Como a revolução islâmica no Irã se relaciona com as eleições de 2009?

ORIENTE MÉDIO

POR:
Paula Sato
Animação Persépolis conta a história real de uma iraniana que vivenciou a Revolução Islâmica. Foto: Divulgação
Animação Persépolis conta a história real 
de uma mulher iraniana que vivenciou a 
Revolução Islâmica. Foto: Divulgação

Até 1979, o Irã era uma monarquia, governada por um xá em um regime muito centralizador, autoritário e alinhado com o ocidente. Na década de 1970, o país se desenvolveu economicamente, mas, em contrapartida, teve sérios problemas de corrupção, falha nos serviços públicos e aumento da desigualdade social. Além disso, uma grande parcela da população se sentia incomodada porque o governo não era conservador islâmico. As manifestações contra o governante costumavam ser reprimidas fortemente pela polícia política. Basta lembrar que, em 1964, aiatolá Khomeini, líder religioso que se opunha ao Xá, foi preso e exilado. Todos esses elementos abriram espaço para que, em 1978, acontecesse o maior protesto realizado no Irã. Cerca de dois milhões de pessoas foram às ruas mostrar seu descontentamento com o monarca, que na época era o Xá Reza Pahlevi. Essas e outras revoltas contra o regime o forçaram a deixar o país no início de 1979. Na sequência, aiatolá Khomeini retornou ao Irã e instituiu uma República Islâmica. Ele se tornou o líder espiritual da nação iraniana e convocou eleições para escolher um presidente.

"Em um primeiro momento, parece que a revolução estava atendendo aos anseios da população por mais liberdade, mas, na verdade, o novo governo trouxe um radicalismo religioso maior. No fim, a vontade do povo por mudanças acabou levando o país a um novo regime autoritário", diz Gian Carlos Ferreira, professor de Direito Internacional Público da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Com a República Islâmica, o Irã começou a seguir as regras do Corão à risca. As mulheres foram obrigadas a cobrir a cabeça, não se podia usar roupas ocidentais, ouvir músicas estrangeiras ou consumir álcool. "Para o ocidente, a revolução significou um isolamento. O Irã usou a força do petróleo para defender seus interesses. Apesar do regime não ser tão rígido quanto o de outros países, é uma grande oposição ao mundo ocidental", afirma o professor.

Apesar de todos os problemas, a população se divide entre os que apoiam o regime e os que querem uma modernização. Em 1997, foi eleito um presidente reformista, Mohammad Khatami, mas seu governo não foi muito bem-sucedido e, em 2005, as urnas levaram ao poder Mahmoud Ahmadinejad, membro de um partido conservador. Porém, em 2009, Ahmadinejad ganhou a eleição sobre o candidato reformista em um pleito suspeito de fraude. Isso levou os iranianos às ruas para pedir uma nova votação. Apesar de não haver números oficiais de participantes, esse foi considerado por analistas o segundo maior protesto na história do país, atrás apenas da grande passeata de 1978. "Acredito que esses distúrbios tenham a ver com o processo natural de evolução da sociedade. Por mais censura que haja, hoje os jovens têm acesso à informação e sabem como é um modelo de governo mais flexível. A partir de então, o povo começa a contestar o modelo estabelecido", analisa Gian Carlos Ferreira. Apesar dessa vontade de mudanças, o professor acredita que o processo de modernização do Irã será lento. "Tenho certeza de que o presidente vai ser confirmado como reeleito. Mas, nos próximos quatro anos, a oposição pode ganhar força. E como nas eleições seguintes os olhos do mundo estarão completamente voltados para lá, é quase certo que não haverá fraude. Assim, poderá acontecer uma renovação natural", aposta Gian Carlos Ferreira.

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