As várias voltas que o mundo dá

Conhecimentos sobre os movimentos da Terra ajudam a entender as estações do ano

POR:
Anna Rachel Ferreira
A docente demonstrou a órbita terrestre com uma borracha presa a um barbante. Gabriel Gianordoli
A docente demonstrou a órbita terrestre com uma borracha presa a um barbante

O céu é cheio de mistérios, e exerce uma forte atração sobre nós. Por isso, a Astronomia sempre chama a atenção da garotada. "Quando se apresentam informações novas sobre os astros, os alunos ficam superinteressados", diz Carlos Kantor, professor de Física do Centro Universitário Fundação Santo André (FSA). Mas, se o aprendizado não for bem conduzido, pode levar a uma mistificação e a um distanciamento dos fenômenos, em vez da compreensão de que somos diretamente afetados pelo que ocorre lá em cima. Para evitar isso, o tema pode ser trabalhado com o uso de modelos, com as informações acrescidas de maneira gradativa para que a turma assimile os conteúdos. Esses cuidados estiveram presentes na abordagem feita por Marlene Lozetti dos Santos. Ela promoveu muito diálogo e a produção de representações da rotação e da translação da Terra com o 8º ano da EE Teófilo de Andrade, em São João da Boa Vista, a 223 quilômetros de São Paulo.

Com o intuito de introduzir o assunto, a docente pediu que todos levassem piões para a sala. Ela chamou a atenção para o ferro que transpassa o brinquedo ao meio e explicou que funciona como eixo de rotação, ou seja, é em relação a ele que o pião gira. Em seguida, todos rodaram os seus brinquedos e observaram aspectos como o que faz com que ele continue girando, o que acontece antes de ele parar e se algo muda com o eixo enquanto ele gira. A classe percebeu que quando o pião começa a parar, bamboleia até cair e continua girando em torno de si mesmo.

Marlene explicou, então, por que a Terra não para de girar. O atrito do brinquedo com o solo e o ar faz com que ele desacelere gradativamente. Sem isso, o pião continuaria em movimento, como acontece com o planeta. Ela também esclareceu que a Terra tem um eixo imaginário e permanece em velocidade constante. "É importante estabelecer semelhanças e diferenças claramente. Os alunos veem tantas imagens da Terra com um eixo desenhado que muitos passam a acreditar que ele existe fisicamente", comenta Gustavo Killner, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP).

Após a conversa, a classe registrou no caderno o que havia compreendido sobre a rotação. O próximo passo seria estudar a translação. Marlene questionou os adolescentes sobre a relação entre a duração do ano e o movimento que o planeta faz ao redor do Sol. "Uma volta completa dá um ano!", responderam. Então, ela forneceu uma bola de isopor e um espeto de churrasco para que eles demonstrassem como acreditavam ser essa trajetória. Um representou o Sol e o outro encaixou o espeto na Terra e a carregou, tentando reproduzir o fenômeno. Quem fazia o papel do Sol ficou no centro. O outro andava ao redor dele tentando girar o globo o tempo todo. "Eles acabavam se distanciando do Sol mostrando não conhecer a órbita", comenta a docente. Esse equívoco aponta para um problema conceitual recorrente entre a garotada, o de acreditar que a Terra se afasta muito do astro-rei no período do inverno e fica bem próxima dele no verão.

Para elucidar esse aspecto, a professora amarrou uma borracha em um barbante e o girou em volta de si mesma em várias direções. A docente fazia o papel do Sol e a borracha era a Terra. A cada mudança de rota, ela dizia que estava alterando a órbita do objeto, sem demonstrar a rotação, que é constante no planeta. Explicou, então, que a translação da Terra se mantém, em forma de uma elipse alongada de oeste a leste, ao redor do Sol.

Estamos todos inclinados

Na aula seguinte, a docente levou uma miniatura do globo terrestre e questionou: "Vocês veem algo de diferente entre esse globo e a bola de isopor que estávamos usando?". "Está meio torto", respondeu um dos estudantes. Então, ela explicou que o eixo da Terra, diferentemente do pião, é inclinado em relação ao seu plano de órbita. A turma mediu o ângulo de 23 graus que se forma entre a linha do Equador e a elíptica, nome dado à órbita do planeta. Com essa nova informação, o movimento foi refeito, utilizando o globo e um elemento novo, a lanterna, que ficaria no lugar do Sol, na sala escurecida. "Muda alguma coisa?", indagou a professora, orientando a sala a observar o modo como a luz se espalhava pelo globo. Todos constataram que a inclinação faz com que os raios solares se distribuam de maneira diferenciada pelo planeta. Se isso não acontecesse, a distribuição seria uniforme e não existiriam estações distintas em hemisférios opostos no mesmo período.

Seguindo as orientações, os alunos movimentaram o globo e conseguiram visualizar o equinócio - quando o período de claridade do dia e a noite têm a mesma duração, o que ocorre no primeiro dia do outono e da primavera. Viram, ainda, os chamados solstício de verão - dia claro mais longo do ano - e o solstício de inverno - dia claro mais curto do ano, em ambos os hemisférios. Como se vê na figura abaixo, que reproduz a atividade, eles concluíram que no Hemisfério Sul, onde está o Brasil, é verão quando a Terra está à direita do Sol, inverno quando ela está à esquerda, outono quando ela está passando do verão para o inverno e primavera quando passa do inverno para o verão. E a estação no Hemisfério Norte é oposta à que vivemos aqui.

A turma ficou com dúvida sobre a diferença entre o início do outono e da primavera e isso também foi explicado pelo movimento planetário. "No outono, os dias claros vão ficando cada vez mais curtos até chegar o inverno. Na primavera acontece o inverso, até a chegar o verão", disse Marlene. Para ajudar, você pode mostrar uma animação que reproduza o que ocorre no céu, como esta.

Há muitos aspectos a ser compreendidos dentro desse conteúdo. Por isso é imprescindível que a turma leia textos informativos para encontrar novas informações e consolidar o que está sendo estudado. Duas boas opções podem ser acessadas aqui e aqui.

Os alunos de Marlene resumiram e socializaram o que haviam aprendido. E, para finalizar, a professora pediu que todos pesquisassem na internet e em livros sobre os efeitos das estações nas várias regiões do planeta e preparassem um seminário. Os grupos usaram recursos como cartazes e vídeos para demonstrar suas descobertas. Uns trataram dos efeitos do clima na agricultura e outros mostraram as diferenças das estações no Brasil e no mundo. "Estudar Astronomia faz a gente se sentir pequenininho e dá sentido para várias coisas. Quero aprender ainda mais", resume o aluno Fernando Ohara, 14 anos.

A translação e as estações no Hemisfério Sul

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A translação e as estações no Hemisfério Sul. Gabriel Gianordoli

1 Observação do pião Peça que os alunos tragam piões para a sala e os girem, atentos à rotação do objeto, a o que faz com que ele se mantenha em movimento e a o que acontece quando ele começa a parar. Estabeleça comparações com o movimento do planeta.

2 A translação em você Amarre um objeto (uma borracha, por exemplo) a um barbante e o gire em torno de você. Explique a relação desse movimento com o que a Terra faz ao redor do Sol.

3 Estações representadas Apresente o globo terrestre e sua inclinação. Use uma lanterna para representar o Sol. Com o globo e a fonte de luz, represente os movimentos de rotação e translação. Peça que a turma observe a distribuição de luz pelo planeta e mostre as posições referentes a cada estação do ano.

4 Leitura e resumo Mostre um vídeo em que a turma visualize os movimentos da Terra e distribua textos para que todos busquem novas informações e estudem os conceitos abordados. Peça que todos sistematizem o que aprenderam.

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