Vamos jogar flag football, badminton e beisebol

Leve para a escola esportes que os alunos não conhecem ou só viram na televisão e na internet. As novidades ampliam o repertório deles e renovam a dinâmica das aulas

POR:
Fernanda Salla
Flag Football. Foto: Fernanda Preto
Flag Football É uma variação do futebol americano, mas com menos contato físico entre os jogadores. São formados dois times, com quatro a nove integrantes, cada um. O objetivo é fazer o maior número de pontos. Os jogadores prendem duas fitas (flags) na cintura com velcro. Quem está com a bola tem de fazê-la chegar até o fim do campo adversário com passes entre os colegas e correr para marcar gols, impedindo que os oponentes peguem uma das flags. Se isso ocorrer, a jogada é interrompida.

Você já se questionou por quê, em muitas escolas - quem sabe até na qual você leciona -, o futebol, o handebol, o basquete e o vôlei dominam a cena das aulas de Educação Física sem deixar espaço para outros jogos coletivos? A supremacia do que é chamado ironicamente de "quarteto fantástico" por alguns educadores é determinada pela história da disciplina, por um modo sedimentado de trabalhar (resultado de pensamentos como "se sempre foi assim, por que mudar?"), pelo espaço que alguns desses esportes ocupam na mídia e também pela popularidade no Brasil.

Se fora do ambiente escolar existem outras modalidades, mesmo que elas sejam desconhecidas da moçada, Marcos Garcia Neira, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), defende que elas não só podem como devem ser apresentadas, estudadas e vivenciadas na escola.

Isso não quer dizer abrir mão do que é considerado tradicional, mas ampliar o repertório dos estudantes, fazendo com que eles reconheçam a existência de diversos grupos culturais criadores de seus próprios esportes, danças, ginásticas, lutas, jogos e brincadeiras. "Em uma escola comprometida com a formação de identidades democráticas, é preciso ter contato também com outras práticas que não somente aquelas determinadas por uma classe social específica", diz Neira.

Como fazer isso? Nada de esperar a época das Olimpíadas ou outro momento especial. É claro que esses acontecimentos são excelentes disparadores para trabalhar o tema. Apesar disso, um bom planejamento, sustentado por muita pesquisa, é suficiente para proporcionar aos alunos algumas novidades durante as horas na quadra. Eles, inclusive, podem levar para a aula algumas informações. Foi exatamente isso o que aconteceu no Colégio São Luís, na capital paulista. O fato provocou mudanças na dinâmica das aulas, dando espaço ao beisebol, ao badminton e ao flag football (leia informações sobre eles nas fotos da reportagem). "Sempre trabalhamos os esportes ditos clássicos, mas os estudantes passaram a perguntar e a assistir a outros esportes e isso fez com que eu repensasse o conteúdo a ser trabalhado nas aulas", conta Fabio Oliani, coordenador e professor do 7º ano.

Adaptar o material, o tempo, as regras e o espaço para jogar

Badminton. Foto: Fernanda Preto
Badminton É semelhante ao tênis, mas usa-se uma peteca, em vez da bola. Pode ser disputado entre duas pessoas ou duplas (feminina, masculina ou mista). O objetivo é rebater a peteca em direção ao lado oposto da quadra para que ela caia no espaço do adversário e, assim, marcar pontos. É possível pontuar com saques também. Quem somar 21 ganha o game. Cada partida é composta de três games e vence o jogador ou a dupla que ganhar primeiro dois deles.
Beisebol. Foto: Fernanda Preto
Beisebol É disputado entre duas equipes, com nove jogadores, cada uma, que devem se revezar, basicamente, entre os arremessos de bola e as rebatidas com o taco. O objetivo é marcar mais pontos (também denominados corridas) que o time adversário no tempo de 9 innings (também chamados de entradas). Os pontos podem ser marcados entre as quatro bases ou quando o jogador consegue percorrer todas de uma só vez (o chamado home run).

Para definir as novidades que serão estudadas, você pode realizar várias investigações - por exemplo, conhecer o entorno da escola e procurar saber com a comunidade qual é o esporte da vez nas ruas e nos parques. Vale também descobrir a quais competições os alunos assistem na TV e na internet, estudar por conta própria ou ainda propor que a turma faça pesquisas, indicando alguns temas específicos. "Práticas típicas de países distantes, por exemplo, costumam despertar a curiosidade deles", diz Fábio D’Angelo, coordenador pedagógico do Instituto Esporte e Educação (IEE) e selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Nesse momento, você pode estar se questionando se é possível mesmo vivenciar o beisebol, o badminton e o flag football na escola. Como organizar a turma toda para jogar em duplas, no caso do badminton? É necessário ter material específico? Como adequar o espaço disponível de acordo com as quadras oficiais?

Como o objetivo não é formar jogadores profissionais nem organizar partidas seguindo as regras das federações, e sim proporcionar vivências e estudar a teoria relativa a cada um, algumas alterações são mais do que necessárias: são bem- vindas e interessantes para serem discutidas com a turma. Em geral, elas têm a ver com os aspectos a seguir:

- Material Na falta de bastões de beisebol, por exemplo, recorra ao material usado para jogar taco, uma brincadeira de rua tradicional. Se a escola não tem uma bola de flag football, outras de tamanho semelhante podem substituí-la. Para o badminton, uma peteca comum pode ser usada em vez da oficial.

- Tempo No período da aula regular, é impossível realizar partidas com a duração dos jogos oficiais de beisebol, por exemplo, que levam entre duas e três horas e meia. Reduza a duração modificando a dinâmica: um aluno arremessa a bola e outro rebate. Outra opção é você ser o lançador para que a turma, em fila, rebata. O mesmo vale para o badminton.

- Regras Restringir as jogadas de contato do flag football, por exemplo, permite evitar que alguém se machuque quando meninas e meninos jogam juntos.

- Espaço A área utilizada para jogar beisebol, por exemplo, é imensa e sem o formato das quadras escolares. Marcações no chão, respeitando o desenho oficial, resolvem a questão.

Além de tudo isso, lembre-se de que o esporte na escola é mais que apenas jogar, e também não se resume a participar de competições. Afinal, as crianças são capazes de organizar uma partida e criar estratégias sozinhas - não precisam da aula de Educação Física para isso - e esses nem são os objetivos da disciplina.

Cuide para que as novidades se transformem em aprendizagens efetivas, traçando um plano de trabalho amplo. "O educador tem de ter objetivos claros e metodologias consistentes para que a turma faça outras coisas, como refletir sobre os movimentos que cada esporte requer, estudar as origens deles, propor mudanças de regras e elaborar variações", diz João Freire, consultor do IEE.

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