De cabeça erguida

 

POR:
Roberta Bencini
O professor observa sua turma: entre mapas, maquetes e embalagens, alunos multirrepetentes voltam a se interessar pela escola Foto: Marlos Bakker/Nilton Ricardo
O professor observa sua turma: entre mapas, maquetes e embalagens, alunos multirrepetentes voltam a se interessar pela escola Foto: Marlos Bakker/Nilton Ricardo

Foi assim, cheio de orgulho, que o professor de Geografia Eduardo Maia concluiu o ano letivo de 2000. Em primeiro lugar, por ter vencido o desafio de ensinar uma classe de alunos multirrepetentes. Em segundo, por receber o reconhecimento de seu trabalho pelas mãos do ministro da Educação, Paulo Renato Souza, que lhe entregou o Prêmio Victor Civita ? Professor Nota 10. "Poucas pessoas acreditaram que eu daria conta", afirma Eduardo, que enxergou na dificuldade um estímulo para sua prática.

As crianças, vindas da periferia de Niterói, eram descrentes e desanimadas. Reunidas em uma turma de 5ª série, formavam uma imagem de desolação. "Vencer a baixa auto-estima era a primeira meta." A segunda era mostrar um vasto mundo para pessoas que nunca haviam saído da cidade, no estado do Rio, e conheciam pouco mais que o bairro onde vivem.

Em resumo, um daqueles momentos que exigem superação. Eduardo precisava driblar uma dificuldade comum à maioria dos colegas: aplicar a teoria acadêmica com dinamismo e criatividade. "Ninguém sai da universidade pronto", acredita ele. "O que nos forma são a experiência e a avaliação contínua de desempenho." Graduado há cinco anos, ele não deixa de ler e estudar Geografia, sua matéria preferida. E se atualiza participando de encontros da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB). É no dia-a-dia em sala de aula, porém, que ele se aprimora.

O mundo dentro de casa

"Vocês sabiam que temos o mundo dentro de casa?" A pergunta foi o ponto de partida de uma pesquisa, na qual foram levantadas as marcas de televisores e rádios. Em seguida, os países produtores dos eletrodomésticos foram localizados no mapa terrestre. Com o crescente interesse da classe, Eduardo percebeu que estava no caminho certo e elaborou com cuidado a segunda atividade, que lhe rendem o prêmio.

O material didático dessa vez eram rótulos de embalagens. As crianças localizaram as indústrias do país, a concentração das fábricas alimentícias nas regiões Sul e Sudeste e conferiram onde estão as oportunidades de trabalho. "A Geografia pode ser um instrumento poderoso de conscientização e cidadania", diz o mestre. "Basta abrir mão do tradicionalismo." Deu certo. Venceram o professor, ao superar um desafio em sua carreira, e os alunos, que recuperaram o interesse em estudar. "Dar aulas em escolas públicas é muito gratificante. O Prêmio Victor Civita desmitifica a lenda de que não somos bons." Eduardo sempre estudou em colégios particulares e fez o Ensino Superior numa universidade pública. "A sociedade custeou minha formação", afirma. "Tenho o dever de retribuir trabalhando com os menos favorecidos."

Quer saber mais?

Eduardo José Pereira Maia, R. Antonio Fernandes, 3, apto. 302, CEP 24240-270, Niterói, RJ, tel. (0_ _21) 711-6096, e-mail: maiaprof@uol.com.br

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