seu "lugar", o espaço em que vivem e realizam atividades cotidianas. Questione os alunos sobre sua rotina no lugar em que moram. Para apresentar o conceito de paisagem (extensão de território com elementos naturais e construídos), peça que os estudantes comparem imagens de diferentes bairros. Sugira que eles reúnam fotos antigas e atuais do bairro. Indique livros, sites e bancos de imagens.

? 2ª ETAPA
Com as fotos reunidas, pergunte que elementos há nas imagens velhas e nas novas, qual a época e o lugar de cada cena e que mudanças são perceptíveis. Para desenvolver o conceito de planejamento urbano, proponha a comparação entre o mapa de um bairro com ocupação planejada e de um que foi ocupado informalmente. Acrescente dados socioambientais de atlas, livros e sites.

? 3ª ETAPA
Proponha que fotografem a região. Construa com eles um pré-roteiro dos locais retratados e elabore uma pauta de entrevistas com moradores sobre sua relação com o lugar.

PRODUTO FINAL
? Exposição fotográfica.
A mostra deve contar a história do bairro, dificuldades e alegrias dos moradores e sua percepção do lugar. Peça que as turmas escrevam legendas explicativas sob as imagens coladas em papel kraft ou cartolina.

AVALIAÇÃO
Registre o aprendizado de cada aluno - se usam legendas, se compreendem a planta como a visão vertical de uma área, como interpretam imagens, se adotam o repertório geográfico. Organize momentos coletivos de discussão após as aulas.

CONSULTORIA Sueli Ângelo Furlan, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10.

Quer saber mais?

Contatos
EMEF Prof. João de Lima Paiva, R. Getulina, 278, 08450-020, São Paulo, SP, tel. (11) 6557-1808 

Sueli Ângelo Furlan, suelifurlan@uol.com.br

Internet
Em www.ibge.gov.br, as principais estatísticas e informações de todas as cidades do país

Em atlasambiental.prefeitura.sp.gov.br, dados físicos e ambientais do município de São Paulo 

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