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Uma Teresina que não existe nos livros

Em um videodocumentário, os alunos do professor Luís Carlos Batista Rodrigues contaram como o comércio contribuiu para a organização do espaço da cidade

POR:
Fernanda Salla
Renata Larissa Vieira da Silva Farias. Foto: Benonias Cardoso
"Não tive dificuldade em memorizar minhas falas, pois aprendi sobre o assunto durante a pesquisa. Hoje conheço e valorizo muito mais a minha cidade." Renata Larissa Vieira da Silva Farias, 15 anos
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Pergunta do professor de Geografia durante a aula a uma turma de estudantes do 9º ano da capital do Piauí: - Como é o clima de Teresina? É úmido ou seco?

- É seco, pois ficamos no sertão nordestino - responde um dos adolescentes, que havia acabado de ver as características físicas da Região Nordeste nas páginas do livro didático.

- Tem certeza? - provoca o educador. - O ar está seco agora?

- Não. Está abafado.

Esse diálogo, protagonizado pelo professor Luís Carlos Batista Rodrigues e por um de seus alunos da EM São Sebastião, em Teresina, evidencia dois problemas enfrentados no processo de ensino: muitas vezes os livros didáticos simplificam e generalizam os aspectos relacionados a certas localidades, como é o caso da Região Nordeste. E, quando não são estimulados, crianças e jovens aceitam as informações que recebem sem questionar, mesmo que pareçam não ter sentido. "Os materiais didáticos não podem ser os protagonistas do conhecimento. Embora sejam uma fonte importante, cabe ao professor mediar o aprendizado dos alunos e ser também gerador de informação, criando situações de pesquisa planejadas e direcionadas para ampliar o repertório da turma", explica Sueli Furlan, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 (conheça as etapas da pesquisa na próxima página).

A justificativa para a aparente contradição em relação ao clima, ressaltada pela indagação feita por Rodrigues, tem uma explicação simples: apesar de ficar no interior nordestino, conhecido como um local de grandes secas, o município de Teresina é cercado por dois rios, o Parnaíba e o Poti, que tornam o clima da cidade úmido. Nesse caso, basta observar a paisagem. Mas e o resto? Apesar da extrema importância do comércio na região, faltam menções sobre essa característica nos livros escolares. Instigados a refletir sobre a realidade local, os 86 alunos do professor Rodrigues iniciaram uma investigação sobre a contribuição do comércio para a formação e o desenvolvimento teresinense.

"Além de suprir a lacuna dos materiais escolares, o educador promoveu o vínculo dos estudantes com a cidade ao proporcionar sua redescoberta", observa Irlane Gonçalves de Abreu, professora do curso de Geografia da Universidade Estadual do Piauí (Uespi). O olhar atento sobre sua organização socioespacial também possibilitou analisar o local dentro de um contexto mais macro. A escolha do comércio como fio condutor para a pesquisa tem motivo: a localização estratégica de Teresina favoreceu bastante a prática comercial e a ligação com o restante do estado e outras regiões. "É uma cidade que nasceu do comércio, e a mudança da capital do Piauí, que passou de Oeiras para Teresina no século 18, é consequência disso", explica Irlane.

De acordo com Sueli, entender como se dá a formação e o desenvolvimento dos lugares é um dos principais focos da Geografia. O tema pode ser estudado pelo viés da cultura, da política, em função do relevo ou até mesmo das bacias hidrográficas presentes na região, entre outros aspectos.

A valorização dos procedimentos de pesquisa foi um importante diferencial do trabalho do professor Rodrigues. Como todas as ciências, a Geografia se baseia na investigação. A ida a campo incluiu ferramentas como observação, registro, leitura de bibliografia e entrevista, proporcionando um contato dirigido com a realidade de Teresina. "Essa aproximação é fundamental para a compreensão da área, pois ela trata da leitura e interpretação do espaço geográfico. Como fazer isso sem conhecer o local no qual as atividades e relações sociais, econômicas e culturais se desenvolvem?", provoca Elisabeth Mary de Carvalho Baptista, professora doutora do curso de Geografia da Uespi.

Durante o projeto, a garotada coletou dados dos comerciantes e dos consumidores em diferentes pontos comerciais, analisando o impacto de suas atividades. Segundo Sueli, trabalhar o que e como perguntar deve ser incluído nas práticas pedagógicas do docente. "O conhecimento se processa por perguntas, por inquietações que nós temos e por respostas. Aprender a fazer isso move o saber", explica. Para explorar essa competência, ela sugere que se desenvolva com os alunos uma parte de pesquisa qualitativa, com perguntas abertas, que lhes revelaria aspectos interessantes da percepção das pessoas sobre a realidade local. Ela afirma ainda que os dados levantados com o questionário fechado aplicado pelos alunos pode ser usado para fazer gráficos e tabelas que evidenciem o perfil dos entrevistados, estimulando reflexões e comparações entre os resultados obtidos.

Com o objetivo de organizar as informações coletadas durante a investigação, o projeto do professor Rodrigues culminou em um documentário narrado pelos alunos, que também elaboraram o roteiro. "A falta de dados na bibliografia nos levou a produzir o próprio material informativo. Ao mesmo tempo, eu queria valorizar a produção dos estudantes, que também são agentes pesquisadores e produtores de conhecimento", relata Batista. Existem publicações sobre Teresina, mas o vídeo reúne os conteúdos em uma única fonte, de forma inédita. "Por isso é interessante socializá-lo para que outras pessoas possam ter acesso a esse conteúdo", diz Irlane. "Quem dera outras cidades tivessem na escola um núcleo de construção de materiais importantes para entender a formação socioespacial da própria localidade", afirma Sueli.

Dica da coordenadora pedagógica
"Rodrigues apresentou a ideia do vídeo para mim e para a coordenadora Ana Maria Martins, e nós o ajudamos a detalhá-la. O planejamento evita que conhecimentos importantes sejam negligenciados."
Clotilde Maria Chaves Teixeira, coordenadora pedagógica da EM São Sebastião

Teresina redescoberta
Com o passo a passo organizado pelo professor, a garotada percorreu as ruas do centro de Teresina com objetivos claros: entender a formação do espaço e qual o papel do comércio

Ponto de partida: saber o que já existe sobre o assunto. Foto: Benonias Cardoso

Ponto de partida: saber o que já existe sobre o assunto
Luís Carlos Batista Rodrigues deu uma aula expositiva sobre a formação de Teresina e disponibilizou teses e livros usados na universidade, além de mapas da região, para a consulta dos alunos, que discutiram em grupos. O professor também levou material construído por ele, que chamou de "caderno de atividades", com textos e questionários. Para coletar dados in loco, a primeira parada foi no marco zero da cidade (na foto, à esquerda).

 

Máquinas fotográficas e olhares atentos. Foto: Benonias Cardoso

Máquinas fotográficas e olhares atentos
Munidos de câmeras fotográficas, canetas e caderno de atividades, os alunos registraram o que viram e as explicações do professor diante do antigo cais do Parnaíba, rio que corta Teresina. Navegável, ele teve um papel essencial na formação da cidade e permitiu a chegada e a saída de produtos, fomentando o comércio local. Por essa facilidade, a indústria têxtil se estabeleceu na capital.

 

Nada como ir direto à fonte . Foto: Benonias Cardoso

Nada como ir direto à fonte
A turma entrevistou comerciantes para saber sobre o comércio e a realidade das pessoas que vivem dele. Os alunos visitaram o prédio preservado do Mercado Central e o Shopping da Cidade, construído para abrigar os camelôs que ocupavam as ruas do centro. Antes existia uma rodoviária rural no local: um exemplo da interferência da dinâmica comercial na paisagem.

 

Conhecimentos narrados em vídeo. Foto: Benonias Cardoso

Conhecimentos narrados em vídeo
O antigo prédio da fiação, a primeira fábrica de tecidos de Teresina, hoje é uma loja popular. A mudança de função foi destacada no vídeo, narrado por três alunos, entre eles, Ciro Daniel Soares Silva, 16 anos. "A gente sempre ouve que Teresina é uma das mais pobres capitais do Brasil e não sabe a história por trás de suas conquistas, que é de muita luta e perseverança. Aprendi coisas que eu nem imaginava", diz Ciro.

 

Missão cumprida: o filme é exibido. Foto: Benonias Cardoso

Missão cumprida: o filme é exibido
Com todas as informações em mãos, os estudantes realizaram uma plenária, mediada pelo professor, e concluíram o roteiro do documentário. No fim do projeto, todos assistiram ao vídeo, que contou com narração, roteiro e pesquisa dos próprios alunos. Importante fonte de informação sobre a cidade, o filme foi compartilhado por Rodrigues com colegas de profissão.

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