Trajetória individual: o florescer de uma história

Alunos modificam o olhar sobre o entorno ao analisar a própria vida

POR:
Priscilla Cardoso
O florescer de uma história: alunos modificam o olhar sobre onde vivem ao enfocar a própria trajetória. Melissa Lagoa

De raízes protuberantes que sobem pelo caule, a árvore sapopemba emprestou seu nome a um dos distritos da Zona Leste de São Paulo - onde, no passado, se fazia presente de forma numerosa. Com o avançar das décadas, a vegetação tão característica do local foi dando lugar ao crescimento urbano e, hoje, a região está inserida em um contexto complexo, em que a especulação imobiliária conflita diretamente com diversas ocupações de favelas e deteriorações de bairros. Esse cenário refletiu em uma forte desvalorização do local pelos alunos do 6º ano da EMEF Deputado Flores da Cunha. Mais do que isso: brigas e discussões se tornaram frequentes na escola entre os jovens, que promoviam forte hostilização dos colegas moradores dos bairros mais depreciados.

Ao tomar contato com essa problemática, a professora Rosely Marchetti Honório resolveu iniciar com os alunos um trabalho amplo de pesquisa da história privada e coletiva, passada e presente, que proporcionasse à turma o conhecimento e a compreensão da realidade e das dificuldades locais. "Reverter uma autoimagem negativa sobre si mesmo e o ambiente de estudo e moradia é construir um percurso de descoberta essencial para as escolas que querem formar espaços solidários, de convivência aberta e construtiva", afirma Paulo Eduardo Dias de Mello, coordenador do Grupo de Trabalho Nacional de Ensino de História e Educação da Associação Nacional de História (Anpuh).

A trajetória individual como marco

O trabalho começou com o estudo da vida pessoal dos estudantes. Para saber o que conheciam sobre a própria história, a professora aplicou a eles a primeira etapa de um questionário, que permearia outras fases do projeto. Cinco questões sobre dados pessoais foram respondidas: nome completo, data e local de nascimento, endereço residencial, tempo de moradia no bairro e de estudo na escola. O resultado surpreendeu Rosely. "Ao recolher as folhas, ficou ainda mais visível como o preconceito em relação ao local de residência estava presente na vida dos estudantes. Quase todos os endereços foram registrados com o nome do bairro alterado. Alguns jovens, inclusive, sequer preencheram essa questão por terem vergonha de escrever a verdade", relembra a educadora.

Em seguida, a docente propôs a criação de uma árvore genealógica com base nos nomes dos avós paternos e maternos de cada aluno. Ela explicou o significado e distribuiu exemplos impressos desse tipo de representação de parentesco. Como muitos não sabiam como se chamavam seus antecessores, a atividade teve que ser finalizada em casa, com a ajuda de familiares e pesquisas em certidões de nascimento. Para Mello, o envolvimento da parentela é essencial no êxito dessa atividade. "A família não deve ser convocada apenas para assistir a uma apresentação de conhecimentos transmitidos pela escola e reproduzidos em feiras ou representações. Também é preciso reconhecer que os membros familiares, além das pessoas da comunidade, são portadores de saberes sobre a memória de nós mesmos e de nossa localidade", explica.

Para aprofundar ainda mais a descoberta das histórias de cada estudante, Rosely retomou o preenchimento do questionário com a turma. Dessa vez, as perguntas estavam focadas nos nomes dos alunos: significados, quem os escolheu e por quê. A pesquisa etimológica aconteceu em duplas, na sala de informática do colégio. Já as demais respostas foram investigadas em casa, novamente com o apoio dos pais. "Amanda tem origem no latim e quer dizer ‘digna de ser amada’", anotou uma jovem. "Minha mãe me deu o nome Isabella porque era o da boneca que ela tinha quando era criança", descobriu outra estudante. O conteúdo foi compartilhado com os colegas em uma aula expositiva, para que todos dialogassem sobre as informações obtidas.

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